A extrema-direita se aproxima do poder na Áustria

Blaise Gauquelin

  • Dominic Ebenbichler/Reuters

    Norbert Hofer (esquerda) e Heinz-Christian Strache, do FPÖ, Partido da Liberdade Austríaca, de extrema-direita, em Linz, na Áustria

    Norbert Hofer (esquerda) e Heinz-Christian Strache, do FPÖ, Partido da Liberdade Austríaca, de extrema-direita, em Linz, na Áustria

Heinz-Christian Strache, líder do Partido Liberal da Áustria (FPÖ), tem certeza: seu país se encontra "diante de uma nova era política" com a possível vitória de Norbert Hofer no segundo turno das eleições presidenciais do próximo domingo (22). Pela primeira vez, um país membro da União Europeia teria um chefe de Estado da extrema-direita.

O adversário do FPÖ, o ecologista Alexander Van der Bellen, ainda teme o pior para seu país. Ele afirmou que se Hofer ganhar, ele vai "destituir o governo e convocar novas eleições", como autoriza a Constituição. E isso com o intuito de colocar todos os grandes cargos "nas mãos de seu partido político, desde o presidente da República até o chanceler, passando pelos ministérios importantes".

"Eu me lembro bem demais de Johann Gudenus, representante do FPÖ em Viena, dizendo que o dia em que seu partido estivesse no poder, começariam a "sacar os cassetetes", disse Van der Bellen.

Segundo o candidato dos verdes (Die Grünen, 21,3% no primeiro turno, dia 24 de abril), Hofer (35,1%) não passaria de um "fantoche" de Strache, 46, líder da extrema-direita austríaca —um técnico em odontologia de formação que gostaria de se tornar chanceler, o verdadeiro número um do Executivo, sem esperar as legislativas previstas para 2018, e tem se segurado na oposição há onze anos. Eleições antecipadas poderão ser realizadas no próximo outono (hemisfério norte).

Visceralmente eurocético

Enquanto isso, o novo presidente de extrema-direita poderia exigir atuar no Conselho Europeu no lugar do chanceler. É uma perspectiva que o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que exprimiu publicamente seu apoio ao candidato verde, não parece descartar totalmente.

"Com Norbert Hofer, o holandês Geert Wilders, a francesa Marine Le Pen e a alemã Frauke Petry teriam pela primeira vez olhos e ouvidos no coração da Europa", comenta Christian Rainer, chefe de redação do semanário austríaco liberal "Profil". "Eles poderiam bloquear tudo. Comparado com Hofer, Viktor Orban é um ursinho de pelúcia!"

No nível europeu, o FPÖ atua no grupo Europa das Nações e das Liberdades, ao qual também pertence a Frente Nacional.

Portanto, através da candidatura de Hofer, um técnico superior em aviação de 45 anos, se esboça para a eleição presidencial o projeto de Strache para a Áustria.

Ou melhor, para a Europa, uma vez que a escolha desse pequeno país com menos de 8,6 milhões de habitantes poderia efetivamente ter consequências para a construção da UE, pois apesar de manter um discurso em geral mais comedido nos últimos anos, o FPÖ é visceralmente eurocético.

Segundo Harald Vilimsky, que lidera a delegação austríaca de extrema-direita no Parlamento de Estrasburgo, Bruxelas não passa de uma "agência de viagens para imigrantes", contra a qual seria urgente lutar, para impedir, como diz Hofer, "a invasão de muçulmanos". Em 1996, ele tentou entravar a construção de uma mesquita em Parndorf.

O FPÖ tem o mesmo posicionamento que países do grupo de Visegrad (Polônia, Hungria, Eslováquia, República Checa), que recusam a instauração de cotas de imigrantes, pois segundo Hofer "somente cerca de 20% deles na Áustria são refugiados de verdade".

Viena registrou 90 mil pedidos de asilo em 2015, segundo Strache, por causa de Angela Merkel, a chanceler alemã, chamada de "coiote oficial de imigrantes". Sessenta e um por cento dos austríacos acreditam que seu país não pode mais acolher refugiados.

Em fevereiro de 2015, Hofer também havia se pronunciado a favor de uma volta de parte do Tirol a Viena, anexada à Itália desde 1919. Ao mencionar abertamente uma mudança das fronteiras na UE, ele atacou um fundamento da Europa.

"Tiroleses do Sul", ele gritou, "sua pátria é a Áustria!" A extrema-direita austríaca quer oferecer a nacionalidade austríaca a esses habitantes germanófonos.

Strache promete que a Áustria dará seu veto à ratificação do tratado de livre-comércio transatlântico, negociado atualmente pela UE com os Estados Unidos, pois o intuito de Washington, através dessas discussões, seria somente "enfraquecer por todos os meios a proteção dos consumidores."

Ele quer instaurar uma "democracia direta" que se baseie na organização regular de referendos, uma vez que. segundo Hofer. o povo é "a instância suprema do país", representada por um homem que tem a última palavra diante do Parlamento e do governo.

Este último é ameaçado de ser destituído em caso de ausência de resultados, algo que 57% dos austríacos aprovariam, segundo uma pesquisa publicada na imprensa. O FPÖ também quer acabar com os cortes orçamentários no setor de Defesa.

Círculos acadêmicos masculinos

Os nomes mais influentes do partido são quase todos homens vindos da corrente nacional alemã. Ideologicamente ultraminoritária, essa família política tem suas origens na vontade de manter a predominância da população germanófona dentro da monarquia austro-húngara, no século 19.

A extrema-direita quer ter mais liberdade para falar em História. Seus representantes continuam sendo recrutados em círculos acadêmicos masculinos bem fechados, corporações pan-germanistas de códigos rígidos que se reúnem em um baile anual para o qual foi convidada Marine Le Pen, em 2012.

O próprio Strache manejou a espada para defender sua honra em duelos. Hofer carrega uma pistola Glock de vez em quando, para aumentar sua sensação de segurança. Seu pai era um militante do FPÖ, que via sua geração como uma "vítima" da Segunda Guerra Mundial.

E o diretor de gabinete do candidato à presidencial, René Schimanek, foi chamado em 1998 de neonazista pela Universidade de Tel Aviv. Além disso, Israel informou que nenhum contato oficial seria mantido com um presidente austríaco vindo do FPÖ.

 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos