Incêndio em Fort McMurray é desastre ambiental e financeiro

Anne Pélouas

  • Tyler Hicks/The New York Times

    7.mai.2016 - Móveis e árvores queimados em Beacon Hill, Fort McMurray (Canadá)

    7.mai.2016 - Móveis e árvores queimados em Beacon Hill, Fort McMurray (Canadá)

Incêndio devasta região canadense já bastante afetada pela queda do preço do barril de petróleo

O helicóptero decola a partir do campo de beisebol de Wandering River, levando a bordo Kevi Mosich, residente desse primeiro vilarejo passando Fort McMurray, 204 km ao sul. No último domingo (8), ele organizou um transporte de urgência para bombeiros isolados no norte da capital das areias betuminosas.

Estes vêm combatendo incessantemente, há quase uma semana, as chamas do gigantesco incêndio florestal que forçou a remoção dos 80 mil habitantes de Fort McMurray, ao norte da região petroleira de Alberta, no dia 3 de maio. "Foram os bombeiros que pediram para que lhes enviássemos barrinhas e bebidas energéticas, medicamentos, lenços úmidos para se limparem", explica Dennine Giles, que parecia bem entusiasmada com a operação. "Nós lhes devemos isso, eles estão fazendo um trabalho extraordinário e praticamente salvaram nossa cidade." Exceto sua própria casa em Saprae Creek, em Fort McMurray, que teve perda total.

Removida na terça-feira com seu marido e sua filha, ela só levou algumas roupas e fotos de família consigo. Desde então, eles vêm vivendo em um chalé, à beira da água em Lac La Biche, onde seu filho, estudante no Oregon, se juntou a eles na quarta-feira. Em quatro dias, ela passou de vítima para voluntária. Dennine Giles reuniu o estoque de mantimentos para os bombeiros no Bold Center de Lac La Biche, que se tornou centro de acolhimento dos removidos, e organizou o transporte em picapes até Wandering River, 88 km mais ao norte.

Juntamente com seu marido, ela dirige a Northstar Ford, a maior vendedora de carros e caminhonetes de Fort McMurray, com 210 funcionários, cujas sucursais estão intactas. Ela quer voltar para casa. "Voltar a dar trabalho para as pessoas é mais importante do que minha casa", ela diz. "Vamos reconstruir tudo que foi destruído. Vou dormir no meu trailer o tempo que for necessário."

Para seu primo, Dana Parsons, não faltará trabalho como operário na construção civil. Ele mesmo não sabe se sua casa continua de pé. "Veremos", ele diz, elogiando os serviços de acolhimento de Lac La Biche. "Eles nos trataram como reis. Foi incrível."

Em Wandering River, foi aberto um acampamento do Canada North para as vítimas. Quatrocentas pessoas encontraram refúgio em um "vilarejo" composto por fileiras de prédios pré-fabricados, incluindo 8.000 quartos, uma cantina, um centro esportivo, normalmente utilizados pelos funcionários de uma empresa de oleodutos. Está um dia bonito, é Dia das Mães no Canadá e as crianças brincam ao ar livre.

A luta continua

Mais ao norte, a luta contra o fogo continua, com mais de 500 bombeiros, aviões de combate a incêndios e helicópteros. Alberta recebeu reforços de todo o Canadá, e a situação, ainda que não tenha melhorado, parece estar se estabilizando um pouco.

No domingo, a primeira-ministra da região, Rachel Notley, anunciou a remoção para o sul dos últimos deslocados que ainda se encontravam em campos petroleiros ao norte de Fort McMurray, bem como uma desaceleração no avanço do incêndio. "Esperávamos por 200 mil hectares queimados esta manhã, mas foram só 160 mil hectares."

É uma vitória frágil, uma vez que o fogo continua a se propagar, com a ajuda de ventos fortes, na direção do nordeste, ameaçando comunidades autóctones e instalações petroleiras. No domingo, um tempo mais frio e chuvas tiveram um efeito ligeiramente positivo. Várias instalações petroleiras da Syncrude, Sunco e Shell foram fechadas ou reduziram sua produção e retiraram seus funcionários.

Em Fort McMurray, os bombeiros estão rodando a cidade para extinguir os últimos focos, e 200 funcionários de companhias de gás e de eletricidade trabalham para iniciar os reparos da infraestrutura de base. A primeira-ministra afirmou que iria até o local na terça-feira e que seu governo estava iniciando o trabalho de organização para um retorno das vítimas, sem especificar datas. Ela divulgará, na terça-feira, no primeiro vilarejo 204 km ao sul de Fort McMurray, um balanço do custo dos prejuízos e das perdas para o crucial setor da energia.

No entanto, a cidade-fantasma demorará para ser aberta aos residentes, e a barreira erguida pela polícia na Rodovia 63 provavelmente permanecerá ali por várias semanas. No sábado à noite, ela foi recuada em 30 km. Não há mais um grande espetáculo flamejante para ser visto a 45 km da cidade, somente a floresta boreal cortada pelas quatro pistas retilíneas dessa rodovia no fim do mundo. Uma chuva fina, borrascas e, no céu cinza, um helicóptero que monitora o avanço do incêndio. "Havia fumaça demais ao sul de Fort McMurray e mais fogo perto da rodovia", explicava o sargento Jeff Simpson, no local.

Seca cada vez mais constante

Para os primeiros balanços, foram muitos, inclusive entre as vítimas, aqueles que elogiaram o trabalho das equipes de resgate. Elas organizaram, com a ajuda das companhias de gás e de petróleo, as principais empregadoras da região de Wood Buffalo, a remoção de 80 mil pessoas e o atendimento a elas em acampamentos.

As autoridades locais salientaram que aprenderam muito nesse assunto com um outro grande incêndio que devastou a região de Slave Lake, ao norte de Alberta, cinco anos atrás. Mas a prevenção de incêndios como esse é deficiente. A gestão da floresta boreal exigiria milhões de dólares, mas seria preciso instalar pelo menos, segundo especialistas, guarda-fogos eficazes em torno das zonas de habitação.

Christy Clark, primeira-ministra da Columbia Britânica, onde os incêndios florestais também são frequentes, lembra que a seca tem sido cada vez mais constante no noroeste do Canadá. "Precisamos lutar contra o aquecimento global, mas também melhorar nossos planos de prevenção e de combate aos incêndios florestais com recursos claramente mais elevados do que hoje."

O impacto do incêndio que interrompeu todas as atividades em Fort McMurray e desacelerou a produção petroleira da região, a mais importante do setor energético canadense, será "grave", segundo a primeira-ministra de Alberta. Um especialista em petróleo calcula em 1 milhão a 1,5 milhão de barris de petróleo por dia a queda de produção desde o dia 3 de maio, ou seja, 40% do volume normal.

A indústria emprega um de cada dez trabalhadores de Alberta. A economia da província e do Canadá, já duramente afetada pela queda do preço do petróleo, com 30 mil empregos a menos na indústria de petróleo e de gás em 2015, vai sofrer ainda mais. Só os custos com seguro poderão chegar a 10 bilhões de dólares canadenses (R$ 27 bilhões).

Tradutor: UOL

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