Nos EUA, corpo achado na neve há quatro décadas nunca foi identificado

Michael Wilson

Ele foi encontrado pelo único tipo de gente que se interessa por valas profundas e cobertas de neve na floresta em um dia congelante de fevereiro: crianças com trenós.

"Um dos meus irmãos olhou e disse: 'Ei, vejam só! Tem um corpo ali embaixo'", disse Thomas Adams, que tinha 6 anos naquele 1º de fevereiro de 1970. "Alguém disse: 'Não, aquilo é uma múmia!' Éramos só crianças."

Os irmãos Adams correram atrás de seus pais na casa de férias da família em Saugerties, Nova York, uma cidade no condado rural de Ulster. "Meu pai foi até o cara e disse: 'É um cadáver. Preciso ir buscar o xerife'," lembrou Adam na semana passada, hoje com 53 anos.

Ali, na neve, estava um homem morto deitado com os braços estendidos para frente como se estivesse lendo um jornal. Ele usava terno e gravata e estava com a barba feita, era próximo da meia idade e tinha galochas cobrindo seus sapatos, US$ 156 no bolso e quatro buracos de bala na nuca.

Não trazia nenhuma identificação, mas o frio havia preservado o corpo, e as perspectivas de descobrir o nome do homem pareciam promissoras.

"Ele foi encontrado em ótimas condições", disse o investigador James Browne, da polícia estadual de Nova York, na semana passada. "Temos as impressões digitais, temos seu DNA, temos fotos suas."

Pessoas foram interrogadas e teorias foram investigadas. Um informante na prisão ofereceu pistas. Foi levantada uma possível conexão com a máfia. E, mesmo assim, 46 anos depois, nada disso foi suficiente.

"Simplesmente não sabemos quem ele é", disse Browne.

Em março, a polícia procurou uma ferramenta das antigas: um retratista, trabalhando a partir da foto do corpo, fez um retrato daquilo que o homem deveria parecer quando estava vivo. A política divulgou o retrato para o público no mês passado.

Ao longo das décadas, o dossiê sobre o assassinato foi sendo passado de um investigador para outro, a última vez tendo sido de Browne para o investigador Andrew D. Kinderman, em 2014. Os oficiais foram apresentados a sacolas e mais sacolas de provas na semana passada, uma assustadora exposição de possíveis —ainda que até então infrutíferas— pistas encontradas sobre a identidade do homem.

O dinheiro que ele carregava consistia de cinco notas: três de US$ 50, uma de US$ 5 e uma de US$ 1. Além de seu terno verde e gravata escura, ele usava um sobretudo. Por baixo de sua camisa social branca havia mais camadas: uma camisa de manga comprida verde-oliva, uma camiseta e um pijama azul-claro.

Alguns indícios davam a entender que ele não tinha muitos recursos. Seus sapatos eram de couro sintético, e um buraco em sua roupa de baixo havia sido remendado à mão.

Seu guarda-roupa era uma grande mistura de marcas do mundo inteiro. A etiqueta em uma camisa era da Hering, do Brasil; outra era da Rimrock, de Taiwan. As galochas eram do Canadá, sua roupa de baixo, da Coreia, e sua gravata da Playboy Neckwear.

"Para Homens Que Pensam Como Jovens", dizia a etiqueta na gravata.

Ele trazia consigo um pente de plástico, um palito de dentes e, pregada dentro de um bolso do casaco, uma pequena chave. Seus pertences mais valiosos eram um anel de ouro com uma pedra vermelha e algumas marcas indicando que ele havia sido feito em Portugal, e no pulso esquerdo um relógio Omega Seamaster.

A Omega, baseada na Suíça, fabricava o relógio que Neil Armstrong havia usado na Lua cerca de seis meses antes, e o que o presidente John F. Kennedy usara em sua posse oito meses antes disso. Os investigadores contataram a Omega, e a empresa conseguiu rastrear o relógio do homem desde sua fabricação até a loja para a qual foi enviado em 1960 —mais uma vez, Portugal.

