Sem Estado Islâmico, cidade iraquiana agora é palco de guerra entre curdos e xiitas

Allan Kaval

  • Ako Rasheed/Reuters

    20.jan.2014 - Local onde um ataque com carro-bomba matou duas pessoas e deixou outras dez feridas em Tuz Khurmatu, disputada por curdos e turcomenos xiitas

    20.jan.2014 - Local onde um ataque com carro-bomba matou duas pessoas e deixou outras dez feridas em Tuz Khurmatu, disputada por curdos e turcomenos xiitas

Desde a saída do EI, curdos e xiitas se enfrentam pelo controle de Tuz Khurmatu, cidade do norte do Iraque

Ali Ahmet tem 19 anos. Ele tinha 6 em 2003, quando o regime de Saddam Hussein foi derrubado, e de sua cidade ele só conheceu atentados a bomba, sequestros, assassinatos e cadáveres em terrenos baldios. Tuz Khurmatu está em guerra consigo mesma há 13 anos.

Passada a ditadura, sobreveio o caos enquanto Ali aprendia a ler e a escrever. Os confrontos entre curdos, turcomenos xiitas e árabes sunitas através de milícias, grupos armados e máfias locais acompanharam sua infância e depois sua adolescência, nessa cidade situada na fronteira com o Curdistão iraquiano.

Altos muros anti-explosões surgiram em torno de prédios oficiais, transformados em fortalezas. Grades de metal passaram a ser colocadas nas ruas dos bairros residenciais. Ali crescia enquanto o ódio se instalava.

Em 2014, ele viu a organização Estado Islâmico chegar às portas de sua cidade, com o Estado iraquiano se volatizando e as milícias xiitas vindo em reforço. Os habitantes sunitas começaram então a desaparecer, sendo assassinados, sequestrados, intimidados e forçados ao exílio pelos milicianos.

"Os árabes sunitas eram todos terroristas", justifica Ali. Assim como a maioria dos habitantes, ele é turcomeno e xiita. Ainda que o EI tenha atacado novamente a cidade com um atentado suicida em junho, para ele o inimigo são os curdos.

Minoritários na cidade, eles são dominantes do ponto de vista político desde 2003. Desde que seus milicianos se enraizaram, os xiitas passaram a se sentir mais fortes e não quiseram mais aceitar essa situação. Em abril, combates de rua entre turcomenos e curdos já haviam causado a morte de dezenas de pessoas e o incêndio de casas e de lojas. Um acordo precário por fim foi fechado entre os grupos rivais através de figuras de fora da cidade.

"Quando eu estava na escola, eu tinha amigos curdos. Agora não tenho mais!", exclama Ali com um sorriso fanfarrão. Depois de ter trabalhado um tempo na construção civil, ele se tornou miliciano. Ele tem uma kalashnikov em sua casa, usa óculos de sol com armação dourada e anda com uma pequena moto de fabricação asiática.

Ele entrou para a guerra permanente de seus ancestrais. Ali lutou pela primeira vez em abril contra os curdos e diz continuar disposto a matar "para defender sua terra e seu povo."

Nas ruas do antigo souq (mercado), ele explica por que as portas de aço de certas lojas continuam abaixadas: "Os comerciantes curdos foram expulsos, eles sabem que não devem voltar." Um canal de esgoto empesteia o ar. "O acordo político não vale nada, vão continuar brigando por qualquer probleminha. Espero que os curdos vão todos embora. Tuz é nossa."

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Altos muros de concreto

Desde que o perigo representado pelo EI se afastou de seus subúrbios, Tuz Khurmatu passou a ser vista por seus habitantes como o laboratório da guerra pós-EI. Aliadas por um tempo contra os jihadistas, forças curdas e milícias xiitas estão ali em pé de guerra, pressionadas por comunidades decididas a não mais viverem juntas.

"O acordo que fechamos com os curdos em Tuz para acabar com o conflito só poderá ser temporário", avisa Abou Ayyoub, que comanda as brigadas xiitas Badr em todo o norte do Iraque. Essa milícia é dominante em Tuz Khurmatu, onde ela divide a "proteção" da comunidade xiita com vários outros grupos armados. "No Iraque, tentamos continuar trabalhando com os curdos, mas isso nos coloca em uma posição muito difícil. Os turcomenos (xiitas) de Tuz querem que os defendamos."

