Partidários da permanência britânica na UE esperam "empurrão" da rainha Elizabeth

Philippe Bernard

  • Jorge Guerrero/AFP

    Cartão em homenagem ao aniversário da rainha Elizabeth 2ª é afixado à bandeira britânica em bar em Benalmadena, na Espanha

    Cartão em homenagem ao aniversário da rainha Elizabeth 2ª é afixado à bandeira britânica em bar em Benalmadena, na Espanha

Com incerteza a respeito do resultado do referendo, uma mensagem real poderia ser decisiva

O clamor cresce à medida em que a limusine real se aproxima do palácio de Buckingham. Com a cabeça coberta por um inimitável chapéu fúcsia de plumas, a rainha fica de pé dentro do conversível, acenando para a multidão que se aglomera para celebrar seu 90º aniversário, no domingo (12). Dez mil convidados engajados nas instituições de caridade que ela patrocina fizeram um piquenique debaixo da chuva esperando-a, bravamente. A multidão de populares estava felicíssima de poder ver por alguns segundos a soberana.

A dez dias de um referendo sobre a permanência ou a saída da União Europeia (UE) que vem dividindo o país (há 50% de intenções de voto tanto para o "in" quanto para o "out"), Elizabeth 2ª desfila, apostando na união nacional. Seus 66% de popularidade após 63 anos de reinado são invejáveis no mundo político.

Enquanto brigam sobre o montante da contribuição britânica a Bruxelas, ninguém contesta o custo das repetidas cerimônias em homenagem à rainha. Só o tailleur verde fluorescente que ela usou no sábado, durante a grande parada da guarda montada, foi fonte de controvérsia e piadas. "Ela pôde ser vista da estação espacial internacional", disse um internauta.

Trunfo

Para David Cameron, deve ser forte a tentação de conseguir esse trunfo que seria a rainha. Uma surpreendente pesquisa indica que Elizabeth 2ª é a personalidade cuja opinião sobre a UE mais importa aos britânicos, depois da do presidente do Banco da Inglaterra.

O primeiro-ministro, que está apostando seu futuro político nesse referendo cada vez mais incerto, pode imaginar que virará o jogo se "Lizzie", um dos apelidos da monarca, der algumas palavras sobre seu comprometimento com a Europa.

É verdade que o princípio da neutralidade política da rainha constitui um dos fundamentos da monarquia constitucional britânica. Mas, na falta de uma lei fundamental escrita, a tradição foi codificada no século 19 pelo jornalista Walter Bagehot: "A rainha reina, mas não governa".

Como chefe do Estado, ela "tem direito de ser consultada, de incentivar, de alertar", mas o governo exerce de fato a "prerrogativa real" em seu nome. Os deputados fazem o juramento de lealdade a ela e os ministros devem se ajoelhar perante ela para serem admitidos em seu "conselho privado". Mas o discurso do trono que ela lê todos os anos em Westminster é totalmente redigido pela equipe do primeiro-ministro.

Na verdade, sua discrição é um dos segredos de sua longevidade. "A rainha tem direito de exprimir suas opiniões sobre a política do governo" mas "ela não tem o direito de informá-las a terceiros", escreve Vernon Bogdanor, professor de ciências políticas no King's College e renomado especialista em instituições.

Toda terça-feira ela conversa com o primeiro-ministro (David Cameron é o 12º que passou por seu reinado) e ela não se limita a escutar. Mas nunca nada vazou dessas conversas. "O caráter privado delas é uma condição fundamental da influência real", afirma o professor Bogdanor.

As poucas quebras no sigilo das conversas entre Buckingham e Downing Street foram motivo de escândalo. David Cameron, por exemplo, teve de pedir desculpas quando em setembro de 2014, pouco após a vitória do "não" à independência dos escoceses, ele foi gravado sem saber contando que a rainha havia "ronronado" de alegria ao saber do resultado do referendo.

Excepcionalmente, Elizabeth 2ª também foi pega criticando oficiais chineses, no dia 10 de maio durante uma festa nos jardins do palácio.

Mas, ao contrário do dogma proclamado da neutralidade, acontece de a rainha deixar escapar algumas frases bem políticas ditadas pelo primeiro-ministro. Elemento de estabilidade política no país, Elizabeth 2ª, cuja popularidade é alta tanto na China quanto na Alemanha, também é um vetor de influência diplomática usada pelos sucessivos governos.

Alguns dias antes do referendo sobre a independência da Escócia, a rainha havia ordenado que os eleitores "pensassem muito seriamente no futuro". A expressão foi interpretada por muitos como um apoio ao voto a favor da permanência da Escócia no Reino Unido, que aliás se revelou compensador.

O mesmo aconteceu em junho de 2015 em Berlim. Cameron, que estava tentando persuadir Angela Merkel no momento de negociar novas isenções às regras da UE para o Reino Unido, enviou Elizabeth 2ª para "reconhecer terreno".

Com um pequeno passeio de barco pelo Spree com o presidente Joachim Gauck e algumas sessões de foto com um buquê de flores na mão, a rainha preparou o terreno antes da chegada de David Cameron. Durante o jantar oficial, diante deste e de Merkel, ela fez um brinde alertando contra "a divisão da Europa" e exaltando "nosso continente", uma expressão nunca utilizada no Reino Unido. Evidentemente, a frase trazia a marca da Downing Street.

Suposta conversa

"Não há uma palavra em seus discursos públicos que não tenha sido escolhida a conselho do governo", explica Charles Anson, que por muito tempo foi o chefe da assessoria de imprensa de Buckingham. "Mas sua popularidade está ligada a seu talento para preservar sua neutralidade em qualquer circunstância."

O episódio da capa do "The Sun" que afirmava, em março, que Elizabeth 2ª queria o "Brexit", mostrou como o palácio é sujeito a pressão por parte dos políticos.

O tabloide anti-UE provavelmente reproduziu o relato do ministro da Justiça, o eurófobo Michael Gove, sobre uma suposta conversa com a rainha que ocorreu em 2011, durante a qual ela teria afirmado que a UE estava indo "na direção errada".

Furiosa por ver sua neutralidade comprometida em um momento tão crucial, a rainha pela primeira vez recorreu à agência regulatória da imprensa. Ao considerar o título do "The Sun" como "nitidamente falacioso", a instância quis encerrar a polêmica. Mas ela certamente não tirou dos políticos a tentação de fazer com que a rainha fale.

Tradutor: UOL

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