Beleza física também pode atrapalhar vida profissional de homens

Annie Kahn

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"Lindo demais!", exclama a jovem adolescente, impressionada pelas formas atléticas do homem que passa. Por que "demais"? Fora a figura de linguagem, será que existiria um máximo de beleza para além do qual essa qualidade se tornaria um problema?

É verdade que as revelações recentes quanto às práticas sexistas dentro da esfera política lembram que o simples fato de ser uma mulher às vezes é arriscado. Mas é assim, tendo a mulher as curvas de uma top model ou não.

Quatro de cada cinco funcionárias afirmam ser vítimas regulares de sexismo no trabalho, revelou o relatório do Conselho Superior de Igualdade Profissional entre as Mulheres e os Homens na França, publicado no dia 6 de março de 2015. O que prova de fato que qualquer um pode ser alvo disso, e não somente estrelas de cinema.

Em compensação, beleza e carreira não estariam necessariamente ligados, revelaram quatro pesquisadores que procuravam descobrir "quando a beleza ajuda e quando ela atrapalha", autores de um estudo sobre "A discriminação física nas decisões de recrutamento e promoção no contexto organizacional", publicado em maio de 2015 na revista "Organizational Behavior and Human Decision Processes". 

É verdade, já se sabia que, em geral, os tomadores de decisões associam beleza e competência entre os homens, mas não entre as mulheres. Assim, um homem de grande porte seria considerado mais competente do que um magricela, ao passo que uma mulher bonita não é beneficiada por um preconceito positivo quanto a suas capacidades intelectuais, em comparação com uma mulher menos voluptuosa.

Ela tampouco é menos bem vista. Os estereótipos de gênero, que afetam as mulheres, já não são mais os mesmos, é o que mostram as discriminações atuais. Elas prevalecem quando os tomadores de decisão têm dificuldades para decidir diante de informações objetivas das quais eles dispõem e que eles não fizeram esforço para aprofundar, às vezes por não terem ciência de sua superficialidade. É uma situação relativamente comum.

Mas nossos quatro pesquisadores em comportamento organizacional, Sunyoung Lee, professor da University College of London, Marko Pitesa, pesquisador na Universidade de Maryland (EUA), Madan Pillutla, professor da London Business School, e Stefan Thau, professor do Insead de Cingapura, quiseram verificar de perto, por assim dizer.

Eles queriam saber se a beleza masculina era efetivamente e sistematicamente um trunfo nas empresas, e eles perceberam que não era o caso, muito pelo contrário. Certos homens considerados quase que completamente dentro dos padrões de beleza, às vezes são bonitos demais se um de seus objetivos na vida for fazer carreira, galgar a escala hierárquica ou se destacar entre seus colegas.

Headhunters podem ajudar

Tudo depende da situação na qual eles se encontram quando estão na disputa por uma contratação ou uma promoção. Se a pessoa responsável pela decisão de selecionar o candidato, seja homem ou mulher, realmente quiser cooperar com ele, ela efetivamente escolherá o mais sedutor, pois terá a impressão de que será mais fácil trabalhar com ele.

O estereótipo da beleza ligada à competência prevalece. Será o caso de um responsável por uma equipe de pesquisa e desenvolvimento cujo sucesso seja atribuído à toda equipe, por exemplo. Em compensação, se o responsável pela decisão espera se ver algum dia concorrendo com o candidato escolhido—como em uma equipe onde somente o melhor vendedor receba um bônus, por exemplo—ele selecionará o menos atraente, em razão do mesmo estereótipo interiorizado que o fará privilegiar a pessoa que ele imagina ter menos chance de ofuscá-lo.

Em compensação, o físico não influenciaria na escolha entre uma mulher e outra. Os estereótipos são mais complexos do que se imagina.

Essas conclusões são válidas, independentemente do sexo do recrutador, seja entre pessoas do mesmo sexo ou não. Os pesquisadores conduziram diversas experiências para chegar a essa conclusão. Grupos de centenas de pessoas (homens e mulheres) foram colocados na situação de terem de selecionar candidatos cujos currículos e fotos eles tivessem visto.

Para evitar essas injustiças que prejudicam indivíduos e empresas, os pesquisadores recomendam que se recorram a pessoas não envolvidas na organização para fazer o recrutamento, como headhunters. Ou pedir aos responsáveis pelas decisões que justifiquem especificamente sua escolha, para dar mais espaço à razão do que ao coração e à ambição.

Tradutor: UOL

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