Acusado de revisionismo, ministro croata ataca antigos comunistas e pró-iugoslavos

Jean Baptiste Chastand

  • Darko Bandic/AP

    14.mai.2016 - Com bandeiras croatas, multidão participa de ato em Bleiburg, na Áustria, para comemorar o massacre de croatas pró-nazistas por forças comunistas no fim da Segunda Guerra

    14.mai.2016 - Com bandeiras croatas, multidão participa de ato em Bleiburg, na Áustria, para comemorar o massacre de croatas pró-nazistas por forças comunistas no fim da Segunda Guerra

O controverso ministro da Cultura croata, Zlatko Hasanbegovic, é figura carimbada das comemorações do massacre de Bleiburg. Todo ano esse historiador de tendências revisionistas, há 25 anos, presta homenagens aos milhares de soldados ustashas pró-nazistas mortos ou executados no vilarejo austríaco de Caríntia, em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nesse sábado (14), uma boa parte do novo governo croata seguiu os passos desse intelectual nacionalista acusado de atacar a imprensa, os artistas e as ONGs desde que foi nomeado.

Em primeiro plano, a nata do ultra-reacionário clero católico croata unida a favor de vítimas de um passado um tanto obscuro. Atrás, mais de 10 mil militantes nacionalistas brandindo símbolos que lembram claramente o regime croata pró-nazista de 1941-1945. No fundo, tendas com pessoas bebendo e cantando alegremente slogans ustashas que queriam permanecer longe dos olhares, visto que agrediram uma fotógrafa do "Le Monde".

"Vocês se concentram em cinco provocadores, mas os símbolos ustashas são um folclore secundário", defende o ministro, de volta a Zagreb, no amplo gabinete onde ele recebe o "Le Monde" fumando cigarrilha atrás de cigarrilha.

Para ele, "Bleiburg é o símbolo do sofrimento do povo croata". Ele escolhe cuidadosamente cada uma de suas palavras, pois, suspeito de revisionismo, esse historiador sabe que essa comemoração é algo muito polêmico.

"Assim que soubemos de sua nomeação, imediatamente fomos protestar. Ele faz apologia ao regime ustasha e nunca realmente se distanciou dele publicamente", conta Vesna Terselic, diretora da ONG Documenta, que cuida de manter a memória das vítimas de diferentes guerras vividas pelo país no século 20.

Quando jovem, em meados dos anos 1990, Hasanbegovic escrevia em revistas revisionistas ou tirava fotos usando boinas ustasha. "Um simples acaso", ele se justifica hoje, refutando qualquer acusação de negacionismo.

Especialista em história dos muçulmanos nos Bálcãs, parte dos quais se aliaram aos ustashas durante a Segunda Guerra Mundial, "ele é um revisionista brando", explica Sibila Petlevski, escritora e acadêmica croata.

"Ele não nega o Holocausto, mas age como um político francês que reabilitaria ativamente o regime de Vichy". Além disso, ele tem uma fascinação pelos pensadores de extrema-direita, a começar pelo francês Alain de Benoist, de quem ele editou uma obra na Croácia e que ele ainda considera como "um dos maiores intelectuais franceses."

Muçulmano à moda balcânica

Hasanbegovic é próximo também do supremacista branco americano-croata Tomislav Sunic.

"Normalmente desconfio de muçulmanos, mas ele é uma exceção. Ele é muito culto", elogia este último. Para completar o quadro, esse muçulmano à moda balcânica, muito ativo em sua comunidade sem ser muito religioso, não hesitou em se aliar aos elementos mais radicais da Igreja Católica croata em 2013 para incluir na Constituição a proibição do casamento homossexual.

Ao nomeá-lo para a pasta da Cultura, somente um ano após sua adesão ao partido nacionalista HDZ, membro do Partido Popular Europeu, o vice-premiê Tomislav Karamarko fez desse ideologista seu braço armado para conduzir a guerra cultural contra as elites intelectuais croatas.

Nascido em 1973, ele, que só tinha 18 anos durante a independência da Croácia, tende sobretudo a ver pró-iugoslavos em toda parte. Sua primeira decisão foi dissolver a comissão que atribuía subsídios à mídia eletrônica independente.

O diretor da televisão nacional foi substituído, a presidente do conselho superior do audiviosual foi levada a renunciar, os subsídios à mídia independente e às ONG foram reduzidos bruscamente.

"São símbolos de influência de estruturas do regime comunista que perduram, apesar da queda da Iugoslávia", justifica o ministro.

Segundo a Associação dos Jornalistas Croatas, 70 jornalistas da televisão pública tiveram de trocar de função desde então.

"Hasanbegovic está punindo todos aqueles que não são da direita radical, ele está fazendo a mesma coisa que na Hungria e na Polônia", critica seu presidente, Sasa Lekovic.

Quase 5 mil artistas ou intelectuais assinaram uma petição pedindo a demissão do ministro. Assustadas com a multiplicação de ataques racistas sem uma reação oficial nos últimos meses, as organizações sérvias e judaicas boicotaram a comemoração da libertação do campo de extermínio de Jasenovac, no dia 22 de abril, pela primeira vez desde 1945.

Mas para os apoiadores do ministro, isso não passa de queixas de "comunistas" que perderam verbas públicas.

"A maior ameaça nessa parte da Europa não é a extrema-direita, mas sim os antigos comunistas, que estão mais bem organizados, assim como todas essas ONGs. Todos os jornalistas que trabalhavam durante o comunismo eram agentes da polícia secreta", denuncia Zeljko Glasnovic, veterano da Legião Estrangeira e do Exército croata, agora deputado pelo HDZ e defensor fervoroso do ministro.

Por enquanto as críticas cada vez mais abertas das embaixadas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos não tiveram grande impacto. Assim como o resto do governo, Hasanbegovic olha mais para o lado do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, que é abertamente islamófobo.

"Não vejo em que Viktor Orban representaria a vanguarda da islamofobia. Toda espécie de imigração caótica é um problema da sociedade. Se de repente chegasse uma leva descontrolada de imigrantes budistas ou taoístas, as resistências à imigração seriam absolutamente idênticas", ele explica, sem uma palavra de compaixão pelos milhares de seus correligionários que fugiram da guerra.


 

Tradutor: UOL

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