Antidepressivos são ineficazes para crianças e adolescentes, diz estudo

Pascale Santi

Meta-análise a respeito de 14 medicamentos mostra que somente o Prozac tem um efeito benéfico

Tratar depressão em crianças e adolescentes muitas vezes é algo complicado. Um estudo publicado na revista científica britânica "The Lancet", na quinta-feira (9), revela que a maior parte dos antidepressivos disponíveis não tem muita eficácia e não é melhor que um placebo.

Essa meta-análise trata de 34 estudos que incluem 5.260 participantes de 9 a 18 anos. Cerca de 20 especialistas de diferentes países analisaram diversas bases de dados de testes clínicos publicados sobre o tratamento agudo do principal distúrbio depressivo entre crianças e adolescentes, comparando os efeitos de 14 antidepressivos em quatro semanas de tratamento. Esse estudo, cujos principais autores são os professores Andrea Cipriani (Universidade de Oxford) e Xinyu Zhou (Universidade de Chongqing, China), foi financiado pelo Programa Nacional de Pesquisa Fundamental chinês.

Resultado: dos 14 antidepressivos, somente a fluoxetina (Prozac) foi mais eficaz (com mais vantagens do que riscos) do que o placebo para aliviar os sintomas da depressão, um distúrbio que atinge cerca de 3% das crianças de 6 a 12 anos e entre 8% a 12% dos adolescentes na França.

O debate não é novidade. "Admite-se há cerca de dez anos que os tratamentos com medicamentos só têm poucos efeitos sobre as depressões da criança e do adolescente", explica o professor David Cohen, chefe do departamento de psiquiatria da criança e do adolescente no Pitié-Salpêtrière (AP-HP), signatário do estudo.

Além disso, somente a fluoxetina é autorizada na França para a depressão da criança e do jovem adolescente. No entanto, a Alta Autoridade de Saúde (HAS) notou no final de 2014 que a relação entre eficácia e efeitos indesejáveis desse medicamento ainda não era bem determinada na depressão da criança.

Existe um consenso: a psicoterapia continua sendo a primeira opção de tratamento. Um trabalho publicado em 2015 na "World Psychiatry", realizado por essa mesma equipe de pesquisadores, já havia mostrado que as psicoterapias constituíam o tratamento de referência para tratar a depressão.

"São os antidepressivos ferramentas de uso primário?"

A resposta é não, decide o psiquiatra infantil Bruno Falissard (Inserm, Maison de Solenn). "O primeiro tratamento escolhido deve ser a psicoterapia". Na prática, isso é mais complicado, sobretudo na França. "Em geral, as psicoterapias não são reembolsadas fora do hospital, e as esperas muitas vezes são de vários meses nos centros médico-psicológicos", diz esse especialista.

Acompanhamento indispensável

Os sintomas da depressão, difícil de diagnosticar, muitas vezes podem passar despercebidos, revela a HAS, uma vez que essa doença se exprime mais por comportamentos e somatizações. A HAS havia feito recomendações, no final de 2014, tais como detectar mais precocemente a depressão do adolescente ou melhorar o acompanhamento do tratamento.

Apesar disso, os antidepressivos são utilizados em larga escala, constatam os autores. Segundo estudos, a proporção de crianças e adolescentes americanos que tomam antidepressivos aumentou de 1,3% a 1,6% entre 2005 e 2012, e no Reino Unido, de 0,7% a 1,1%. A sertralina (Zoloft) é o antidepressivo mais receitado nos Estados Unidos. Na França, em compensação, essa proporção caiu 17% entre 2007 e 2014, com 0,28% a menos de menores de idade tratados por antidepressivos, segundo dados da Agência Nacional de Segurança dos Medicamentos (ANSM).

Em 2004, a Food and Drug Administration americana havia alertado contra o risco de efeitos colaterais desses medicamentos, inclusive um maior risco de suicídios. Um terço dos adolescentes que sofrem de depressão faria uma tentativa de suicídio, explica a HAS. O estudo mostra que a venlafaxina (Effexor) está associada a maiores riscos de pensamentos suicidas.

No entanto, os autores ressaltam a parcialidade desses estudos, sobretudo a dificuldade de se associar com certeza pensamentos suicidas ou o suicídio em si com a ingestão do medicamento. Em todo caso, esta última deve ser regulamentada com rigor.

"As crianças e os adolescentes que tomam antidepressivos devem ser acompanhados de perto, independentemente do antidepressivo escolhido, especialmente no início do tratamento", explica a equipe dirigida pelo professor Peng Xie (Universidade de Chongqing).

Isso é algo confirmado pelos clínicos. "Essas prescrições devem ser reservadas ao hospital e não devem ser efetuadas na medicina geral, para que se possam observar de perto eventuais efeitos secundários, sobretudo o risco de suicídio", ressalta o professor Xavier Pommereau, que dirige o polo do adolescente da região de Aquitaine (Centre Abadie, Bordeaux). Segundo ele, outro elemento que deve ser levado em conta é "a biologia da criança e do adolescente, que se encontra sob efeito de hormônios sexuais, merece uma atenção especial quando se prescrevem medicamentos".

Mas o professor Falissard adverte que se deve tomar cuidado, pois "muitas vezes se vê em adolescentes episódios de depressão que são queixas, mas não doenças propriamente ditas. Seria um desastre tratar como doença essas queixas e, ainda mais, medicá-las". A adolescência é um momento em que o corpo muda, onde os vícios podem ocorrer.

A vida emocional do adolescente pode passar por altos e baixos, com períodos de baixa que podem durar e vir acompanhados de grande tristeza e recolhimento. É preciso tomar cuidado e não confundir a tristeza profunda que se atravessa durante a adolescência com depressão.

Tradutor: UOL

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