Israel remove palestinos à base de escavadeiras no leste de Jerusalém

Nicolas Ropert

  • Abbas Momani/AFP

    9.jan.2016 - Casa de palestinos em Surda, na Cisjordânia, demolida por escavadeiras israelenses

    9.jan.2016 - Casa de palestinos em Surda, na Cisjordânia, demolida por escavadeiras israelenses

Demolição de casas palestinas prossegue em ritmo contínuo

Atallah Abou Basser se lembra com detalhes sobre a última incursão israelense, no dia 16 de maio, em seu vilarejo. Esse beduíno palestino, que lidera uma comunidade de 56 famílias, descreve como foi a irrupção de dezenas de soldados israelenses ao amanhecer, com várias escavadeiras, e narra a violência dos militares que tiraram à força os habitantes que se recusavam a deixar suas casas.

Granadas de gás lacrimogêneo foram lançadas para expulsar os habitantes de Al-Eizariya, situada a algumas centenas de metros, que vieram para apoiar os beduínos. Naquele dia, as máquinas israelenses destruíram sete pré-fabricados que serviam de casa aos palestinos e vários abrigos de lata utilizados para os animais.

O beduíno de ar frágil mostra algumas ferragens retorcidas, única prova da passagem das escavadeiras que deixaram 49 pessoas sem teto, e que por fim foram realojadas em novos pré-fabricados doados por uma ONG. Atallah Abou Basser, no entanto, se recusa a se deixar abater: "Israel quer que a gente saia, mas ficaremos aqui. Quando destruírem nossas casas, nós as reconstruiremos no dia seguinte".

Essa colina aberta aos ventos se chama djebel Al-Baba, "a montanha do papa" em árabe, pois o rei Hussein da Jordânia a oferecera ao soberano pontífice antes da guerra de 1967. Os beduínos se sedentarizaram no local há cerca de 30 anos, mas há vários meses o vilarejo vem sofrendo repetidas demolições.

Essa maneira de agir tocou até Robert Piper, o representante nos territórios palestinos do Escritório de Coordenação das Questões Humanitárias. Em um comunicado de tom inédito para uma agência da ONU, ele condenou a violação ao direito humanitário,  lembrando que Israel já passou de 600 demolições nos cinco primeiros meses de 2016, ou seja, mais do que durante todo o ano de 2015. Todas elas ocorreram na zona C, a parte sob controle israelense que recobre cerca de 60% da Cisjordânia.

"Último obstáculo"

Antes de 1995 e do plano de expansão de Maale Adoumim (40 mil habitantes hoje), Israel não via inconvenientes na presença desses nômades originários do Neguev, no sul de Israel. Agora, o Estado hebraico tem outros planos para essa comunidade assim como as vinte outras que residem no leste de Jerusalém, uma parte da zona C que as autoridades israelenses chamam de "E1".

Situada entre a cidade três vezes santa e esse bloco de assentamentos, "a zona E1 possui uma importância estratégica", lembra Adnan Abdelrazek, pesquisador palestino que lecionou na Universidade Hebraica de Jerusalém. "Esses beduínos são o último obstáculo para Israel antes de criar um corredor que permitirá separar definitivamente o norte da Cisjordânia do sul", ele analisa.

Em um relatório publicado no final de 2015, a organização israelense A Paz agora afirma que 330 milhões de shekels (R$ 296 milhões) foram alocados pelo Ministério da Habitação israelense ao serem reiniciados os assentamentos na Cisjordânia. Há mais de 55 mil habitações planejadas. Nada surpreendente, uma vez que o primeiro alvo do ministério é essa famosa zona E1 com mais de 8 mil unidades que poderão ser erguidas.

Licença de construção

Essa revelação prova que, apesar das pressões internacionais, o governo de Binyamin Netanyahu ainda sonha em anexar essa parte da Cisjordânia a Israel. "Certos grupos de colonos estão pressionando a Knesset (o Parlamento israelense) para uma anexação pura e simples da E1 por Israel. Eles têm intermediários até dentro do governo", acusa Sarit Michaeli, a porta-voz da B'Tselem, uma organização israelense de proteção aos direitos humanos nos territórios palestinos, que foi até o local no dia 1º de junho. A associação denuncia um "plano de deslocamento forçado de populações" que viola o direito internacional.

O Cogat, autoridade israelense encarregada da coordenação das atividades nos territórios palestinos, nega que esteja tentando deslocar essas comunidades beduínas sem seu consentimento. Eles garantem que lhes ofereceram terrenos nas proximidades, mas que os beduínos não quiseram por julgarem que eles não correspondiam a suas necessidades.

Entrevistado pelo "Le Monde", Emmanuel Nahshon, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense, acredita que Israel "tem o direito de destruir prédios concebidos dentro da ilegalidade", lembrando que na zona C da Cisjordânia, licenças de construção devem ser emitidas pela administração israelense. Ele chega a acusar as ONGs que fornecem estruturas provisórias aos palestinos, e a União Europeia que as financia, de "provocadoras".

Em visita a outro vilarejo destruído pelo Exército, no dia 12 de maio, o primeiro-ministro palestino Rami Hamdallah se mostrava preocupado com a continuidade da colonização que "coloca em risco a própria ideia de uma solução de dois Estados." No entanto, essa é a solução que o governo de Binyamin Netanyahu diz apoiar oficialmente, na liderança da coalizão mais à direita da história do país.

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Tradutor: UOL

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