Artistas plásticos cubanos caem no gosto dos americanos

Isabelle Piquer

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    Público observa obra na Galeria Habana, em Havana (Cuba)

    Público observa obra na Galeria Habana, em Havana (Cuba)

Pintores e artistas plásticos comemoram a abertura recente de seu país, mas temem que o novo mercado influencie sua arte

Desde que se reconciliou com os Estados Unidos em dezembro de 2014, Cuba está na moda, uma empolgação recebida ao mesmo tempo com entusiasmo e preocupação nos meios artísticos da ilha. A reaproximação entre Havana e Washington não pode fazer com que ela perca sua identidade? A chegada de novos mecenas não poderia ampliar a criação de espaços de reivindicação? Ou, pelo contrário, levar a uma comercialização excessiva?

A promessa de abertura econômica já mudou a paisagem da capital. Sonhando com novos compradores, jovens criadores estão abrindo seus ateliês, cidadãos comuns organizam exposições em suas casas, contornando o controle do Estado que, por ora, está deixando passar.

Os artistas mais consolidados, que só interessavam a colecionadores bem informados, estão vendo chegar a seus estúdios turistas ávidos por suvenires culturais.

Um grande número de espaços de exposição privados surgiram em Havana, a ponto de não se saber mais "se o artista realmente o está convidando para compartilhar sua obra e seu local de trabalho, se é uma encenação, entre um showroom e uma galeria, ou se esse espaço só existe durante o tempo de uma bienal, de uma venda ou de uma temporada turística", lamenta Cristina Vives, uma das pioneiras da arte independente em Cuba.

Status especial

"O interesse pelos artistas cubanos é tanto que certos colecionadores estão preferindo comprar agora pois estão contando com um aumento nos preços", afirma Luis Miret, diretor da Galeria Habana e decano dos galeristas cubanos. Não é algo novo.

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A artista cubana Sandra Ceballos, cofundadora de El Espacio Aglutinador

"Os colecionadores vêm aqui há muito tempo, através dos museus e das galerias, principalmente de Nova York", explica Lianna Rodríguez, que gerencia o El Apartamento, um desses novos espaços de exposição.

"Na arte, nunca houve uma real ruptura entre Cuba e Estados Unidos", ressalta Cristina Vives.

Os artistas cubanos gozam de um status especial desde o início dos anos 1990. O Estado os autoriza a venderem suas obras de forma particular e receberem em moeda estrangeira, um privilégio excepcional. Quanto aos colecionadores vindos dos Estados Unidos, o departamento do Tesouro permite que eles comprem arte em Cuba desde 1991.

As estrelas de hoje se chamam Yoan Capote, Juan Roberto Diago, Kcho, Esterio Segura, o coletivo Los Carpinteros e Alexandre Arrechea, além de novos nomes que estão surgindo. Sean Kelly, conhecido galerista de Nova York, "ficou encantado com Diana Fonseca" e lhe dedicou uma exposição em janeiro, conta Luis Miret.

"Os colecionadores agora estão comprando diretamente dos estudantes, o que não ajuda em nada para incentivar o risco e a experimentação", acredita Sandra Ceballos. Essa artista-curadora foi cofundadora, em 1994, de um dos primeiros espaços de arte independente da ilha, o El Espacio Aglutinador.

A artista plástica cubana ressalta que a abertura dos últimos anos "é antes de tudo comercial, não é nem artística, nem política". Já Cristina Vives teme o surgimento de uma arte "redesenhada sob medida para o mercado" e que as obras se tornem "suvenires de viagem."

Isso porque a arte cubana que está na moda é a arte que se faz em Cuba. "É importante não abrir mão de suas raízes", acredita Luis Miret. A nova geração de artistas plásticos tem menos razões para se exilar, como fizeram inúmeros artistas no início dos anos 1990, durante o período de escassez que se seguiu ao colapso do bloco soviético, pois desde 2013 os cubanos podem sair do país sem autorização.

Greg Salibian/Folhapress
O artista cubano Alexandre Arrechea, em exposição em São Paulo

"Não tenho interesse nenhum em ir me instalar no exterior. Tem coisa demais para fazer aqui", explica Roberto Fabelo Hung, 24, membro do Stainless, um coletivo que ele formou junto com dois outros artistas plásticos. Trabalhar em Cuba nem sempre é fácil. Tintas, telas, argila ou madeira são artigos raros, resina ou fibra de vidro são quase inexistentes.

"Nós trazemos o que conseguimos de Miami nas nossas malas", conta o jovem artista.

Depois de Nova York, Miami?

Quanto à convivência com o governo, ela nem sempre se dá sem percalços. Uma performance com microfone aberto na Praça da Revolução, em Havana, em dezembro de 2014, rendeu à videasta e performer Tania Bruguera três dias de prisão e o confisco de seu passaporte.

Se Nova York foi a cidade mais receptiva para a arte cubana, agora é Miami que poderá tomar seu lugar. Refúgio de anticastristas, ela por muito tempo considerou os artistas que permaneceram na ilha com desconfiança. Hoje não é tanto o caso.

"Temos cada vez mais clientes vindos da Flórida", observa Sandra Borges, que administra o estúdio The Merger, um coletivo de artistas plásticos que vende suas obras nos Estados Unidos. A nova geração de cubanos-americanos "não tem os preconceitos de seus pais em relação a seu país de origem", ela ressalta.

A feira de arte contemporânea Art Basel em Miami e o Museu Pérez, nome de um magnata do setor imobiliário de origem cubana, se tornaram as novas vitrines da arte cubana. Em abril, com o apoio do Museu Pérez, jornadas de "diálogos sobre a arte cubana" reuniram artistas, galeristas e organizadores de exposições de Miami e Havana.

"Encontrei amigos que haviam fugido da ilha", conta Sandra Ceballos. "E apesar de nossas diferenças, retomamos contato com facilidade."

A artista plástica cubana ressalta que esse encontro "deverá marcar o início de uma nova etapa" entre as duas cidades e, talvez, entre os dois países.

Tradutor: UOL

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