Após eleição marcada por expectativas, Nigéria questiona estratégia de líder contra crise

Jean Philippe Rémy

  • Sunday Alamba/AP

    1º.abr.2016 - Homem vende combustível em Kano, na Nigéria

    1º.abr.2016 - Homem vende combustível em Kano, na Nigéria

Em tempos normais, o tom usado pelo premiê britânico, David Cameron, ainda por cima dirigindo-se à rainha da Inglaterra, para declarar —com uma taça na mão e uma frase lapidar na língua— que a Nigéria, para ele, era um dos dois países (juntamente com o Afeganistão) mais "incrivelmente corruptos do planeta" teria suscitado, no país mais povoado da África, uma reação da qual os diplomatas de Sua Majestade se lembrariam por muito tempo.

Mas na Nigéria, o ranking das comoções nacionais é regido pelo pragmatismo. Uma série de más notícias têm parecido mais importantes do que o insulto britânico: a crise, a volta da guerrilha no delta do Níger e, sobretudo, o fim dos subsídios para a gasolina (e derivados do petróleo), que vai aumentar em 67%.

Consequência da abundância petroleira no principal produtor de petróleo da África, a gasolina subsidiada era até então o único efeito palpável para uma população de quase 180 milhões de habitantes. Todos aqueles que tentaram acabar com ela fracassaram.

Desta vez, a gasolina deverá aumentar, mas também voltará a ficar disponível. Nos últimos meses, as pessoas tiveram de ficar na fila por horas ou dias nos postos de gasolina. Agora o setor também foi liberalizado, o que significa a entrada de novos atores e o direito de obter divisas no mercado paralelo para importar combustível.

Isso porque a Nigéria se encontra em plena crise financeira desde a queda do preço do barril de petróleo, cujo valor caiu para um terço, sendo que os hidrocarbonetos representam 80% das receitas do Estado. O país tem passado por vários desabastecimentos associados à queda do naira, a moeda nacional, resultado da baixa das receitas petroleiras. Só que para segurar a moeda, o governo dilapidou uma parte de suas reservas de câmbio (US$ 62 bilhões dos quase US$ 100 bilhões, ou seja, R$ 349 bilhões), paralelamente a medidas de controle de câmbio.

Faltam dólares, as importações estão suspensas (algumas delas estão proibidas) e o porto de Lagos está praticamente parado.

Foi o golpe de misericórdia para a rede de supermercados sul-africana Truworths, que acaba de anunciar sua saída do país, afirmando ter suportado até então a falta de energia elétrica, todo tipo de perseguição, os preços absurdos dos aluguéis, mas que não conseguia enfrentar as "prateleiras vazias".

Segundo cálculos da Bloomberg, "a economia em 2019 será 14% menor que durante o pico de 2014 (US$542 bilhões)." A turbulência é séria: em um ano, os investimentos externos diminuíram em 74%.

Rumores desabonadores

Teria sido uma ilusão, o sucesso do país? Luis Gravito, que acaba de abrir em Lagos um escritório do Boston Consulting Group (BCG), acredita que não: "Não temos dúvida nenhuma de que a Nigéria se tornará, a curto ou médio prazo, um dos destinos privilegiados para os investidores na África".

No mesmo momento, uma outra rede de supermercados sul-africana, a PicknPay, anuncia sua chegada à Nigéria.

O BCG observa os pontos fundamentais da economia e distingue as futuras necessidades (infraestrutura, saúde), os recursos, sem negar as deficiências: diversificação "insuficiente" da economia (a indústria representa somente 9% do PIB), falta de efeitos de "bem-estar" para a população.

O motor da Nigéria continua sendo o setor de hidrocarbonetos, o mais opaco. Só que há cada vez mais más notícias desse lado, com uma série de panes nos oleodutos e sobretudo o surgimento no início do ano de um grupo armado, os militantes do Niger Delta Avengers. Enquanto o Exército marca pontos no Norte contra o Boko Haram, a ameaça contra a zona de produção petroleira se intensifica.

"Com os problemas que nós temos com os oleodutos e os rebeldes, estamos perdendo de 500 mil a 600 mil barris por dia", anunciou Emmanuel Kachikwu, ministro do Petróleo, segundo quem a produção caiu para 1,4 milhão de barris por dia, o mesmo nível que nos piores anos da crise, nos anos 1980.

Os Niger Delta Avengers deram, na última quinta-feira, aos operadores do setor petroleiro no delta, um "ultimato de duas semanas para que eles parem suas operações e retirem seus funcionários."

No dia 31 de março de 2015, Muhammadu Buhari foi declarado vencedor em uma eleição presidencial que na época vinha cercada por expectativas. O novo presidente tinha uma particularidade: apesar de comandar o país em uma ditadura militar nos anos 1980, ele resistiu à tentação do enriquecimento pessoal, uma forma de singularidade conferida aos dirigentes políticos do país.

Então os nigerianos esperavam maravilhas desse homem austero, antigo adepto da "disciplina" rigorosa dos tempos da ditadura. Mas um ano se passou, e a dúvida surgiu. Estaria Buhari no comando do país? Estaria ele levando a Nigéria para algum lugar?

Observadores têm espalhado rumores desabonadores, acusando-o de incompetência e de indecisão, afirmando que ele se desatualizou durante o período em que ficou afastado e agora está se isolando na presidência.

De fato, o presidente tem se agarrado à vontade de desvalorizar o naira, atrapalhando as importações, mas ao mesmo tempo ele segue outro repertório.

Em dezembro, foi anunciado o maior orçamento da história da Nigéria (US$ 30,6 bilhões), com um deficit recorde —aposta arriscada para a recuperação do país— representando um terço desse orçamento e que ele precisará financiar fazendo empréstimos, possivelmente dobrando o peso do serviço da dívida.

"Depois disso não haverá mais desculpas", resume Luis Gravito. Antes mesmo de serem discutidos na Assembleia, os documentos originais do orçamento foram roubados.

Tradutor: UOL

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