Pré-candidato à Presidência francesa também quer referendo sobre UE

Arnaud Leparmentier

  • Thomas Samson/AFP

    O pré-candidato à Presidência da França pelo partido Os Republicanos, Bruno Le Maire (esq), entrega material de campanha a simpatizantes, em Paris

    O pré-candidato à Presidência da França pelo partido Os Republicanos, Bruno Le Maire (esq), entrega material de campanha a simpatizantes, em Paris

Socorro, os referendos estão de volta!

Não, não se trata da consulta do dia 23 de junho que poderá provocar o "Brexit" (a saída do Reino Unido da Europa) e o desmantelamento da União Europeia (UE), mas sim da iniciativa desconcertante de Bruno Le Maire: o candidato das primárias da direita pretende utilizar esse instrumento caso seja eleito presidente da República.

Le Maire parte de uma constatação correta. "Existe uma mágoa europeia na França: a mágoa do 'não' ao referendo de 2005. Depois desse 'não', os defensores do 'sim' ignoraram a voz do povo", ele alertou, na última segunda-feira (9), em Berlim, 70 anos após a "Declaração Schuman", que deu início à união europeia. Foi o Tratado de Lisboa, aprovado por via parlamentar em 2008. "Para curar a mágoa de 2005, eu proponho voltar a dar a palavra ao povo soberano."

Há motivos para preocupação. Mais especificamente, Le Maire quer que os franceses se pronunciem sobre um novo tratado a respeito da UE de 28 Estados-membros, que seria preparado pelos seis países fundadores (França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Que tratado europeu ele pode esperar firmar, sendo que os ingleses, após anos de trabalho, não foram nem mesmo capazes de apresentar o plano de uma UE simplificada e reformada?

O ex-ministro está se envolvendo com uma promessa que poderia obrigá-lo a apostar o destino da Europa em um tudo ou nada, como hoje tem feito David Cameron, o primeiro-ministro britânico.

Cada um com sua parte da herança

Em compensação, do ponto de vista estratégico o artista está de parabéns! Com essa jogada, Bruno Le Maire seduz os soberanistas e as classes populares que denunciam, com certa razão, o que seria o confisco de uma democracia. E ele indiretamente ataca Nicolas Sarkozy, que havia conseguido a aprovação do Tratado de Lisboa. Uma boa lição de gaullismo democrático, algo bem-vindo em uma campanha eleitoral.

Nicolas Sarkozy também falou nesse 9 de maio, ao conceder uma entrevista ao "Le Figaro" sobre o assunto no qual a Europa sempre fracassou: a defesa. O ex-chefe do Estado insistiu: "Uma defesa europeia integrada é uma falsa boa ideia, que contraria o princípio da independência nacional. É preciso colocar o poder nuclear francês sob a autoridade dos 28 Estados-membros? Seríamos varridos do mapa antes de ter convocado os chefes de Estado e de governo."

A declaração de Sarkozy, dada na véspera de uma convenção de seu partido sobre a defesa, é correta: não é a Comissão de Bruxelas que decidirá sobre guerras e mortes. Mas o ex-presidente está enviando um sinal político importante. Falar em defesa é mostrar que a Europa não é o assunto do dia. O caso completa o processo do sistema Schengen instruído desde 2012 por Sarkozy. No dia 9 de maio, o presidente do Les Républicains não estava festejando a Europa, mas sim a França e sua dissuasão. Também gaullista.

Cada um com sua parte da herança: François Fillon, que votou 'não' ao Tratado de Maastricht, voltou ao gaullismo das origens: o antiamericanismo.

"Sem se dar conta, a Europa passou para dominação completa dos Estados Unidos", denunciou, na segunda-feira, na "France Inter", o ex-premiê, antes de pronunciar um discurso em Estrasburgo.

Fillon, amigo dos russos, quer uma verdadeira defesa europeia: "A Europa precisa cuidar de sua segurança". E, furioso com as multas infligidas às empresas europeias que fazem negócios em dólares, ele quer fazer do euro uma moeda de reserva para se libertar do reinado do dólar. Em suma, uma Europa poderosa à moda gaullista.

Resta Alain Juppé, herdeiro aparente do gaullismo. Mas as viagens ao Québec e a vida girondina o suavizaram, deixando o favorito das primárias mais parecido com um cristão-democrata do que com um neogaullista triunfante.

Ele publicou no "Le Monde" um artigo tão ponderado que era quase enfadonho: "O bom senso popular sabe bem que a unidade da ação dos europeus é a condição prévia para qualquer esperança de eficácia", mostrando-se emancipado das comichões soberanistas.

Entre os gaullistas, quando se fala em Europa, é direto para Berlim que se vai, o que permite evitar a parada em Bruxelas. Foi conforme o legado de Charles de Gaulle, europeu pífio mas um grande alemão, que selou-se a reconciliação entre os inimigos de ontem. Hoje, falar em Alemanha é primeiramente a oportunidade para falar mal de François Hollande.

"Onde está a França na Europa? Em lugar nenhum. Quais são suas propostas para sair da crise? Nenhuma", lamenta Bruno Le Maire.

"Em vez de acusar Berlim de supremacia, faríamos melhor se nos perguntássemos por que Paris se encontra em situação de seguidora e não de líder", responde Fillon. E está aflito quanto a Sarkozy: "A França dispõe de um orçamento de defesa inferior ao da Alemanha. Simbólico, não?"

Todos concordam: o renascimento da Europa depende de um retorno da França. No plano econômico, cada um dá sua proposta para reforçar a zona do euro, como Sarkozy, que quer um FMI europeu e um secretariado-geral do governo econômico. Mas existe uma condição prévia, que é recuperar a confiança de Berlim. Será que Paris, que não respeita as regras do euro desde sua criação, finalmente se sujeitará às regras europeias e saneará suas finanças?

Os alemães desconfiam de Sarkozy. Eles ficam mais tranquilos com Juppé, que não descarta um aumento do imposto sobre o consumo, e com Fillon, que promete suor e lágrimas. Por fim, eles constatam que Le Maire defende as reformas, mas se recusa a "infligir um expurgo aos franceses". Este espera ganhar confiança graças a seu comprometimento franco-alemão: "Vocês, alemães, duvidam da palavra da França. Não duvidem mais". Nesses tempos turbulentos, os alemães gostariam de alguns sinais para recuperar a fé.

Tradutor: UOL

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