Ambientalismo, antes consenso, agora polariza discussões políticas

Stéphane Foucart

  • Ishara S. Kodikara/AFP

    5.jun.2016 - No Dia Mundial do Meio Ambiente, catadores vasculham depósito de lixo em busca de material reciclável no subúrbio da cidade de Colombo, Sri Lanka

    5.jun.2016 - No Dia Mundial do Meio Ambiente, catadores vasculham depósito de lixo em busca de material reciclável no subúrbio da cidade de Colombo, Sri Lanka

São duas curvas que vão se afastando uma da outra, divergindo irremediavelmente. Em um gráfico construído a partir de dados da League of Conservation Voters (LCV), uma associação americana, é possível observar a evolução do nível de adesão dos parlamentares americanos às diferentes causas ambientais, em função de seus votos e de sua tendência política. As duas curvas se encostavam nos anos 1970, uma vez que os partidos democrata e republicano dispunham de um "desempenho ambiental" comparável. Depois, ao longo dos anos, o "desempenho" republicano foi caindo regularmente até chegar a quase zero em 2015. E, de maneira igualmente regular, o "desempenho" democrata foi crescendo até atingir hoje seu nível mais elevado da história.

Nos Estados Unidos, a questão ambiental se tornou, em 40 anos, uma das chaves da divisão entre esquerda e direita. Mas nem sempre foi assim.

"Durante décadas, o ambientalismo se apoiou em ambas as tendências políticas. Quando a lei sobre a proteção da natureza de 1964 designou mais de 3,6 milhões de hectares de terras americanas como 'áreas onde o próprio homem é um visitante que não permanece', ela foi aprovada no Senado com 73 votos contra 12 e na Câmara dos Representantes por 373 votos contra um", lembram os historiadores Naomi Oreskes e Erik Conway no livro "O Mercado da Dúvida".

"Até o republicano Richard Nixon, que não é lembrado como um presidente visionário sobre as questões ambientais, criou a Environmental Protection Agency (EPA) e transformou em lei diversos decretos sobre o meio ambiente: extensão da lei sobre a limpeza do ar, lei sobre a limpeza da água, sobre as espécies em risco, sobre a política nacional do meio ambiente."

Então esse é um espantoso paradoxo: a degradação do meio ambiente, no sentido mais amplo do tema, tem produzido efeitos cada vez mais incômodos e cada vez mais tangíveis, mas a questão ambiental parece cada vez menos consensual e hoje tem polarizado mais do que nunca o debate público.

Esse paradoxo é ilustrado nos Estados Unidos pelas duas surpresas da campanha para as candidaturas republicana e democrata. De um lado, Donald Trump, que alega a sério que não existe seca na Califórnia, por exemplo, e que quer deixar o acordo de Paris sobre o clima, assinado em dezembro de 2015, chamando a mudança climática de "farsa".

Do outro, o avanço de Bernie Sanders, muitas vezes chamado de "socialista" se comparado com padrões antigos, mas que mais do que isso é um autêntico ambientalista, sendo defensor de uma transição energética radical, contrário à exploração dos hidrocarbonetos de xisto, convicto da necessidade de se combater o aquecimento global.

Em todo o mundo, milhares de sinais sugerem que o meio ambiente está se tornando um dado estruturante da divisão entre esquerda e direita, assim como uma preocupação crescente entre a opinião pública. Na Áustria, por exemplo, ainda que a eleição de Alexander Van der Bellen tenha sido tratada pela imprensa basicamente como a derrota do candidato de extrema-direita, ela também marcou a primeira eleição de um candidato verde, por sufrágio universal, para o comando de um país europeu.

Em Bruxelas, pesticidas de nomes impronunciáveis se tornaram tema de disputas inéditas, uma vez que os grandes Estados-membros agora se recusam a endossar a responsabilidade política da colocação ou da manutenção no mercado de produtos controversos. Hoje, entre os espinhos mais dolorosamente cravados no pé do Executivo europeu, se encontram questões associadas à regulamentação da indústria agroquímica, ou seja, questões de saúde e de meio ambiente.

O jogo da direita francesa

Mesmo nas economias emergentes, onde seria possível imaginar que a opinião pública está mais preocupada com o crescimento do que com o meio ambiente, essas questões têm ganhado importância. Há somente três anos, a revolta de Gezi, no centro de Istambul, só estourou quando alguns ativistas se colocaram em frente às escavadeiras que arrancariam as árvores do parque Gezi para preparar a construção de um shopping center.

A direita francesa entendeu que podia capitalizar essa divisão. Para unir seus partidários em torno de uma possível candidatura à eleição presidencial de 2017, uma das primeiras reações de Nicolas Sarkozy foi defender a manutenção do programa nuclear, contestar o princípio de precaução, defender o gás de xisto e esbravejar que a agroecologia é o "disfarce para uma obsessão pela destruição de nossa potência agrícola".

Já a esquerda governista, até o momento, foi incapaz de aproveitar essa divisão que vem se acentuando. Na França, até hoje, nada indicou como uma política de esquerda poderia se distinguir de uma política de direita na questão ambiental. Tem a ver com isso o fracasso do partido ecologista, cujo papel de auxiliar e "terceirizado" verde contribuiu para esvaziar o Partido Socialista de qualquer reflexão original sobre o meio ambiente.

No entanto, existem os potenciais de uma possível reinvenção da esquerda, com essa certeza de que o engajamento ambiental se tornará algo óbvio com o tempo. Além disso, embora três anos após a revolta em Istambul os manifestantes tenham perdido quase tudo, uma vez que hoje o presidente turco reina mais do que nunca sozinho, deve-se constatar que nenhum shopping center foi erguido até o momento em Gezi. As árvores continuam de pé.

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos