Presos na Turquia, refugiados afegãos continuam em busca do sonho europeu

Ghazal Golshiri

  • Georgi Licovski/EFE

Todas as tardes, o jovem Ahmet vai até o parque Sahil, que corre junto ao mar de Marmara e situado perto do aeroporto de Atatürk de Istambul. Ele enfia dois galhos de árvore entre as pedras e amarra um fio entre eles. Em seguida, pendura ali balões de cores vivas e convida os passantes a virem atirar de espingarda contra os balões ou garrafas colocadas sobre as pedras.

"Nós vimos passear aqui para tentar esquecer, ainda que por um breve momento, nossas dificuldades", diz Abdolmanan Rahmani, um afegão de 20 anos que deixou sua cidade natal de Mazar-e-Charif com o intuito de ir para a Alemanha. "Ouvi dizer que a Alemanha aceitava muitos imigrantes e que era fácil encontrar trabalho lá."

Desde que entrou em vigor, em abril, um acordo entre a União Europeia (UE) e Ancara para controlar o fluxo de imigrantes, o sonho de Abdolmanan Rahmani de ir para a Alemanha foi pelos ares: todos os imigrantes que chegaram após o dia 20 de março às ilhas gregas do Mar Egeu e cujo pedido de asilo foi rejeitado foram enviados de volta para a Turquia.

Obrigado a parar no Irã durante sete meses e trabalhar em obras para financiar sua viagem, Abdolmanan Rahmani chegou a Istambul após a fatídica data. No Irã, as condições de vida são muito difíceis porque, entre outros motivos, "os afegãos não podem circular livremente", explica seu amigo Habib Rahman, que trabalhou ali junto com ele. "Para cada deslocamento de uma cidade para outra, é necessário ter uma autorização."

Para chegar até a Turquia, Abdolmanan Rahmani teve de caminhar durante doze dias no Irã. No caminho, ele ouviu falar em vários afegãos que morreram na estrada e foram enterrados de qualquer jeito. Na Turquia, os dois homens continuam a trabalhar nos canteiros de obras, por sua conta e risco. "Alguns de meus empregadores em Istambul se recusaram a me pagar. Perdi três meses de salário, ou seja, US$ 600 (R$ 1.950)", lamenta Habib Rahman, também originário de Mazar-e-Charif.

Eles deixaram o Afeganistão porque "a segurança vem piorando a cada dia desde a saída da maioria das tropas estrangeiras", explica Abdolmanan Rahmani.

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Pagar os coiotes

Tão distantes de suas famílias quanto de seu destino final, esses afegãos de Istambul só pensam em uma coisa: economizar o suficiente para conseguir pagar os coiotes e por fim chegar à Europa. É um objetivo que parece cada vez mais fora de alcance, considerando o aumento das tarifas dos coiotes desde o acordo entre a UE e a Turquia. Se algumas centenas de euros bastavam antes de 20 de março, hoje são necessários milhares.

A rota escolhida pelos coiotes varia em função do valor pago. "Eu cobro US$ 1.800 para fazer a travessia pelo mar até Tessalônica, na Grécia, já esta noite", se vangloria Besmellah, um jovem afegão que virou "coiote há dois anos em Istambul". "Se você quiser pagar menos, eu coloco você para dentro a pé através da Bulgária. E depende, tem um caminho que dura 40 minutos a pé, e um outro onde é preciso caminhar seis horas. O terceiro leva 17 horas."

Em seu celular, Besmellah mostra as fotos de seus ex-clientes, afegãos e iranianos, "felizes e todos sãos e salvos na Europa". "Desde o verão de 2015, fiz a passagem de 3.500 a 4 mil imigrantes", ele diz.

Os afegãos se veem como "os esquecidos" do acordo entre UE e Ancara, que também prevê que, para cada sírio enviado das ilhas gregas de volta para a Turquia, um outro deve ser reinstalado a partir da Turquia em solo europeu. Os sírios, não os afegãos.

"Esse acordo é uma medida puramente política", se revolta Rohullah Hamdard, um afegão de 27 anos. "Os dirigentes europeus querem mostrar a seus cidadãos que o dinheiro que eles gastaram para reconstruir o Afeganistão foi bem utilizado. Mas a situação na Síria não é pior que a nossa. Meu país está em guerra há 40 anos, sendo que a Síria está somente há cinco".

Rohullah Hamdard diz ter vivido na Suécia durante nove anos, onde se converteu ao cristianismo, antes de receber uma resposta negativa ao seu pedido de asilo e de ser enviado de volta para o Afeganistão, no final de 2014. Alguns meses depois, ele voltou a tentar sair do país e se viu "preso" em Istambul. Por três vezes ele tentou entrar na Europa através da fronteira búlgara.

Todas as vezes ele foi detido e barrado pela polícia búlgara, e cada fracasso lhe custou centenas de dólares. "Da primeira vez, deixei US$ 2.800 em uma agência de câmbio que trabalha com os coiotes. Eles só deveriam receber toda a soma quando eu chegasse à Suécia. Só que a cada tentativa eles levaram entre US$ 350 e US$ 600."

"Esperando a morte"

Hoje, Rohullah Hamdard não tem mais dinheiro suficiente para pagar a viagem. "Se a rota da Grécia se abrir, vou tentar de novo", ele sonha em voz alta, embaixo da tenda improvisada—um pano pregado nos arbustos do parque Sahil e nos arames farpados que protegem a estrada que o margeia—que ele ocupa junto com outros imigrantes afegãos. De tempos em tempos, "curdos" aparecem para roubar seus celulares, dinheiro ou relógios. "A polícia não faz nada por nós porque somos ilegais", explica Oveys, um afegão.

Alguns metros adiante, uma ponte serve de refúgio para uma dezena de seus compatriotas. Nos colchões amontoados, eles descansam enquanto outros se drogam. "Esperando a morte", é possível ler em dari, o persa falado no Afeganistão, em uma das colunas da ponte.

Tradutor: UOL

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