Estamos combatendo o EI de todos os jeitos possíveis, diz chanceler turco

Christophe Ayad

  • Murad Sezer/ Reuters

Mevlüt Çavusoglu, ministro turco das Relações Exteriores, condena o apoio de Washington aos curdos sírios

Em uma semana, a Turquia sofreu um ataque da organização Estado Islâmico (EI) contra o aeroporto internacional de Istambul, que causou a morte de 46 pessoas, e normalizou suas relações com a Rússia, bem como com Israel. O ministro turco das Relações Exteriores, Mevlüt Çavusoglu, fala sobre esses acontecimentos.

Le Monde: O atentado contra o aeroporto de Istambul foi uma declaração de guerra do EI contra a Turquia. O senhor irá mudar de estratégia?

Mevlüt Çavusoglu: Não é nada de novo. Daesh (acrônimo árabe do EI) já atacou a Turquia. Já estamos combatendo o Daesh de todos os jeitos possíveis. Nós fomos muito ativos na coalizão contra o Daesh ao abrir nossa base aérea de Incirlik, levando os peshmergas (curdos) e forças locais iraquianas para o norte do Iraque. Nós contivemos o fluxo de combatentes estrangeiros há muito tempo. Nossa lista de interdições de entrada conta com 50 mil nomes, nós impedimos a entrada de mais de 3 mil pessoas, e há um milhão de detidos na Turquia.

Le Monde: A Turquia está em guerra contra o EI e contra o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, separatistas). Seria razoável conduzir esses dois combates de front?

Çavusoglu: Quando você é atacado por terroristas, sejam eles quem forem, você não estabelece prioridades. Essas duas organizações são igualmente perigosas. Não temos outra escolha senão lutar.

Le Monde: Mas o PKK está na vanguarda do combate ao EI na Síria.

Çavusoglu: Estou feliz por vocês finalmente reconhecerem que não há nenhuma diferença entre o PKK e as YPG. Nossos amigos na Europa e nossos aliados americanos tentam nos convencer do contrário por alegarem que o PKK luta contra o Daesh, será que deveriam deixá-lo conduzir suas atividades terroristas na Turquia, matando nossos soldados e nossos policiais? Não dá.

Le Monde: Vocês estão decepcionados com os americanos que têm apoiado militarmente as YPG na Síria?

Çavusoglu: Usar terroristas para combater uma outra organização terrorista é um erro grosseiro. O objetivo do PKK e das YPG não é a paz e a estabilidade na Síria, nem sua integridade territorial. Pelo contrário, eles querem criar sua própria "entidade". É muito perigoso.

Le Monde: Vocês acabam de se reconciliar com a Rússia. A Turquia pediu "desculpas"?

Çavusoglu: Nós enviamos uma carta, que foi muito útil para normalizar nossas relações. Nós exprimimos nossas condolências pelo povo russo e pela família do piloto, cujo avião foi abatido por um caça turco no dia 24 de novembro de 2015, e que depois foi morto por rebeldes sírios. O importante é como vamos reforçar nossas relações. Os russos disseram que iam retirar todas suas sanções.

Le Monde: Mas vocês continuam em desacordo com a Rússia quanto ao destino do presidente sírio Bashar al-Assad.

Çavusoglu: Continuamos acreditando que o povo sírio e a oposição não podem aceitar Assad porque ele usou armas químicas e bombas para matar quase 500 mil de seus cidadãos.

Le Monde: As conversas de paz de Genebra entre atores sírios continuam acontecendo?

Çavusoglu: Existia um plano de ação que previa a suspensão das hostilidades, a distribuição de ajuda humanitária e conversas políticas de verdade. Mas o cessar-fogo foi violado inúmeras vezes pelo regime sírio e seus apoiadores. A ajuda humanitária não consegue chegar a zonas sitiadas por causa de entraves do regime. Por fim, está claro que o regime não quer conversar sobre a transição política. Sempre dissemos à oposição para que fosse até Genebra negociar, mas nessas circunstâncias não vemos a utilidade disso.

Le Monde: A Arábia Saudita propõe que se passe ao "plano B", ou seja, aumentar a ajuda para a rebelião moderada.

Çavusoglu: A melhor solução é política. Se ela não der certo, a guerra infelizmente nunca terminará e haverá mais vítimas civis, mais deslocados, mais refugiados, tanto em nosso país quanto no de vocês, na Europa.

Le Monde: Cerca de 120 mil sírios estão agrupados em sua fronteira. Vocês deixarão que eles entrem?

Çavusoglu: A melhor solução seria uma "zona segura" de proteção dentro da Síria na região de Manbij e no norte do país, uma vez que o Daesh seja expulso de lá. Nós poderemos então nos encarregar de reconstruir a infraestrutura. É só uma questão de vontade. Ninguém quis ouvir falar nessa solução com exceção da França. Foi preciso que acontecesse uma onda maciça de imigrantes para que Merkel começasse a apoiar essa opção.

Le Monde: Vocês têm tropas no Iraque. A Turquia vai participar da batalha de Mosul?

Çavusoglu: Nossas tropas estão lá para treinar as forças locais. Nossas forças especiais podem ajudar pontualmente, mas não o Exército turco.

Le Monde: Vocês normalizaram suas relações com Israel. O que conseguiram com isso?

Çavusoglu: A retirada do embargo sobre a Faixa de Gaza foi uma das três condições que havíamos imposto para essa normalização com desculpas e indenizações. O primeiro navio de ajuda humanitária partiu de Mersin no dia 1º de julho para Gaza, e nós participaremos da reconstrução da infraestrutura da Faixa de Gaza.

Le Monde: Esta semana vocês abriram um novo capítulo do processo de adesão à União Europeia. Vocês continuam querendo entrar para essa União que o Reino Unido acaba de deixar?

Çavusoglu: A Europa é o mais democrático, o mais estável e o mais próspero dos continentes. É por isso que temos o objetivo de entrar para a UE, apesar de todos seus problemas. Queremos ser um membro com todos os direitos e deveres. Não seremos um fardo para a Europa. O problema da UE é sua arrogância: ela critica quem ela quer, mas ninguém pode criticá-la.

O que queremos é uma decisão clara da UE. Ela quer a Turquia? Sim ou não? Em dez anos, abrimos 16 capítulos; Montenegro conseguiu mais em três anos. Nós começamos a negociar ao mesmo tempo em que a Croácia, e hoje ela é membro de pleno direito. Queremos ser tratados com dignidade.

Le Monde: O senhor considera que o acordo de 18 de março entre a Turquia e a UE sobre a imigração tenha sido um sucesso?

Çavusoglu: Sem dúvida. Nós acolhemos cerca de 500 refugiados que a Grécia expulsou, e cerca de 800 sírios que viviam na Turquia foram reinstalados na Europa. O número de passagens ilegais caiu de 7 mil por dia em setembro, para 45 hoje.

Le Monde: Mas a isenção dos vistos europeus para os turcos não está garantida enquanto vocês não modificarem sua lei antiterrorismo.

Çavusoglu: A Turquia preencheu 67 dos 72 critérios definidos pela UE, já é bastante. A UE precisa entender que, se ela não adotar a liberação dos vistos, não aplicaremos mais a readmissão dos imigrantes. Não é uma ameaça, é parte integrante do acordo que assinamos. As coisas devem ficar claras: em plena onda de ataques terroristas, não vamos modificar nossas leis.

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