Entre os curdos a constatação é parecida. "As pessoas nos pressionam a sermos mais firmes com os xiitas. Controlamos todas as entradas da cidade e de seus bairros. Não seria difícil expulsar as milícias. Mas politicamente não podemos nos permitir a isso", explica o mulá Karim, chefe do braço local da União Patriótica do Curdistão (UPC) em sua sala de recepção, com dois fuzis de assalto e uma metralhadora ao alcance da mão. O Estado iraquiano não está mais presente em Tuz Khurmatu.

Mais que o prefeito, o mulá Karim é o verdadeiro líder da cidade. Seu partido, que dispõe de suas próprias forças armadas e de segurança, a domina de fato desde 2003. Seu quartel-general se situa em pleno centro da cidade, cercado por altos muros de concreto encimados por arame farpado, e guardado por torres de vigias. Ele está protegido de uma violência na qual a vida dos civis comuns vai se afundando cada vez mais.

Mumtaz Ahmet Choma, de 50 e poucos anos, é um deles. Durante os confrontos de abril, sua mulher foi morta com um tiro na cabeça. Ele, que é xiita, acusa um atirador curdo emboscado de tê-la alvejado deliberadamente. Rodeado por seus três filhos na penumbra de sua modesta casa do bazar turcomeno, ele não tem palavras duras o suficiente para seus antigos vizinhos curdos: "Temos um único inimigo, para nós o Daesh (acrônimo árabe do EI) e os peshmergas (curdos) são a mesma coisa".

Tais declarações voltam com frequência e as milícias xiitas se apropriam delas para fazer recrutamentos. Um parente que apareceu para visitar mostra um chaveiro decorado com a efigie do aiatolá Sistani, a mais alta autoridade do clero xiita iraquiano, e do Líder supremo iraniano, Ali Khamenei: "Só esses dois podem vir nos ajudar!", ele exclama. Em Tuz Khurmatu, os combates de rua ecoam as relações de forças regionais.

Em um outro bairro da cidade, de maioria curda e agora desertado pelas poucas famílias xiitas que viviam ali, um outro pai de família se deixa levar pela violência. Tio Chachan, como é chamado, é um ex-peshmerga e combateu o regime de Saddam Hussein dentro da rebelião curda. Para ele, Tuz Khurmatu é o Curdistão. "Nós demos mártires para essa terra. Ela nos pertence", ele afirma.

"Cada família está armada"

Minoritários na cidade, os curdos começaram a tomar o caminho do exílio depois dos combates de abril. Junto com outras figuras proeminentes do bairro, ele voltou a pegar em armas e criou sua própria milícia. "Cada família em Tuz Khurmatu está armada, precisamos fazer nossa própria defesa", ele explica. Ele não acredita na paz com os xiitas.

Os mais jovens concordam com ele. "Serão eles ou nós!", exclama Haroun, de 25 anos. "Só podemos depender de nós mesmos. Já gastei US$ 500 em munição nesta guerra", ele conta, enquanto Kassim exibe um fuzil de assalto novinho em folha. De fabricação alemã, ele provém das armas doadas recentemente às autoridades curdas pela Alemanha para combater os jihadistas do EI.

Enquanto esperam um surto de violência para breve, os moradores da cidade se entrincheiram, se armam e fogem. Tuz Khurmatu não tem mais bairros mistos. Atualmente curdos e xiitas têm cada um seus próprios mercados, seus próprios hospitais. Duas cidades paralelas se esboçam, com suas memórias inconciliáveis, delimitadas pelos retratos dos mártires.

Por toda parte tremulam bandeiras negras. As que reverenciam Hussein, o primeiro imã do xiismo, massacrado por seus inimigos. E as que marcam o luto de milhares de curdos vítimas da "campanha Anfal", que consistiu de massacres orquestrados por Saddam Hussein nos anos 1980. Em Tuz Khurmatu, curdos e xiitas agora só têm a morte em comum.

Tradutor: UOL

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