O Estado Islâmico está próximo do fim?

Alain Frachon

  • AP - 26.jun.2016

    Imagem retirada de vídeo mostra soldados iraquianos segurando bandeira do Estado Islâmico de cabeça para baixo em Fallujah (Iraque)

    Imagem retirada de vídeo mostra soldados iraquianos segurando bandeira do Estado Islâmico de cabeça para baixo em Fallujah (Iraque)

O "califado" de Abu Bakr al-Baghdadi não vai durar. Seu suposto EI (Estado Islâmico), autodeclarado há dois anos, está na defensiva. Ele se dissipará tão rápido quanto uma bruma matinal nas margens do Eufrates. Mas e o jihadismo, o terrorismo islâmico, as guerras do Iraque e da Síria, que constituem o caos do Oriente Médio? Infelizmente, nada disso desaparecerá junto com o EI.

Daqui a algumas semanas ou meses, a cidade sunita de Fallujah, nas mãos do EI desde janeiro de 2014, será retomada. O Exército iraquiano está avançando, e o EI recuando. Ao longo de 2016, os homens do EI já tiveram de abandonar Tikrit e Ramadi. Em breve começará a batalha de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque e "capital" do "califado" à beira do rio Tigre. O outro bastião de Al-Baghdadi, a cidade de Raqqa, na Síria, às margens do Eufrates, sofrerá os ataques conjuntos do Exército do regime, de um lado, e dos curdos, do outro.

As pessoas atribuem a Barack Obama o desejo de ver o EI sendo expulso de Mosul e de Raqqa até janeiro de 2017, quando ele deixará a Casa Branca. Nenhum dos avanços obtidos nos últimos meses na direção dessas duas cidades teria sido possível sem as intervenções da US Air Force. Na luta contra o EI, a contribuição aérea decisiva, até hoje, veio dos Estados Unidos, não da Rússia (que só está intervindo na Síria).

O que significará a perda de Raqqa e de Mosul para a organização de Al-Baghdadi? Ela marcará o desmantelamento das estruturas paraestatais do "califado", esse início de administração, de recolhimento de impostos, de aplicação da sharia, de venda de petróleo, que fez com que o EI dissesse que ele era um movimento terrorista mais rico e mais duradouro que os outros. Uma consequência saudável será que os 6 milhões de pessoas que, de ambos os lados da fronteira, vivem sob a tirania dos soldados do "califa", ficarão livres.

Iraque retoma controle da primeira cidade tomada pelo EI

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Hora da vingança

Mas que não se enganem. O advento do EI, movimento sunita, se somou às tragédias sírio-iraquianas, ele não as criou. Pelo contrário, o EI nasceu dessas tragédias e se alimenta delas. Com a retomada de Raqqa e de Mosul, o embrião do Estado que é o EI será destruído. Aliás, a derrota militar tirará dele aquilo que foi um dos elementos de seu "carisma": sua imagem de invencibilidade. Mas a ideologia que move sua ação, o jihadismo sunita, sobreviverá a ele, de uma forma ou de outra. E será assim enquanto os árabes sunitas estiverem mal. Essa é uma explicação em termos gerais.

No Iraque, os árabes muçulmanos sunitas representam 20% da população. Essa minoria foi protegida pelo antigo regime, o Ba'ath de Saddam Hussein. Durante trinta anos, o Ba'ath tiranizou a maioria árabe muçulmana xiita e martirizou a outra minoria, os curdos. Quando os Estados Unidos derrubaram Saddam Hussein em 2003, os curdos, no norte, já haviam constituído uma região autônoma. Para os xiitas, que se instalaram no comando, havia chegado a hora da vingança: era a vez de os sunitas serem perseguidos, marginalizados, aprisionados, torturados, executados em alguma fronteira.

Na Síria, o Ba'ath logo foi dominado por uma das minorias religiosas do país, os alauítas. Mas a maioria dos sírios é sunita (60% da população), e é entre eles que se encontrariam, os opositores mais ferrenhos ao regime dos Assad, a Irmandade Muçulmana, mas não só. No início, a insurreição síria de 2011 foi em grande parte ação do campesinato sunita.

Os "grandes" da região se envolveram. A República Islâmica do Irã, uma potência xiita, hoje apoia e organiza o governo xiita em Bagdá. A Arábia Saudita, potência sunita por excelência, mas também a Turquia, tomaram partido dos sunitas. Nascido no Iraque, o EI, dissidência da Al-Qaeda, seria a encarnação da revolta sunita contra a opressão dos xiitas. No turbilhão iraquiano dos últimos anos, herança da invasão americana, que viu o Estado central se desmoronar, o EI cresceu e se expandiu, apresentando-se como o protetor dos sunitas do Iraque. O EI se espalhou para a Síria e se esforçou, ao lado da Al-Qaeda, para virar um dos braços mais ativos do combate contra Damasco.

Nas ruínas dos dois Estados em via de decomposição avançada, o jihadismo, para além de sua insanidade político-religiosa, encontrou uma causa: a defesa dos sunitas. Essa causa tem um objetivo. Os árabes sunitas do Iraque e da Síria estão ameaçados. Na Síria eles constituem a maioria dos 5 milhões de pessoas deslocadas pelos combates, relata Patrick Cockburn, jornalista do "The Independent". No Iraque, centenas de milhares deles vão errando, de um campo de refugiados para outro; eles se limitam a alguns enclaves, tendo sido expulsos de Bagdá, expulsos de suas cidades (Ramadi, Tikrit) destruídas no furor dos combates contra os bandos de Al-Baghdadi. Terrível, a réplica do EI, com carros-bomba nos bairros xiitas, só exacerbou a raiva destes contra os sunitas.

A luta contra o EI é político-militar. Não se trata somente de expulsar Al-Baghdadi de Raqqa e de Mosul, cidades sunitas, mas de saber quem as controlará "depois". Se Fallujah for recuperada pelas milícias xiitas, não pelo Exército regular, a revolta sunita se traduzirá em uma simpatia renovada pelo EI. Então, mesmo destruído como organização paraestatal, este ressuscitará para encarnar o infortúnio sunita. O jihadismo sobreviverá à derrota do "califado", passando de "Estado" para guerrilha. Até quando? Enquanto a Síria e o Iraque não forem Estados que tolerem a diversidade de suas populações em igualdade, algo que pode levar uma geração.

Tradutor: UOL

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