Presidente eslovaco assume a União Europeia abalado por acusações em seu país

Blaise Gauquelin

  • SAMUEL KUBANI/AFP

Imprensa acusa o ministro do Interior do país de ter acobertado um sistema de fraude fiscal

Administrar o pós-Brexit e negociar um acordo sobre a crise da migração: esta é a agenda já bem carregada do primeiro-ministro eslovaco, o socialdemocrata Robert Fico, que desde o dia 1º de julho ocupa a presidência da União Europeia (UE).

Mas ele ainda tem problemas de política interna para resolver, repetindo que está cansado da política e que em breve poderá jogar a toalha, com somente 51 anos, ainda mais que seu partido vem enfrentando um escândalo de corrupção.

Robert Fico venceu as últimas legislativas, em março, e em abril sofreu uma cirurgia de ponte de safena, da qual já se recuperou. Ele é aliado da extrema direita do Partido Nacional Eslovaco (SNS), bem como de dois outros partidos.

A Eslováquia já passou por dezenas de escândalos de corrupção desde sua independência, em 1993, mas as histórias saíam na imprensa sem que nenhum parlamentar inescrupuloso nunca tivesse medo de ir parar na cadeia.

Mas, desta vez, a oposição está determinada a aproveitar a exposição que haverá durante os seis meses da presidência da UE para derrubar a esquerda. Ela vem organizando manifestações nas ruas, com milhares de pessoas respondendo aos seus chamados.

A revolta deles tem um nome: o de um carismático ministro com cara de toureiro, Robert Kalinak. Com seus cabelos longos e sua barba preta, esse ex-advogado e empresário, personagem-chave do Executivo eslovaco, ocupa a pasta do Interior desde 2012, cargo que ele já havia ocupado anteriormente entre 2006 e 2010, durante o primeiro mandato de Fico.

Cobertura de luxo

Em janeiro, a revista semanal de economia "Trend" publicou uma reportagem baseada na declaração de uma testemunha. Esta última afirmava que o ministro do Interior havia encoberto, no período de 2007 a 2010, um sistema de fraude fiscal envolvendo uma centena de pessoas e 75 milhões de euros.

Além disso, segundo extratos bancários obtidos pelo asistente parlamentar do deputado liberal Jozef Rajtar, o ex -advogado também teria embolsado centenas de milhares de euros. Essas somas de dinheiro eram provenientes de uma empresa cujo proprietário, um certo Ladislav Basternak, também é suspeito de ter fraudado o fisco, sem que as autoridades entrassem na Justiça.

Mais um problema: Robert Fico mora em uma cobertura de luxo por um preço especial, com vista para Bratislava e de propriedade desse mesmo empresário, Ladislav Basternak. A residência foi pomposamente batizada de "Bonaparte", pois era de lá que o imperador francês contemplava suas conquistas.

"Ladislav Basternak comprou sete apartamentos, supostamente por 12 milhões de euros, antes de revendê-los por um décimo do preço e receber um reembolso de 2 milhões de euros de impostos pelas autoridades fiscais", afirma Peter Kunder, da ONG Aliancia Fair-Play, que está investigando esses casos e suspeita que Kalinak tenha encoberto as fraudes fiscais. Atualmente há uma instrução sendo conduzida e buscas sendo feitas visando Ladislav Basternak.

O ministro admitiu ser acionista da empresa de Basternak, mas não vê problemas, pois ela não dependeria de nenhum contrato público, argumento também usado por Robert Fico, que não vê a necessidade de se mudar.

A "Trend" foi acusada de difamação e o assistente parlamentar do deputado, que era funcionário de banco antes pedir demissão após as eleições, agora é alvo de uma queixa por violação do sigilo bancário.

"Eles cometeram um erro e tanto ao atacarem meu assistente parlamentar!", exclamou Jozef Rajtar, uma figura de peso do principal partido da oposição, o SaS (Liberdade e Solidariedade), que entrou com uma moção de desconfiança sem sucesso. "O resultado é contraproducente, pois as pessoas estão indignadas e querem que agora continuemos nossas intervenções."

A ministra da Justiça, Lucia Zitnanska, do partido da minoria húngara Most Hid, prometeu combater a corrupção. Mas ainda que essa personalidade de reputação íntegra sonhasse com isso, ela não conseguiria derrubar seu colega de governo.

"Temos uma Justiça muito livre, inspirada na dos Estados Unido,s após a independência", explica Jozef Rajtar. "O único probleminha é que nosso Ministério Público manteve cérebros comunistas. Eles atendem a quem dá mais. O procurador-geral, eleito pelo Parlamento, é próximo de Fico."

Isso faz com que a oposição e as ONGs digam que o primeiro-ministro deveria poder presidir a União Europeia sem temer o indiciamento de um de seus mais próximos membros do governo.

Extrema-direita da Eslováquia também quer referendo

  •  

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos