Com 1º jogador negro da história da seleção, Áustria vive "efeito Alaba"

Blaise Gauquelin

  • Alexander Hassenstein/ Pool Photo via AP

A Áustria tem Conchita Wurst e David Alaba. A cantora barbada venceu o concurso do Eurovision em 2014. O primeiro jogador negro da história da seleção austríaca tem pouquíssimas chances de vencer a Eurocopa de 2016, mas ele estava no centro das expectativas de todo um país que precisava vencer a Islândia na última quarta-feira (22), no Stade de France, para esperar chegar às oitavas de final.

Aos 23 anos de idade, o lateral esquerdo do Bayern de Munique, que foi consagrado por cinco vezes como melhor esportista do país desde 2011, é adorado em Viena. Esse "presente do céu", como o chama Ottmar Hitzfeld, lenda do clube bávaro, é um astro em um país que em geral consagra esquiadores.

"É a primeira vez em que um negro na Áustria recebe tanto apoio", já explicava desde 2012 à revista "Biber" um jornalista de Camarões residente em Viena, Simon Inou.

Seria uma espécie de "efeito Alaba", que teria permitido mudar o olhar da população sobre os habitantes não brancos do país. "Antes, os negros eram ou vítimas ou culpados. Vítimas do racismo ou culpados como traficantes de drogas. Agora, também há a imagem do atleta ou do artista."

A extrema-direita, aliás, não teve dúvidas. Muito poderosa na Áustria, onde o candidato do FPÖ, por muito tempo favorito, foi derrotado por pouco no segundo turno da eleição presidencial do final de maio, ela atacou frontalmente a figura de David Alaba, que costuma se apresentar como um "verdadeiro vienense", cultivando o sarcasmo com o talento de um nativo. Ele tem "schmäh", como se diz na capital sobre aqueles que sabem responder com humor e ironia a perguntas inoportunas.

Calção de couro e cerveja

Ele ensina a seu amigo francês do Bayern de Munique, Franck Ribéry, as pequenas nuances do dialeto particularmente misturado tal como é falado no antigo centro de um império cultural.

Ele também veste com prazer seu calção de couro quando participa da festa da cerveja, a famosa Oktoberfest, símbolo bávaro de uma germanidade que, para certos nostálgicos, seria necessariamente loira e de olhos azuis.

"Negro como piche", segundo Andreas Mölzer, o principal candidato do FPÖ às eleições europeias de 2014, David Alaba seria incapaz de patriotismo.

Em um artigo intitulado "Diário de bordo de um racista", publicado em 2012, o veterano do partido de extrema-direita atacava a popularidade do jogador e aquilo que ela dizia sobre as transformações na população da Europa.

No entanto, esse é um ponto de vista isolado, visto que Alaba e sua família são unanimidade entre as pessoas. Mesmo a inabalável fé de recém-convertidos deles não é comentada de maneira negativa.

Adepto da Igreja Adventista do Sétimo Dia, o astro protestante lê a Bíblia diariamente. O jogador, aliás, acredita que deve seu talento e sua energia a Deus. Durante sua comemoração na Liga dos Campeões, no estádio de Wembley, em Londres, em 2013, ele usava uma camiseta com a frase "Minha força vem de Jesus".

Mais do que a Deus, Alaba tem um reconhecimento infinito pelos seus pais. "Sem eles", ele diz, "eu não estaria onde estou. O que eles me deram eu jamais poderei retribuir".

Na Áustria, Gina e George são tão conhecidos quanto o filho prodígio, tendo sua história recontada inúmeras vezes. George, que veio da Nigéria para a capital austríaca em 1984 para estudar, foi tema de diversas reportagens na TV. Seu grande feito foi ter sido um dos primeiros negros a ingressar no Exército.

Ele conheceu sua futura mulher, Gina, de origem filipina, no African Club, onde ele também trabalhou como DJ. Na época, era um lugar frequentado por alguns poucos privilegiados do país. Já Gina fez parte dos primeiros contingentes de imigrantes aceitos no pequeno país alpino, graças a um acordo bilateral, onde se instalou no mesmo ano em que seu futuro marido.

A Áustria, rica e em processo de envelhecimento, tinha na época uma grande demanda por enfermeiros. No imaginário coletivo, Gina e centenas de jovens filipinas representaram a abertura do país às migrações de trabalho.

Ela sonhava em ser modelo e venceu o concurso de Miss Filipinas na Áustria, enquanto George começava a ficar conhecido cantando na dupla Two in One, que lançou um pequeno hit em 1999, antes de acabar.

Na Áustria, os casais compostos por brancos e negros estão começando a surgir agora, mas o encontro entre Ásia e África, em Viena, ainda é extremamente raro. A capital austríaca já é um "caldeirão" da Europa, mas ainda não é um espaço de grandes amores intercontinentais. Gina e George, portanto, são alvo de uma atenção especial.

Genro ideal

A experiência deles foi útil para seus dois filhos. Hoje, Rose-May Alaba, a irmã de David, começa a ficar conhecida no cenário musical por participar de shows de talentos.

Já David logo se tornou um astro. Descoberto muito cedo, ele se tornou aos 17 anos o mais jovem atleta internacional austríaco da história ao participar, em outubro de 2009, da partida entre França e Áustria nas eliminatórias para o Mundial de 2010.

Alaba, que já jogou em quase todas as posições, e não necessariamente confortável no meio de campo contra a Hungria (0-2) e Portugal (0-0), onde foi substituído no segundo tempo, está sempre sorrindo. Seria uma forma de polidez. Ele cultiva o bom humor como um preceito familiar.

Depois de trabalhar durante 18 anos em uma casa de repouso, sua mãe abandonou seus horários malucos em 2011, pois era complicado demais para assistir às partidas.

Aos 51 anos de idade, o pai de Alaba também parou de tocar no Beverly Hills, um bar de strip-tease, e agora ele cuida da carreira de seus filhos.

Já o seu filho cultiva a imagem de genro ideal. Ele não dá motivo para fofocas pelo que faz na vida privada e volta para Viena de férias para passar tempo com sua família, nas ruas de seu bairro de infância.

"Nós ensinamos nossos filhos a serem sempre positivos", explicou recentemente sua mãe em uma entrevista a uma rádio religiosa.

"Passamos por muita coisa por causa da cor de nossa pele. Mas respondíamos que Deus é amor. Falamos a David e a Rose-May sobre nosso passado difícil e eles sabem que é preciso compartilhar aquilo que se recebe. Agora David pode comprar roupas bonitas para si, mas continua com o mesmo caráter".

Para que seus pais possam fazer bate-voltas entre Viena e Munique, ele também comprou dois carros para eles.

Tradutor: UOL

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