Contrabando do pintassilgo vira negócio tão lucrativo quanto tráfico de drogas

Marie Béatrice Baudet

  • Thierry Roge/Reuters

    Pintassilgo da região himalaia é visto em Bruxelas

    Pintassilgo da região himalaia é visto em Bruxelas

Em uma foto em preto e branco, um jovem de origem magrebina aponta para sua têmpora uma pistola com um silenciador, simulando um suicídio. Ele sorri. Isso diverte esse líder de gangue blefador, delinquente bem conhecido da brigada anti-criminalidade de Marselha. Longe dos tráficos de armas e de drogas, seu rosto acabou aparecendo em uma investigação conduzida há vários meses pela Agência Nacional da Caça e da Fauna Selvagem (ONCFS, sigla em francês), a polícia ambiental. O delinquente do silenciador é suspeito de pertencer a uma rede que caça o pintassilgo (Carduelis carduelis), passarinho tão gracioso e colorido cujo canto melodioso teria inspirado a música andaluza.

Jean-Yves Bichaton, chefe do serviço departamental da ONCFS em Bouches-du-Rhône, segura firme um dossiê enorme, como prova de sua determinação em desmontar toda a rede. Ele explica que os passarinhos são capturados na região e na Córsega, ou importados do Norte da África nas bagagens de passageiros das balsas e dos aviões que chegam a Marselha.

"Em seguida eles partem para Paris e depois para a Bélgica, um dos hubs do tráfico de pássaros na Europa", ele explica. "Considerando o dinheiro que há em jogo, até 800 euros (mais de R$ 3.200) em média por dia para um contrabandista hábil, certamente existe um coordenador por trás dessa cadeia."

Em seu gabinete com vista para as colinas bucólicas de Aix-en-Provence, o policial está decidido a usar plenamente as novas prerrogativas de investigação que uma decisão de 2012 concedeu aos agentes da ONCFS. Estes agora podem fazer buscas e obter informações junto a bancos e administradores de websites.

"Até alguns anos atrás, eu nunca teria imaginado acionar recursos como esses para combater o tráfico de pintassilgos."

Com sua máscara vermelha ao redor dos olhos e suas asas negras marcadas por um amarelo vivo, a beleza do fringilídeo sempre seduziu as pessoas. O pintor holandês Carel Fabritius, aluno de Rembrandt e mestre de Vermeer, usou o pássaro como modelo para um quadro de 1654 exposto no Mauritshuis, em Haia, que reflete admiravelmente a fragilidade do animal, uma bola de plumas com 12 cm de altura e um peso de somente 15 gramas. Ele é protegido em estado selvagem em toda a Europa a partir de uma diretiva aprovada em Bruxelas no dia 2 de abril de 1979, transposta para a legislação francesa dois anos depois.

À beira do Mediterrâneo, o pintassilgo é dado de presente assim como se oferecem flores, para alegrar a casa. Esse pequeno príncipe é ao mesmo tempo colorido e bom cantor, uma dupla qualidade rara entre os pássaros. Os admiradores reconhecem facilmente seu canto, um piado trissílabo ligeiro e um tanto metálico. O pássaro costuma ser a estrela em concursos de canto organizados no Magreb, no Norte da França e na Bélgica.

Dizem que seria um legado cultural dos mineradores, que costumavam levar para baixo da terra passarinhos ultrassensíveis às emanações de gases. Já nos primeiros momentos de uma explosão de gás, os animais batiam as asas e se eriçavam, último movimento antes da asfixia. Os mineiros entendiam então que precisavam subir urgentemente à superfície.

Nos últimos anos, a caça ilegal tradicional deu lugar a um contrabando de grande escala. Na Argélia, o "El Meknine" ou pintassilgo parva, uma espécie específica do Norte da África, praticamente desapareceu.

Contrabandistas costumam encaminhar milhares deles até o Marrocos, no dorso de jumentos. Na Europa, a demanda vem aumentando. Além de pessoas comuns fascinadas pelo pássaro colorido, criadores pouco escrupulosos tentam enriquecer sua oferta comprando fenótipos selvagens a cuja posse eles não têm o direito. Um pintassilgo que acasale com uma fêmea canária gera um híbrido chamado de "mula", também um magnífico cantor.

Mas o Graal é conseguir, de cruzamento em cruzamento, um pintassilgo variegado, chamado "garganta branca". Sua venda pode render até 1.000 euros, afirma Stéphane Schlub, biólogo e apaixonado por esse pássaro, que ele cria com amor e respeito.

Na França, os números do Museu Nacional de História Natural, que criou em 1989 o programa de "acompanhamento temporal dos pássaros comuns", mostram que, entre 2001 e 2014, a população de pintassilgos caiu 55%.

Na melhor das hipóteses restariam somente 1,5 milhão de casais em nosso território, contra mais que o dobro 15 anos atrás. O passarinho agora enfrenta um risco elevado de extinção em estado selvagem.

Em setembro, seu status passará, como era de se esperar, de "preocupação menor" (atribuído em 2009) para "vulnerável" na lista vermelha das aves nidificadoras da França, estabelecida pela União Internacional pela Conservação da Natureza e revisada a cada sete anos.

"A situação é muito preocupante", acredita o ornitólogo Frédéric Jiguet, membro do Centro de Pesquisas sobre a Biologia das Populações de Pássaros do Museu. "A urbanização, o fim das terras de pouso agrícolas obrigatórias e o desaparecimento dos campos de sapé acabaram com os lugares onde os granívoros como o pintassilgo se alimentam durante o inverno. E agora, com essas caças ilegais em massa..."