As balas que mataram o homem haviam se alojado em sua cabeça. Elas eram pequenas, de calibre .25, e lembravam as que a fabricante de munição Companhia Brasileira de Cartuchos produzia.

Havia letras e números rabiscados por baixo do colarinho de sua camisa social, anotações de uma lavanderia a seco. Os investigadores as mostraram para lavanderias da Cidade de Nova York, sem resultados.

Mas os pijamas eram intrigantes.

"Uma teoria possível seria de que ele estivesse em casa dormindo, quando um indivíduo apareceu e fez com que ele vestisse um terno por cima mandando que ele o acompanhasse", disse Browne.

Mas se fosse esse o caso, será que permitiriam que o homem se barbeasse primeiro? E colocasse uma gravata e calçasse galochas e pegasse um palito de dente, pente e dinheiro? Essas não são ações de um homem apressado com uma arma apontada para ele.

Os investigadores têm outra teoria a respeito do pijama: o homem havia se vestido em camadas porque estava com frio—muito frio, caso ele fosse novo em Nova York e tivesse vindo de um país mais quente, como Portugal ou Brasil.

O ano de 1971 trouxe o que parecia ser uma pista tentadora. Um detento da penitenciária de Green Haven em Stormville, Nova York, se apresentou e disse que possuía informações sobre a morte.

O detento, Edward Sullivan, 42, cumpria sentença por homicídio culposo depois de ter sido condenado no Queens. Ele contou aos investigadores que havia ouvido outros detentos no pátio da prisão descreverem como três homens da máfia haviam matado um mensageiro do narcotráfico de ascendência italiana ou cubana, o colocaram no porta-malas e o desovaram em um aterro, de acordo com anotações no dossiê.

Sullivan disse que os três homens eram Alphonse "Allie Boy" Persico, cujo irmão Carmine era um chefe da família mafiosa Colombo, e dois sócios, Jerry Langella e Hugh Macintosh, que atendia pelo apelido de Apples. A família Persico possuía uma fazenda em Saugerties não longe de onde o corpo fora encontrado.

Os investigadores anotaram em 1971 que Sullivan havia sido testemunha em três julgamentos por assassinato no passado, sugerindo que talvez ele fosse propenso a compartilhar pistas obtidas na cadeia na esperança de conseguir favores.

Ao longo dos anos, todos os três mencionados na declaração de Sullivan foram presos por acusações sem relação, e todos os três foram interrogados sobre o corpo. Todos negaram ter qualquer conhecimento sobre o homem. Pelo menos um deles poderia estar preso na época do assassinato. Todos morreram desde então, bem como o detento que citou seus nomes.

Os Persicos venderam a maior parte da propriedade sobre a fazenda, disse um advogado da família, Mathew J. Mari.

"Ninguém da família nunca ouviu falar disso", disse Mari na semana passada a respeito do assassinato. O caseiro da propriedade Joe Trunk, 89, recebeu um repórter na semana passada e disse que trabalhava ali em 1970, e também nunca ouvira falar sobre o corpo.

Os anos se passaram, e em 2015 investigadores mandaram exumar o cadáver no Cemitério Blue Mountain, onde a prefeitura o havia enterrado em uma cova não identificada --coincidentemente, logo ao lado da fazenda da família Persico. Eles coletaram DNA dos ossos do homem para compará-lo com uma base de dados mundial na esperança de encontrar algum parente.

Mas nada ainda.

Adams, que encontrou o corpo junto com seus irmãos quando criança, hoje vive na Califórnia, mas por acaso estava visitando a propriedade de sua família em Saugerties na semana passada quando a polícia divulgou o novo retrato. Ele disse que não pensara muito sobre isso ao longo dos anos, mas que permanecia intrigado com o que viu naquele dia.

"Ele usava um terno escuro, é algo de que você consegue se lembrar", disse Adams. "Você pensa em um cara de terno escuro como um profissional, não como alguém que poderia ser assassinado."

Tradutor: UOL

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