Não haverá economia colaborativa sem confiança

Thomas Busuttil

  • Arte UOL

    Novos atores e novas tecnologias estão “uberizando os uberizadores”, segundo modelos mais justos

    Novos atores e novas tecnologias estão “uberizando os uberizadores”, segundo modelos mais justos

A OuiShare Fest 2016, evento indispensável para entender as grandes evoluções da economia colaborativa nos próximos anos, que aconteceu no mês passado em Paris, confirmou em grande parte a previsão de Rachel Botsman, pioneira e guru dessa mesma economia, que em 2010 dizia: "A confiança será a moeda do século 21".

A convergência entre o big data, os objetivos conectados e a ascensão de uma sociedade cada vez mais personalizada está fazendo com que entremos num ritmo desenfreado em um mundo onde a quantidade de dados disponíveis e necessários para garantir essa hiperpersonalização de produtos e serviços está se tornando colossal.

Se olharmos para o exemplo da cosmética, é a soma de dados sobre sua pele, seu sono, a qualidade do ar interno, o clima, o tipo de atividade que você exerce durante o dia que dará a possibilidade às empresas do setor de formular diariamente o elixir da juventude que lhe garantirá juventude e beleza eternas...

Isso sem falar nas seguradoras, que, para ajudá-lo a prevenir os riscos associados à sua casa, seu modo de transporte ou sua saúde, obterão em fluxo contínuo dados sobre o que você faz, o que você come, como você se desloca... Ou então a Myndblue, uma start-up que procura identificar riscos de depressão a partir de dados fisiológicos, mas também de sua maneira de se exprimir nas redes sociais.

Então como construir essa confiança em relação a empresas e marcas que vão buscar dados cada vez mais íntimos em cada um de nós? E como dar respostas às expectativas e às inquietudes crescentes dos internautas sobre a segurança, a utilização e o valor de seus dados?

Entenda o impacto da tecnologia na economia colaborativa

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A "blockchain", garantia de rastreabilidade

A resposta que parece se esboçar é tecnológica, mas também associada à governança e à postura dos indivíduos, das empresas e dos Estados.

Do lado da tecnologia, a disrupção dos modelos atuais provavelmente virá da blockchain. Essa tecnologia permite qualquer tipo de troca (informações, produtos, serviços...) entre pessoas (peer-to-peer) de maneira descentralizada e protegida sem uma autoridade central de controle (portanto, sem intermediários), particularmente através do uso de criptomoedas como o bitcoin. Um de seus principais trunfos reside, portanto, na proximidade da troca e na capacidade de dispensar um fornecedor de serviços que vá captar e usar seus dados, para por exemplo revendê-los a outros sem que você saiba e sem que você tenha dado seu consentimento.

O sistema se baseia em uma série de "cadeias" que formam uma gigantesca base de dados que só pode ser entendida de maneira descentralizada e através de pedaços. Dessa forma, ele garante ao usuário o total controle dos dados que ele comunica ao mesmo tempo em que lhe garante uma rastreabilidade de suas ações, seja para fechar um contrato, realizar uma compra ou ainda votar em uma eleição.

Estamos começando a ver novos atores econômicos que usam essa tecnologia e que estão "uberizando os uberizadores". Podemos citar o Twister, plataforma de microblogging concorrente do Twitter, mas que permite postagens descentralizadas (peer-to-peer) e, portanto, livres de qualquer controle; o Openbazaar, que reinventa o Le Bon Coin, também um modo peer-to-peer e com pagamentos em bitcoins; o Zooz, que dispensa uma plataforma como o BlaBlaCar para oferecer compartilhamento de carros sem intermediários. Mas a tecnologia continua sendo uma ferramenta a serviço de indivíduos, de empresas ou de instituições que podem orientar de uma maneira ou de outra.

Nesse ponto, é interessante ver que no momento em que todos os grandes nomes da Web estão desenvolvendo assistentes virtuais como a Siri para a Apple ou o último Home do Google, nova versão que vai multiplicar o número de nossos dados pessoais que esses grupos detêm, outros como o Snips oferecem um serviço comparável baseado em parte na blockchain. Ele é concebido segundo o princípio do privacy by design, que garante que todos seus dados permaneçam em seu computador ou smartphone e que seja você quem decide aquilo que quer dar e a quem.

É ainda mais interessante ver como essa abordagem colaborativa da economia associada a essas novas tecnologias permite repensar os modos de organização e os comportamentos, particularmente na redistribuição do valor.

Uma "Bitnation" virtual

Embora continuem sendo secundárias e ainda imaturas, várias iniciativas estão esboçando um possível futuro de nossa sociedade. Isso vale para experiências como as cooperativas de plataformas promovidas pela Peer to Peer Foundation: Backfeed, uma organização que constrói um sistema de governança e de gestão descentralizada que utiliza a blockchain e que permite avaliar as contribuições materiais e imateriais de cada um em um projeto; para ir além, o site Gratipay, dentro do qual cada colaborador autoavalia o valor de sua contribuição, do ponto financeiro e outros. Tudo isso resulta na experimentação de uma nação virtual como a da "Bitnation".

Apesar de várias tentativas e erros, empresários e desenvolvedores dos quatro cantos do mundo estão claramente concebendo, experimentando (ainda que às vezes se enganem ou lancem projetos imperfeitos), enfim, inventando não somente uma nova economia, mas sobretudo uma nova sociedade: colaborativa, descentralizada, fluida, aberta e, sobretudo, mais justa.

Tradutor: UOL

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