Os métodos de captura do pássaro diferem de uma região para outra. No Sul, os caçadores passam cola nos galhos. Um chamariz —um celular com um aplicativo que reproduz os cantos dos pássaros pode servir— atrai seus congêneres. O método é particularmente cruel. Basta uma dose errada para que as patas do pássaro pego só possam ser descoladas com cinzas ou farinha. O pássaro é então mutilado. Muitos morrem também algumas semanas depois de serem capturados, por excesso de estresse e manipulação. Somente um dentre dez conseguiria sobreviver.

"Aqui as pessoas usam armadilhas: duas estacas, uma rede de 6 m de comprimento e 2 m de altura e um chamariz", conta Bertrand Warnez, chefe de departamento da ONCFS para o departamento de Norte. O agente tem 38 anos de experiência. Ele conhece os caçadores. Em compensação, ele tem descoberto novos clientes com os quais precisa lidar "e que são conhecidos da polícia por outros crimes".

Com monitoramento à paisana, carro sem identificação policial, rastreamento digital, a brigada teve de mudar seus métodos de trabalho. A equipe vem sendo mobilizada há semanas em duas investigações "pesadas" que evidenciam uma rede estruturada.

Esse dia de abril começa com uma inspeção por diversos terrenos de captura detectados. Em Loos, duas estacas continuam fincadas em um antigo terreno industrial, mas sem rede. No solo úmido, os vestígios de uma armadilha recente: feixes de hastes de bardana e de dipsacus conhecidas pelo nome de "taverna dos pássaros".

O passarinho adora as sementes das duas plantas, ainda que prefira as do cardo, daí seu nome científico (Carduelis). "Muitas armadilhas também são montadas nos jardins das casas, o que complica nosso trabalho", conta um dos agentes da ONCFS.

Antes de entrar em uma antiga cidade mineradora, o policial para o carro ao final de uma estrada de terra, perto de uma zona úmida. Os habitantes costumam cruzar com ele quando este coloca anéis nos pássaros, mas dessa vez os pássaros ficarão em paz. O homem coloca uma folha A3 no capô do veículo, que traz o esquema da rede, com nomes, estado civil, mas ainda vários pontos de interrogação em diversos casos.

"Tudo saiu de controle cinco anos atrás. Sentimos que os caçadores estavam se estruturando, se organizando, expandindo os pontos de armadilha. Nossas pistas levavam para a Bélgica."

Foram dadas as instruções. Quando o carro passasse em frente ao domicílio dos suspeitos, era importante não encará-los, fingir como se estivesse procurando um endereço. Quando se percorrem as ruas, é possível entender que recrutar intermediários não deve ser difícil nessas terras de grande pobreza. É um dinheiro fácil para pessoas que sobrevivem de benefícios sociais mínimos.

Quinze dias de prisão

Embora os departamentos de Norte e Bouches-du-Rhône se encontrem sob alta vigilância, o tráfico atinge toda a França. Alertada por seus membros, a Liga pela Proteção dos Pássaros (LPO, sigla em francês) entrou com uma ação há dois anos para dezenas de casos que envolvem o comércio ilegal de pintassilgos.

"Não é necessário ir muito longe. É só andar em um domingo pelo mercado de pássaros de Paris, na Île de la Cité", diz irritado Allain Bougrain-Dubourg, presidente da LPO. "Há gente oferecendo passarinhos escondidos no porta-malas de carros estacionados."

O contrabando se estende ainda pelo poderoso vetor da internet, mas os criminosos já fizeram as contas. Um pintassilgo é vendido em média por 150 euros (R$ 610), ou seja, 10 euros o grama, como a maconha. As punições são muito diferentes: um ano de prisão no máximo pela captura e pela detenção de uma espécie protegida. Já um pequeno traficante de drogas pode pegar até cinco anos de prisão.

No entanto, a intensificação do tráfico não passou despercebida pelos magistrados e alguns deles decidiram ser duros. No dia 7 de abril, o tribunal de Perpignan condenou um caçador ilegal a 15 dias de prisão, 2.800 euros (R$ 11.400) de multa e 1.600 euros (R$ 6.500)  de indenização a serem pagos à LPO, bem como ao grupo ornitológico de Roussillon, que entraram com uma ação.

Por considerar que "se tratava de um fenômeno significativo na região, o ninho de um comércio clandestino", a procuradora Elodie Torresavait pediu um mês de prisão e 1.000 euros (mais de R$ 4 mil) de multa.

"Normalmente é ou nenhuma pena de prisão, ou prisão somente em caso de reincidência. Estamos progredindo", comemora Jean-Yves Bichaton, da ONCFS de Bouches-du-Rhône, já assíduo dos tribunais de Marselha.

Na sede da ONCFS, na avenida de Wagram, em Paris, Didier Donadio, diretor da polícia da agência desde o final de fevereiro, fala sobre o caso. Segundo suas informações, dezenas de milhares de pássaros, no mínimo, seriam capturados todos os anos.

"O tráfico atingiu uma dimensão sem precedentes. Muitas peças do quebra-cabeça ainda precisam ser encaixadas, mas certamente estamos na presença de diversas redes, cujo destino final é a Bélgica."

Outros elementos, transmitidos por seu antecessor Hubert Géant, o deixaram perturbado. Durante uma busca em Yonne, os agentes da ONCFS descobriram bandeiras pretas da organização Estado Islâmico penduradas na parede. Uma outra investigação mostrou que os caçadores ilegais perseguidos eram próximos de círculos radicalizados.

"Também tem esses pseudônimos utilizados por alguns vendedores nos sites belgas: Osama, Abu...", diz com preocupação o policial, alarmado por descobrir que um laço, por mais tênue que seja, possa existir entre o pintassilgo e o universo sombrio do terrorismo.

Tradutor: UOL

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