Bienal de Dacar mobiliza artistas engajados contra as tiranias

Philippe Dagen

  • Seyllou/AFP

    Barraca de frutas é vista diante de cartaz da Bienal de Dacar, em Dacar, no Senegal

    Barraca de frutas é vista diante de cartaz da Bienal de Dacar, em Dacar, no Senegal

Bienal é arquitetura, como mostram o Arsenal de Veneza e o prédio de Oscar Niemeyer em São Paulo. Simon Njami, curador da 12ª Bienal de Arte Africana Contemporânea —Bienal de Dacar, fundada em 1992, ou Dak'Art— tem experiência nisso e portanto sabe a importância do local.

A edição deste ano, "Réenchantement" ("reencantamento"), reúne 66 artistas, alguns deles nascidos e residentes no continente africano, e outros descendentes de famílias exiladas pelo tráfico de escravos no passado, e pela imigração econômica posterior. Para eles, ele escolheu o antigo palácio da Justiça da capital, inaugurado em 1956, pouco antes da independência.

Construído no cabo Manuel, ele foi abandonado ao longo dos anos 1990 porque a instabilidade do terreno, atacado pelo mar, o foi tornando cada vez menos habitável. Ele se deteriorou, mas a estrutura se manteve. Alta e ampla, ela associa linhas e quinas no estilo Bauhaus com um leve neoclassicismo das pilastras e do teto com caixotões de concreto.

O centro é ocupado por um jardim quadrado com árvores. Em volta há um monumental foyer, uma selva de colunas octogonais, para a qual se abrem salas de audiência e escritórios desativados. Foi uma boa ideia transformar essa obra-prima no palco da Bienal, algo que necessitou de determinação e mais de um milhão de euros em reformas.

Poder e colonialismo

Foi sobretudo uma ideia justa: o palácio foi erguido como um símbolo da lei e do poder do Estado, em um momento em que a descolonização era algo inevitável. Só que essas duas questões, poder e colonialismo, são o que dominam a exposição. A coincidência entre o lugar e a proposta foi tão completa, que bastou para o camaronês Bili Bidjocka cobrir de terra e de pedras o chão de uma sala outrora pomposa e escrever nas paredes frases como: "Nós somos ruínas mercantis circulatórias".

Ou para Fabrice Monteiro, um belga-beninense, pendurar na parede de uma outra sala grandes fotos parodiando os retratos oficiais do "pai da nação" ou do "líder supremo" sentados em um trono que parece ser em forma de águia, mas que afinal representa um pombo. Da mobília colocada no fundo da sala, se ouvem discursos de Mobutu, Bokassa e outros ditadores. É como se estivessem lá.

O tom geral está dado: a raiva contra todas as tiranias, sejam elas políticas, religiosas ou financeiras. A maior parte das obras é em tom satírico ou de denúncia, como o destino das revoluções árabes nos vídeos sarcásticos do egípcio Moataz Nasr e de sua compatriota Heba Amin. Também egípcio, Nabil Boutros simboliza a história cercando com um fio de arame farpado uma nuvem de sacos plásticos iluminada por dentro por neons flutuando no teto, em uma obra intitulada "Um sonho".

Kader Attia, em homenagem à dor do povo palestino, criou árvores com barras de aço, com estilingues no lugar dos frutos. A tunisiana Mouna Karray fotografa o itinerário de uma estranha forma branca, que pode ser um cadáver enrolado ou uma trouxa de roupas, em vilarejos miseráveis e no deserto. Para todos, a exigência é a mesma: inventar formas entre narrativa local e simbolismo geral, o que também é feito com sucesso pela moçambicana Eurídice Getúlio Kala que usa o branco, cor da farinha, do sal, do casamento e da pele dos colonizadores.

Sua obra é emblemática também de uma das principais características da Bienal: a presença de artistas mulheres, a maioria delas jovens, vindas de países muçulmanos e que combatem as proibições impostas pelas tradições e pelas religiões. Se tivessem que escolher somente uma marca dessa edição, seria o número de mulheres e a força de seu engajamento.

A marroquina Safaa Mazirh pôde verificar que essas proibições persistem. A sala onde estão penduradas suas fotos esculturais de mulheres em um banho turco foi alvo de uma tentativa de fechamento forçado, logo frustrada. E por quê? Em razão da nudez feminina, que tanto assusta os fundamentalistas, inimigos do corpo.

Fatima Mazmouz, também marroquina, ousa o grotesco, exibindo-se grávida de oito meses e fantasiada de lutadora, a Super Oum. Já a tunisiana Héla Ammar evoca o sangue, da menstruação e dos sacrifícios, em uma série de autorretratos sem emoção, o que os torna ainda mais fortes.

Há também sobriedade, como nos retratos de mulheres pintados pela argelina Dalila Dalléas Bouzar e inspirados nas fotografias tiradas por Marc Garanger durante a guerra da Argélia. Essas fotos policiais eram de mulheres obrigadas a mostrar o rosto e o cabelo, cuja dignidade e identidade foram devolvidas pela pintura.

Ainda sobre o tema de corpos e sofrimento, temos a instalação de frascos e ampolas de vidro de formas estranhas, contendo fluidos, da jovem egípcia Yasmine El Meleegy. A peça se chama La Fièvre (A febre). A coerência da raiva que liga todos esses trabalhos é flagrante.

Em segundo plano há a questão da globalização, ou seja, a ocidentalização forçada e as resistências que ela suscita. Alexis Peskine lembra sua história em uma instalação complexa, uma versão moderna da Balsa de Medusa, de Géricault.

Ela esconde um dos melhores vídeos da Bienal, gravado em Paris, no Trocadéro e no palácio de Porte Dorée. Uma mulher e um homem vestidos com trajes africanos usam à guisa de coroas miniaturas douradas da Torre Eiffel, como as que são vendidas aos turistas em Paris.

Ex-combatentes, Império francês, exotismo barato, imigrantes clandestinos: a obra concentra esses temas e faz várias alusões à arte europeia. Estas transparecem também nas fotografias caravaggescas ou holandesas do ganense Poku Cheremeh e no vídeo em cinco telas do etíope Theo Eshetu, modelo de edição e reflexão sobre a força memorial das imagens.

E a lista não termina, com Samson Kambalu, vindo do Maláui, um estilista do absurdo, e o sudanês Ala Kheir, um grande fotógrafo das ruínas modernas.

O único defeito, por assim dizer, dessa densidade, é que os outros eventos oficiais da Bienal parecem sem graça em comparação. Das exposições de curadores convidados por Simon Njami a ocupar as salas do Ifan (Instituto Fundamental da África Negra), só se destaca a do beninense Emo de Medeiros, que brinca com a noção de primitivismo.

Os não oficiais são bem mais interessantes, ainda que espalhados por endereços desconhecidos dos taxistas. Entre outros sucessos e surpresas, estão: os murais satíricos de Dan Perjovschi no espaço Zone B do centro de arte RAW Material Company; as pinturas levemente irônicas de Kassou Seydou expostas no Dance Hall, uma escola de dança afastada do centro; e a exposição "Enchantement-Mers mortelles", na casa da designer de tecidos Aissa Dione. Ali é possível encontrar, entre outros, Omar Ba e Patrick Joel Tatcheda, pintores de alto nível, e os vídeos de Adad Hannah —de novo a Medusa— e de Emmanuel Trousse, trabalhos que poderiam muito bem estar expostos na "Réenchantement".

 

Tradutor: UOL

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