Meses após terremoto no Japão, cenário de destruição permanece inalterado

Philippe Mesmer

  • Jiji Press/STR/Japan OUT/AFP

Quatro meses depois de uma série de tremores de terra, essa região do Japão encontra dificuldades para se reconstruir

O governo japonês prometeu. Uma parte dos fundos do novo plano de apoio à economia, dotado de 20 trilhões de ienes (R$ 625 bilhões), deverá ir para a reconstrução de zonas destruídas de Kumamoto. Nos dias 14 e 16 de abril, essa região do sudoeste do arquipélago sofreu terremotos de 6,5 e 7,3 de magnitude, causando a morte de 64 pessoas e danificando milhares de prédios. Depois vieram as fortes chuvas de junho e julho, com sua trilha de deslizamentos de terra às vezes fatais.

As consequências dos tremores de terra e de suas inúmeras réplicas ainda são evidentes. No final de julho, 3.881 vítimas ainda estavam em abrigos, aguardando uma das 5.000 moradias provisórias em construção. Os habitantes que ainda podem ficar em suas casas estão preocupados. "Me pergunto o que acontecerá quando vierem os tufões, que são frequentes aqui", observa Mina Hirose, que vive em Mashiki, uma das cidades mais afetadas.

A situação continua precária para uma população que não imaginava uma atividade sísmica como essa em sua região. "Nós registramos quase 2.000 réplicas desde o dia 14 de abril", se espanta Satoshi Minami, do departamento de manutenção da cidade de Kumamoto. Até mesmo a agência de meteorologia, encarregada do acompanhamento dos terremotos, se disse surpresa. O último terremoto potente observado ali foi em 28 de julho de 1889, com 6,3 pontos de magnitude, que resultou em 20 mortes.

Isso explicaria o verdadeiro despreparo demonstrado, que contrasta com a imagem de um Japão onde as informações sobre as medidas a serem tomadas em caso de catástrofe foram significativamente reforçadas após o terremoto e o tsunami de março de 2011. "Não tínhamos ideia de onde ir", lembra Shigemi Matsue, que passou vários dias em seu carro junto com sua filha de 10 anos e seus pais. "Era uma total confusão. A prefeitura disse para irmos para os abrigos, mas não sabíamos onde eles ficavam e estava tudo destruído."

Ainda hoje as sequelas são grandes. "Minha filha sempre sente medo à noite", conta Matsue. "Assim que ouve um alerta de terremoto nos telefones, ela corre para fora."

As autoridades de Kumamoto chamam atenção para um trauma que persiste entre as crianças de famílias que habitam em grandes prédios, por causa do encadeamento de réplicas. Os médicos também observam um número elevado de casos de síndrome de vertigem pós-terremoto, que se manifesta na falsa sensação de que um terremoto está acontecendo. Segundo um estudo da Universidade de Kunamoto, cerca de metade dos habitantes de zonas afetadas passaria por isso em diferentes graus.

A melhora da situação acabou sendo adiada pelas chuvas torrenciais que caíram na região. Nos dias 20 e 21 de junho, 500 mm de precipitações provocaram deslizamentos de terra, que resultaram em quatro mortes.

A reconstrução foi atrasada por causa disso. Uma parte da linha ferroviária de Minamiaso voltou a funcionar no dia 31 de julho, mas "ainda estamos removendo os destroços", relata Masahiro Kawaguchi, diretor do órgão da cidade de Kunamoto encarregado das obras públicas. "A limpeza deverá terminar no início de setembro". Ao mesmo tempo, os especialistas continuam a avaliar os estragos. "Os tremores modificaram muito o relevo", diz Kawaguchi. "É preciso rever tudo antes de considerar a reconstrução."

"Força, Kumamoto"

De fato, nas cidades mais afetadas de Mashiki e de Minamiaso, o cenário ainda é de casas destruídas e estradas danificadas. Às vezes se encontram mensagens de incentivo nos muros, como "Até um passo é um avanço" em Mashiki, ou várias variações de "Força, Kumamoto".

Reconstrução também equivale a recuperação econômica. Os prejuízos sofridos pelas redes de transporte têm atrapalhado o comércio. "A rodovia 57 está intransitável", explica Minami, em razão dos danos infringidos aos túneis e ao colapso da ponte de Aso. Só que essa via é a artéria principal que atravessa de leste a oeste a grande ilha de Kyushu, ligando Kumamoto ao departamento vizinho de Oita. "É toda a economia de Kyushu que é afetada", lamenta Noburu Sonoda, da prefeitura de Kumamoto.

Por causa do desastre, a Sony espera uma queda de 115 bilhões de ienes (pouco mais de R$ 3,5 bilhões) em seus lucros operacionais para o semestre entre abril e setembro. "Os terremotos deverão custar um ponto no aumento dos lucros das empresas", acredita Masaki Motomura, da Nomura Securities.

O setor turístico, cuja atividade despencou 40%, também foi afetado. Alguns locais permanecerão inacessíveis por muito tempo. É o caso do imponente castelo de Kumamoto, construído em 1607. "Em 2015, 1,75 milhão de pessoas o visitaram", observa Hideo Kawata, encarregado da gestão do castelo na secretaria de turismo de Kumamoto. "Foi um recorde. Hoje, 30% do local está danificado". Para fazer os reparos, será preciso encontrar artesãos especializados. Só que eles são cada vez mais raros no arquipélago. "Acho que não verei o fim das obras em vida", lamenta Kawata.
 

Tradutor: UOL

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