Ilha no Chile está em pé de guerra após proliferação de alga tóxica transformar região em cemitério marinho

Christine Legrand

  • Esteban Felix/AP

    Pescador inspeciona mariscos cobrindo a praia de Cucao, na ilha de Chiloé, no Chile, que foi declarada zona de emergência devido à maré vermelha

    Pescador inspeciona mariscos cobrindo a praia de Cucao, na ilha de Chiloé, no Chile, que foi declarada zona de emergência devido à maré vermelha

Os pescadores artesanais do arquipélago de Chiloé, na Patagônia chilena, 1.000 km ao sul de Santiago, estão em pé de guerra diante da mais grave catástrofe ecológica dos últimos anos, que transformou o oceano Pacífico em um cemitério marinho.

Proibidos de pescar por causa de uma "maré vermelha", eles recusaram, na sexta-feira (6), por considerarem "insuficiente", a indenização proposta pelo governo da presidente Michelle Bachelet, no valor de 400 mil pesos (R$ 2.063) cada, bem como 250 mil pesos por família.

Por não haver um consenso quanto ao número de pescadores afetados, o governo anunciou na última segunda-feira que de qualquer forma ele pagaria um título de 300 mil pesos (R$1.552) e depois 150 mil pesos por mês durante três meses.

Essa "maré vermelha", que deverá se prolongar por quatro meses, segundo especialistas, é formada por uma concentração atípica de organismos unicelulares, algas microscópicas —a Alexandrium catenella— que intoxicam os frutos do mar. Seu consumo, mesmo em pequena quantidade, pode provocar danos ao sistema nervoso, paralisia muscular ou até respiratória, levando à morte caso a pessoa não seja tratada rapidamente, explicou o ministério da Saúde chileno.

Desde 1972, 23 pessoas morreram no Chile após ingerirem frutos do mar contaminados. Não é a primeira vez em que Chiloé é vítima dessa catástrofe. Houve marés vermelhas em 2002, 2006 e 2009.

Há uma semana, centenas de pescadores que ficaram sem trabalho, acompanhados de suas famílias, estão bloqueando os acessos que ligam o continente ao arquipélago, que possui 170 mil habitantes e se estende por 180 km do norte ao sul, exigindo uma ajuda maior do Estado. Eles ergueram barreiras e queimaram pneus.

A escassez já está sendo sentida: não há mais peixe nos mercados, os postos de gasolina estão fechados, e o combustível foi reservado estritamente para veículos de socorro, além de estarem em falta medicamentos e produtos básicos tanto em pequenos comércios quanto em supermercados.

As escolas foram fechadas, e os turistas, que vieram para admirar as casas típicas de madeira coloridas em palafitas e as cerca de 70 igrejas de Chiloé, estão presos nessa região de lagos e geleiras.

Mortandade misteriosa

Há vários meses, alarmantes e misteriosas mortandades de espécies marinhas têm acontecido: na noite de 25 de abril, dezenas de milhares de "machas", mariscos típicos do Chile, foram encontradas mortas ao longo de 5 km de praias em Cucao. Depois, foram cerca de 8 mil toneladas de sardinhas e camarões.

Ivan Alvarado/Reuters
Manifestantes que apoiam pescadores afetados pela maré vermelha entram em confronto com a polícia em Santiago, no Chile

No início do ano, foram 40 mil toneladas de salmões que morreram por asfixia. Um primeiro desastre ecológico, quando mais de 330 baleias foram encontradas mortas em um fiorde isolado da Patagônia, em 2015, havia surpreendido a comunidade científica internacional.

Certos especialistas associam esses acontecimentos ao fenômeno climático El Niño, que atinge sobretudo a América Latina, provocando um aquecimento das águas do Pacífico, propício à proliferação de algas que consomem o oxigênio dos peixes ou induzem uma forte concentração de toxinas como no caso da maré vermelha.

Essa explicação é rejeitada pelos pescadores de Chiloé, que culpam as multinacionais da indústria do salmão. Eles alegam que a "maré vermelha" está agressiva dessa forma por causa das toneladas de salmão contaminados que foram despejados no mar no início de 2016.

A indústria do salmão é muito poderosa no Chile, que é o segundo maior produtor desse peixe no mundo, atrás somente da Noruega. O ministro da Economia, Luís Felipe Céspedes, encarregado das negociações com os pescadores, anunciou no último sábado (7) que pediria "a um grupo de cientistas independentes que realizassem os estudos necessários para avaliar as diferentes hipóteses".

Em Chiloé, que concentra dois terços dos pontos de produção que não podem mais exportar salmão, as perdas estão avaliadas em US$ 9 milhões (R$ 31 milhões) por dia para a indústria local. A indústria do salmão produz 800 mil toneladas por ano e gera uma receita de US$ 3,5 bilhões.

"Nós entendemos o problema dos pescadores artesanais, mas é preciso encontrar uma solução, senão os prejuízos vão se ampliar", alertou Felipe Sandoval, presidente da SalmonChile, associação que reúne as empresas do setor.

Tradutor: Lana Lim

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