Na fronteira irlandesa, habitantes temem o ressurgimento de conflitos em caso de "Brexit"

Enora Ollivier

  • Clodagh Kilcoyne/Reuters

Mesmo o mais atento dos motoristas não perceberá que passou de um país para outro. Na estrada que liga Belfast a Dublin, não há nenhuma placa, nenhuma bandeira, nenhuma palavra de boas vindas para avisar que ele atravessou a fronteira entre o Reino Unido e a República da Irlanda. É preciso esperar os cartazes que anunciam as próximas cidades para perceber que algo mudou: as milhas se tornam quilômetros, e a A1 britânica se funde com a M1 irlandesa.

É difícil imaginar que, até pouco tempo atrás, era preciso fazer fila para atravessar essa fronteira que agora é invisível, devido aos controles alfandegários, mas também à grande presença militar e paramilitar durante o conflito norte-irlandês, que terminou oficialmente em abril de 1998 com o acordo da Sexta-feira Santa.

Já o Exército britânico encerrou totalmente suas operações na Irlanda do Norte em julho de 2007. Mas nessa região carregada de história, a votação sobre o "Brexit" (saída do Reino Unido da UE) prevista para o dia 23 de junho reacende temores.

A cidade de Newry se encontra 6 km ao norte da fronteira, a 50 minutos de carro de Belfast, e a 1h15 de Dublin. Diante das instalações da "cooperative and enterprise agency", uma grande incubadora de empresas da qual ele é diretor-geral, Conor Patterson aponta para o antigo quartel do Exército britânico à sua frente

. A caserna deu lugar a opulentos prédios brancos, cujos ocupantes são principalmente "irlandeses que vêm morar aqui, pois os apartamentos são mais baratos que do outro lado". 

É como um símbolo da pacificação que agora percorre essa área do sul da Irlanda do Norte, tão perigosa para os soldados durante os "distúrbios" que herdou o apelido de "Bandit Country", a terra dos bandidos.

Milagre econômico

Assim como a maior parte dos moradores da fronteira, cuja imensa maioria é católica e nacionalista, Patterson é um partidário fervoroso da permanência do Reino Unido na União Europeia. Ele teme que um ressurgimento da fronteira vá afundar sua região.

"A divisão da Irlanda foi devastadora para a economia aqui", ele conta.

Em 1962, enquanto o resto do Reino Unido estava quase em situação de pleno emprego, a cidade contava com 16% de desempregados. No auge do conflito norte-irlandês, em 1972, esse índice subiu para 30%.

Hoje, Newry pode se orgulhar de um desemprego de 6%, muito próximo da média norte-irlandesa. Para Patterson, esse pequeno milagre econômico está estreitamente ligado à União Europeia e "começou antes do cessar-fogo, com o mercado único, que no início dos anos 1990 suprimiu os controles alfandegários e facilitou o transporte de mercadorias."

Newry ainda se lembra do incrível período do fim dos anos 2000, quando a libra esterlina estava fraca e os irlandeses iam em massa para seus shopping centers gastar seus euros.

"O melhor lugar da Europa para fazer compras", havia resumido o "New York Times" em dezembro de 2008, em um artigo dedicado àquilo que ele chamava de "Newry effect". A onda passou, mas os imensos supermercados como o Sainsbury, uma marca que não existe na Irlanda, que logo ficaram grandes demais para os 30 mil habitantes da cidade, continuam lá. Aqui, todos os comerciantes aceitam tanto euros quanto libras.

Agora que a proximidade da fronteira, antes vista como uma desvantagem, se tornou um trunfo, será que a cidade e a região conseguirão sobreviver a uma saída da União Europeia? Hoje, a fronteira "é só política", observa Mickey Brady, deputado da circunscrição, mas "se ela voltar a ser física, com postos de controle e verificação de identidade, o efeito psicológico seria terrível".

Para amedrontar as pessoas, seu partido, o Sinn Féin, ex-braço político do Exército Republicano Irlandês (IRA), pendurou uma placa gigante em uma das rotatórias da entrada de Newry escrito "Brexit means borders" ("Brexit equivale a fronteiras"), tendo ao fundo a foto antiga de um ponto de controle.

Partidários e opositores de uma saída da UE brigam sobre essa questão do retorno da fronteira. Os primeiros, a começar pelo partido conservador majoritário, o DUP, favorável ao "Brexit", garantem que nada mudará; já os segundos afirmam que controles em maior ou menor escala inevitavelmente voltarão. Os 499 km dessa linha sinuosa, que vai de Londonderry, no noroeste, a Warrenpoint, a leste, constituem a única fronteira terrestre entre o Reino Unido e um outro país da Europa.

"Reforço da separação"

Então, em caso de Brexit, "ela se tornaria uma fronteira externa da União Europeia, o que necessariamente teria consequências", concorda Dagmar Schiek, diretora do Centro de Estudos Jurídicos Europeus e Transnacionais da Queen's University de Belfast.

"As fronteiras externas são necessariamente mais sensíveis que as fronteiras internas", ela diz, "então haveria controles em ambos os sentidos. Isso não significa que haveria policiais em cada estrada, mas os habitantes provavelmente terão de mostrar seus passaportes com mais frequência."

Ferrenhamente contrário à saída da UE, que causaria "o reforço da separação" de uma Irlanda que ele gostaria de ver reunificada, Brady diz com um sorriso que "o único Brexit aceitável é uma saída dos britânicos da Irlanda".

A declaração é mais do que um chiste. O Sinn Féin, através da voz do vice-premiê norte-irlandês Martin McGuinness, exigiu que uma votação sobre a fronteira e a unidade da Irlanda fosse organizada em caso de saída do Reino Unido da UE, argumentando que tal resultado teria consequências para a ilha como um todo.

Além disso, os irlandeses são vigorosamente contra um "Brexit" e o primeiro-ministro, Enda Kenny, ordenou que os irlandeses que vivem no Reino Unido, que são autorizados a participar do referendo, votem "in".

Ninguém em Dundalk o contrariará. Essa cidade irlandesa situada a cerca de 20 km de Newry, com quem os laços são muito fortes, também prosperou graças à flexibilização da fronteira.

A exemplo de sua vizinha britânica, ela também perdeu seu apelido: durante os "distúrbios", Dundalk era chamada de "El Paso", referência à cidade texana na fronteira do México, pois tinha a reputação de acolher fugitivos do IRA, os bandidos do "Bandit Country".

Tradutor: UOL

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