Com medo de atentados, turistas correm para o sul da Europa

Sandrine Morel

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    Ilhas gregas atraem turistas que ficam receosos de viajar a países como Turquia e França

    Ilhas gregas atraem turistas que ficam receosos de viajar a países como Turquia e França

Espanha, Grécia e Portugal estão lucrando com o cancelamento de viagens para o Magrebe e a Turquia. O aumento no número de turistas estimula o crescimento nesses países duramente afetados por anos de crise

Bruce Payne está vindo direto da Austrália para amarrar seu veleiro no porto de Egina, uma ilha situada a uma hora e meia de Atenas. Ele decidiu velejar, durante três semanas, no golfo Sarônico: "Pelo segundo ano consecutivo, escolhi a Grécia por suas águas fantásticas, mas também porque é um destino acessível. Apesar do aumento do imposto sobre certos produtos no último ano, as tarifas das marinas ali são baixas, em comparação com outros países europeus como a França e a Itália."

Neste verão Payne queria ir descobrir as costas turcas, mas ele confessa ter desistido: "A situação política na Turquia me dissuadiu. Aqui, na Grécia, me sinto mais seguro com minha família".

David Lemire, um canadense de Québec que passou três semanas na Grécia entre as Cíclades, a região da Tessalônica e Atenas, explica que ali se sente "menos ameaçado pelos ataques terroristas do que na França ou no Magrebe".

Com a instabilidade política, as ameaças terroristas e os problemas de segurança que têm atingido antigos destinos turísticos que compõem o circuito mediterrâneo, como a Turquia, o Egito e a Tunísia, não somente a Grécia, como também a Espanha e Portugal, estão lucrando com a situação.

Desde 2012, esses três países do sul da Europa têm contado com o setor turístico como motor da recuperação do crescimento e da criação de empregos, oferecendo-lhes um alívio após anos de crise econômica.

Apesar das restrições bancárias impostas no verão de 2015 e dos aumentos no imposto sobre o consumo exigidos pelos credores (no setor de hotelaria, ele passou de 6,5% para 13%), o número de visitantes estrangeiros na Grécia deverá ultrapassar os 25 milhões em 2016, segundo a Confederação Grega de Turismo (Sete), batendo um recorde, com quase 1,5 milhão de visitantes a mais do que em 2015 e 20% a mais em receitas (o equivalente a R$ 2,8 bilhões).

Foi um bônus ainda mais essencial pelo fato de que o setor representa 24% do PIB e emprega uma de cada cinco pessoas no país.

"Margem de progressão possível"

Ainda que menos dependente do turismo, que representa 6,5% do PIB e 8,2% dos empregos, Portugal está satisfeito com o estado de saúde desse setor. As ruelas de Lisboa e do Porto, as praias de falésias brancas de Algarve e outras joias turísticas como Madeira atraíram 10,2 milhões de turistas estrangeiros em 2015, ou seja, 9,7% a mais que em 2014, sendo quase 2 milhões de franceses.

E as receitas registradas pelo setor subiram para 11,3 bilhões de euros, o suficiente para dar um respiro para o governo, que saiu com dificuldades do plano de auxílio de Bruxelas e ainda se encontra minado por um deficit público excessivo (4,4% em 2015). Com um aumento de 12% das reservas em junho, segundo o indicador SNAV-Atout France, Portugal também promete bater novos recordes no número de visitas em 2016.

Para Jean-Pierre Pinheiro, diretor do Serviço de Turismo de Portugal na França, não há nenhuma dúvida de que ainda existe "uma bela margem de progressão possível em certos segmentos do mercado", como as viagens em família, o turismo esportivo, a descoberta das regiões vitícolas e de seus vinhos, os banhos termais e outras formas de lazer, ou ainda o turismo de negócios.

Em compensação, não há certeza de que a "margem de progressão" da indústria turística na Espanha seja infinita. Depois de receber 68,1 milhões de turistas estrangeiros em 2015 (+4,9%), o reino deverá ultrapassar com facilidade os 70 milhões este ano: nos seis primeiros meses do ano, ele já registrou 11,7% a mais de visitantes do que em 2015, sendo os principais os turistas britânicos, alemães e franceses, cujo aumento compensa em grande parte a queda do número de russos (-32%).

Certos destinos parecem saturados, como Barcelona, onde as pichações "Tourist Go Home" ("turista, vá para casa") tomam conta dos muros. A prefeita da capital da Catalunha, Ada Colau, próxima do partido da esquerda anti-austeridade Podemos, ainda suspendeu os alvarás de abertura de estabelecimentos hoteleiros desde junho de 2015, e se lançou em uma caça aos apartamentos ilegais para turistas.

Isso despertou a revolta do Partido Popular (PP, direita, no poder em Madri), para quem não se deve encostar na galinha dos ovos de ouro. O turismo, motor do crescimento, é responsável por 11,7% do PIB e 13% dos empregos na Espanha. E o saldo do setor turístico cobre 93,1% do deficit comercial espanhol.

Com seus 7.900 km de costas, as longas praias da Costa del Sol, as enseadas da Costa Brava, as orlas apinhadas de gente da Costa Blanca, um clima quente e ensolarado, infraestrutura de transporte e preços competitivos, a Espanha confirmou seu lugar de segundo maior destino turístico do mundo em termos de receitas (R$ 235 bilhões em 2015, um aumento de 6,8%), atrás somente dos Estados Unidos.

"Os gastos por pessoa estão caindo"

Mesmo assim, os hoteleiros da Espanha, e também da Grécia, temem a expansão de um turismo "low-cost". "Estamos enfrentando um fenômeno estranho, pois o número de turistas está em crescimento constante, mas os gastos por pessoa estão caindo. As pessoas que pretendiam ir para a Turquia e se contentaram com a Grécia haviam previsto um orçamento exato e não querem gastar mais", ressalta Andreas Papadopoulos, proprietário da agência de viagens Odyssey Travel, em Atenas.

O aumento do número de turistas provenientes dos Bálcãs e da Europa Central (Bulgária, Hungria, Polônia), que possuem um poder aquisitivo reduzido, é outra explicação apontada pela Sete. "Mas novos mercados estão se abrindo, com clientes provenientes dos Emirados Árabes Unidos e da Índia, este ano, e temos a esperança de que esses turistas gastem mais", explica Andreas Papadopoulos.

A criação de empregos, que acompanha o desenvolvimento do turismo, também desperta reservas. Em 2015, segundo a pesquisa sobre a população ativa, cerca de 2,3 milhões de pessoas (+5,4% em relação a 2014) trabalham na Espanha nesse setor, que desde o início do ano vem batendo recordes em matéria de contratações.

Mas são empregos precários, lembram os sindicatos, e por trás dos bons números despontam preocupações. Em Portugal, o temor de que a retomada econômica se dê de forma desigual entre as regiões costeiras e o interior; na Espanha, o medo de virar um clube de férias.

Em seu editorial de 4 de agosto, o jornal "El País" alerta que, "assim como em 2007, o crescimento depende do turismo e da construção, justamente as atividades mais vulneráveis aos efeitos de uma possível crise". E faz um apelo para que o crescimento "se baseie em mercados mais inovadores. O grau de bem-estar social, que é preciso começar a medir, não é dado por contratos de um mês nem por micro-salários, ainda que eles melhorem as estatísticas macroeconômicas."

Tradutor: UOL

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