No Peru, até o perdão de Fujimori entra em discussão por apoio no Congresso

Paulo A. Paranagua

  • Martin Mejia/AP

Pedro Pablo Kuczynski deverá entrar em um acordo com os fujimoristas

Pela primeira vez no Peru, as duas metades da opinião pública querem parar de se enfrentar para tentar encontrar um acordo. De um lado, herdeiros e partidários do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000) dispõem de uma esmagadora maioria no Congresso. Do outro, Pedro Pablo Kuczynski, que assumiu seu cargo de presidente do Peru na quinta-feira (28). Aquele que os peruanos apelidaram de "PPK" derrotou a candidata populista de direita Keiko Fujimori, filha do ex-chefe do Estado, com uma margem estreita (42 mil votos de diferença). Esta última conta com 73 parlamentares no Congresso, contra 20 da Frente Amplio (esquerda) e somente 18 da lista PPK (Peruanos pela Mudança).

Após uma campanha extremamente polarizada, será possível uma coabitação? A queda de braço entre o Executivo e o Legislativo começou antes da posse do novo presidente. Alberto Fujimori, que cumpre uma pena de 25 anos de prisão por violações dos direitos humanos e corrupção, apresentou um pedido de perdão presidencial.

O parlamentar fujimorista Julio Gago declarou que o anúncio de um perdão seria uma prova de reconciliação política. Alguns interpretaram sua declaração como a condição para ter a benevolência da maioria parlamentar em relação ao governo. No entanto, a nova presidente do Congresso, Luz Salgado, figura da velha guarda de Fujimori, afirmou que não haveria "obstruções".

Crescimento de 3,9%

Pessoas próximas de Fujimori mencionam sua idade avançada (77 anos) e sua saúde frágil para pedir uma medida de indulto ou pelo menos sua prisão domiciliar. Kuczynski, que tem a mesma idade, 77 anos, considera "altamente improvável" um perdão presidencial. Ele encaminhou o caso para o Congresso, que poderá votar uma lei que autorize "as pessoas de uma certa idade a não terminarem seus dias na prisão, mas para que cumpram sua pena em um lugar mais ameno, em casa."

A possibilidade de uma libertação foi rejeitada por Marco Arana, porta-voz do grupo parlamentar de esquerda. "Se Alberto Fujimori fosse perdoado, o líder do grupo terrorista Sendero Luminoso, Abimael Guzman, de 81 anos, teria o direito de solicitar o mesmo perdão", ressaltou. A opinião pública não está preparada para esquecer os anos de chumbo e o terrorismo (1980-2000), que terminaram em 70 mil mortes. O destino dos dois inimigos da "guerra suja", o ditador e o maoista iluminado, parece atado.

"O perdão ou mesmo a prisão domiciliar complicariam a relação entre Keiko Fujimori e o governo", observa Mirko Lauer, cronista político do jornal de esquerda "La Republica". Mas a libertação de Fujimori desestabilizaria também a presidência Kuczynksi. "O caso atrapalha os dois lados. A filha de Fujimori, Keiko, que quase conquistou a vitória no segundo turno, tem interesse em se mostrar respeitosa em relação às instituições para preservar suas chances na próxima eleição presidencial, mas sua liderança é contestada pela velha guarda, que se esconde atrás de seu irmão mais novo Kenji Fujimori, o parlamentar eleito com o maior número de votos.

A questão da boa governança importuna a presidência de "PPK", que não tem garantias de que conseguirá colocar sua política em prática. Ex-ministro da Economia e ex-premiê, Kuczynski pode contar com um crescimento de 3,9%, invejável em uma América do Sul comprometida com a recessão do Brasil, da Argentina e da Venezuela. Para comandar seu governo, o presidente escolheu Fernando Zavala, 45, CEO do grupo Backus, fiial da cervejaria britânica SABMiller.

À frente dos 19 ministérios, cinco deles ocupados por mulheres, predominam os tecnocratas. O analista Alfredo Thorne assume a pasta da Economia. "Quase todos eles possuem ampla experiência em questões públicas", jura Kuczynski, que parece confiar bastante em sua sorte. Gustavo Gorriti, estrela do jornalismo investigativo, se "surpreendeu" de encontrá-lo tão "descontraído" antes da posse. "Kuczynski está ciente de que a boa governança exige que se mantenha a iniciativa", ele escreveu na publicação semanal "Caretas".

Para sua primeira viagem ao exterior, o novo presidente decidiu ir até a China, no dia 13 de setembro, para ressaltar a preeminência das relações comerciais com o gigante asiático, mas também para mostrar sua independência em relação aos Estados Unidos, onde se deu boa parte de sua vida de empresário.

"Revolução social"

Lima receberá Barack Obama em novembro, durante o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), uma das últimas viagens oficiais do presidente americano. "PPK" prometeu uma "revolução social": água potável e saneamento básico para todos, redução da pobreza rural e do trabalho informal nas cidades. A população espera para ver o que ele fará a respeito de uma questão delicada: o aumento da criminalidade, impulsionada pelo tráfico de cocaína, da qual o Peru se tornou o maior produtor do mundo.

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos