Kobani vira "cidade-museu" da resistência curda

Allan Kaval

  • Patricia Campos Mello/Folhapress

    Ruínas de Kobani, no norte da Siria, na fronteira com a Turquia; atacada pelo Estado Islâmico, a cidade foi retomada pelos curdos em janeiro

    Ruínas de Kobani, no norte da Siria, na fronteira com a Turquia; atacada pelo Estado Islâmico, a cidade foi retomada pelos curdos em janeiro

PKK proíbe que parte dos habitantes reconstruam a cidade, pensando nos "mártires" que caíram lutando contra o Estado Islâmico

Ela aperta contra o peito um punho fechado e estende uma mão aberta para cima. Nas costas, duas asas de anjo abertas. A estátua de proporções irregulares situada no centro de uma grande rotatória, alegoria da resistência de Kobani diante da organização Estado Islâmico (EI), representa uma combatente curda alada. Ela usa calças largas, um colete com bolsos e os tênis característicos que o movimento armado curdo fornece a seus membros, reproduzidos com detalhes pelo escultor.

O monumento, que foi presente da distante cidade de Sulaymaniyah, no Curdistão iraquiano, viajou pela estrada antes de ser colocado aqui, entre duas carcaças de tanques dispostas simetricamente, uma de cada lado de sua base. Suas pesadas estruturas de metal transportavam jihadistas do EI durante o cerco a Kobani, no outono de 2014. Destruídas e abandonadas, elas agora servem de brinquedo para as crianças, que as escalam sob proteção da combatente alada. Ao redor, as ruínas são lembranças de combates passados.

No final de setembro de 2014, Kobani, um modesto vilarejo curdo com menos de 50 mil habitantes, situado junto à antiga linha ferroviária Berlim-Bagdá que marca a fronteira entre a Síria e a Turquia, havia sido alvo de uma ofensiva maciça do EI, cujos territórios se estendiam mais ao sul.

O vilarejo foi então centro do mais isolado dos enclaves curdos sírios, um alvo fácil para os jihadistas que iam ganhando terreno rapidamente. Acuados em uns poucos bairros, cercados por seus inimigos e bloqueados pela fronteira de uma Turquia hostil, os combatentes curdos estavam a ponto de ceder quando a coalizão internacional contra o Estado Islâmico, liderada pelos Estados Unidos, decidiu apoiá-los através de ataques aéreos e fornecimento de armas.

Acontecimento midiatizado

A partir de colinas próximas, canais de TV do mundo inteiro, instalados do lado turco da fronteira, apontaram suas objetivas para a cidade sitiada, fazendo dessa batalha um dos acontecimentos mais midiatizados do conflito sírio. A opinião pública ocidental se apaixonou então pelos homens e mulheres que defendiam Kobani, enquanto a resistência da pequena cidade passava para o status de mito nacional para os curdos.

Embora Kobani tenha sido libertada em janeiro de 2015 e os jihadistas tenham sido expulsos, a batalha continua presente na paisagem e na mente das pessoas. O Partido da União Democrática (PYD), emanação síria do PKK, organização armada curda da Turquia, pretende fazer de Kobani um símbolo, um lugar de memória.

Na praça da Liberdade, cercada por ruínas e decorada com a estátua de uma águia em pleno voo pintada nas cores curdas, é possível ver em grandes cartazes uma série de retratos de "mártires" que caíram na batalha. Na cidade, seus rostos são onipresentes e é sob o olhar desses mortos que os vivos tentam reconstruir suas vidas.

Entre eles, Sedqi Ismail, 38, utiliza as economias que lhe restam para reconstruir um forno de pão, já que o que ele possuía antes do cerco foi destruído por um ataque aéreo. Combatente durante a batalha, Sedqi descreve Kobani como uma cidade povoada por fantasmas.

"Cada esquina me traz uma lembrança, coisas que aconteceram durante os combates. Aqui, vi morrer um de meus amigos, Morad. Ele foi abatido por um atirador de elite inimigo. Eu revivo aquele momento cada vez que passo por aqui", ele diz, apontando para um prédio vizinho crivado de balas.

A poucas ruas da praça da Liberdade, uma mãe de família na faixa dos 30 anos conseguiu reencontrar sua casa e fazer algumas obras para torná-la habitável novamente, depois que voltou de um exílio de vários meses na Turquia. Ao contrário das construções vizinhas, ela não ficou completamente destruída.

"Espero que possamos ficar com nossa casa. Aqui, não temos direito de reconstruir, então espero que eles não nos mandem ir para outro lugar", ela explica, referindo-se às autoridades da cidade. Sua casa se encontra em um dos bairros onde os combates mais duros aconteceram e que atualmente é chamado de "museu".

Patricia Campos Mello/Folhapress

Medidas impopulares

Os líderes do movimento curdo acreditam que voltar à vida normal nessas ruas seria uma ofensa à memória de seus "mártires", cujos nomes de guerra serviram para rebatizar todas as vias.

"Não entendo nada dessa história de museu, só queremos viver em nossas casas", protesta a mãe de família, que fecha sua porta ao ouvir o discurso inflamado de Makbula Baki, uma representante das autoridades locais. "As casas dos vivos valem menos que o sangue dos mártires!", ela esbraveja.

Impopular entre a maioria dos habitantes, o "museu" se resume a uma expropriação de bairros inteiros e à sua condenação à ruína.

Um comitê de reconstrução de Kobani foi criado, mas o fechamento da fronteira turca e do Curdistão iraquiano, mais recente, afetou consideravelmente seu escopo de ação. No entanto, um novo cemitério destinado a glorificar os "mártires" está sendo construído.

Escolhida como símbolo pelo PKK, a nova Kobani também deverá refletir a ideologia do movimento.

No restaurante do único hotel da cidade, frequentado por uma delegação de militantes de extrema esquerda italianos que vieram "se inspirar na experiência revolucionária dos curdos da Síria" e por jovens nacionalistas bascos com motivações similares, Hawjin Aziz, 32, curda iraquiana que cresceu na Austrália e trabalha no comitê de reconstrução de Kobani, apresenta os objetivos do movimento para a cidade: "Precisamos reconstruir Kobani de acordo com os princípios de nossa revolução. É preciso ensinar as pessoas a viverem em um ambiente democrático e comunitário."

A ideia é os moradores do bairro do "museu" se instalarem em prédios com jardins coletivos e espaços comunitários. Esse chamado ambiente "democrático" foi pensado como oposição às casas e aos jardins individuais nos quais as famílias de Kobani vivem tradicionalmente.

Para aqueles que não estão nessas fantasias utópicas, a perspectiva de um novo exílio vai tomando forma. "Os jovens de Kobani ou estão mortos, ou estão nos fronts, ou nas estradas da Europa", conta uma avó moradora do "museu".

Tradutor: UOL

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