Opinião: Discurso de esquerda passa por preocupante racialização na França

François Noudelmann

  • Loic Venance/ AFP

    Jovens franceses protestam contra reformas trabalhistas, em Nantes

    Jovens franceses protestam contra reformas trabalhistas, em Nantes

Para serem politicamente corretos e por culpa pós-colonial, alguns acadêmicos defendem o direito às classes não mistas, ou seja, a separação entre brancos e não-brancos, um perigoso retrocesso

Desde os atentados contra o "Charlie Hebdo", tem surgido um discurso crítico entre certos acadêmicos que empregam uma linguagem racial, identificando falas brancas e não brancas. Essa divisão dos seres falantes de acordo com sua cor foi reivindicada por professores da Universidade Paris-8 durante greves contra a lei trabalhista e recentemente pelos signatários de uma petição que pede para que as classes não mistas sejam reconhecidas como um direito (Mediapart, 4 de maio).

Esses apelos provenientes de uma universidade que surgiu em 1969, a partir de um movimento de contestação, revelam um desvio de seu espírito e de suas práticas. No mundo dessa universidade se cruzam estudantes de origens e culturas diversas. As línguas, as cores e os estilos de vida coabitam, as usuárias dos véus mais variados convivem com as mais despidas, a maior parte reunida em lugares de saber e de pesquisa.

A promoção de atividades separadas entre brancos e não-brancos, ainda que seus defensores "brancos" declarem apoiar os outros, é sintomática da traição por uma certa esquerda dos ideais libertários de 1968 que defendiam a igualdade das raças e dos sexos, a liberdade sexual, o direito à falta de religião, o acolhimento aos marginalizados e, de forma mais geral, a hibridização dos corpos, dos saberes e dos pensamentos.

Ao dividir a sociedade em brancos dominantes e não-brancos dominados, esse novo discurso de esquerda volta a tocar uma antiga cantilena marxista, sem imaginação, anterior a Sartre, Marcuse e Castoriadis. Ele busca desesperadamente preencher o espaço vazio do proletário perdido com uma vítima indistinta, símbolo de todos os oprimidos, definida como "não-branca", e que seria o último recurso para relançar a dialética revolucionária.

Marxismo esfarrapado

Ao hipostasiar os oprimidos que se encontram fechados em uma cultura homogênea, esse marxismo esfarrapado se reveste de uma retórica segregacionista que os campi americanos promoveram e já superaram.

Mas os seguidores politicamente corretos a copiam ingenuamente nas sociedades europeias, que no entanto não possuem a mesma história dos Estados Unidos. Mais profundamente, por trás desses argumentos, se esconde um moralismo que não tem nada de político, socorrendo os fracos e se penitenciando nobremente.

Os brancos que recomendam aos não-brancos que os excluam mostram que eles estão ao lado das vítimas, em uma abnegação que os dispensa de qualquer análise, sobretudo quanto às disparidades entre os grupos oprimidos. Eles mantêm como único guia o politicamente correto que afoga os outros no oceano de seu arrependimento.

A sociologia invocada por esses devotos contritos mascara uma crença moral que os dispensa de analisar seu próprio meio sociocultural, uma vez que a desconstrução da experiência crítica não é o forte deles. No entanto, eles não evitam o paradoxo de continuarem sendo brancos que falam em nome dos "não-brancos", ou seja, em seu lugar, e que ainda por cima renovam uma categoria etnocentrista do tipo "os não-europeus".

O direito à não-mistura não poderia permitir esquecer que essa não-mistura é, na história das relações de poder, um dever e uma ordem para a separação. As sociedades ou os grupos evidentemente se distinguem por semelhanças e diferenças, e critérios empíricos permitem identificar aquilo que os une e os separa. Que seres se reagrupem por familiaridades ou interesses, que eles se juntem diante de uma estigmatização, que eles exijam o reconhecimento de erros passados e presentes, é lógico e legítimo.

Mas promover essa segregação por princípio (sem participar dela), e não por costume ou circunstância, é promover a ideologia da separação, comum aos apartheids radicais, sociais e sexuais. É ir no sentido de um essencialismo que fecha os indivíduos em sua suposta cor. E mesmo que a reivindicação de um direito à não-mistura remeta a uma inversão da hierarquia racial, colocando o branco em posição de recuo, ela incentiva a ideia de uma desigualdade de raças e a pulsão de uma rejeição imunitária das alteridades.

A história das lutas emancipatórias, pelo contrário, mostra que a mistura é uma vitória contra a separação: entre homens e mulheres, entre pobres e ricos nas escolas, nos espaços públicos, nas instituições, no trabalho; a dos seres de cores diferentes e seu direito de formar "casais mistos". Num momento em que essas misturas são revistas, sobretudo pelas religiões, nas escolas, nos hospitais, nas piscinas ou nos matrimônios, o apelo para se apoiar um direito à não-mistura consona com os poderes obscurantistas.

Mais perniciosa ainda, a retórica da separação culmina na exclusão daqueles que não entram no dualismo entre brancos e não-brancos. Onde devem se situar todos aqueles que não se reconhecem nessas definições? Esses não têm lugar nas categorias racialistas de esquerda e de direita. Devem eles pensar que sua fala é de cor cinza claro ou branco escuro? Estarão eles sujeitos à terminologia racial que nas sociedades de apartheid definia proporções, como um quarto branco ou um oitavo não-branco, para saber se eles podem participar das discussões?

Na cisão da esquerda entre o republicanismo que mascara as discriminações reais por trás do universal abstrato e o identitarismo que define os indivíduos por suas cores e genealogias, está na hora de dar espaço para outras vozes. Contra a lógica segregadora, é preciso defender a mistura como princípio sociopolítico e promover os imaginários do encontro, dos interstícios, das crioulizações, das personalidades múltiplas e das afinidades coletivas.

 

Tradutor: UOL

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