As histórias de uma delatora e uma delatada na ditadura de Pinochet

Florence Aubenas

  • Sergio Barrenechea/EFE

    Carmen Castillo, cineasta chilena que foi delatada por "La Flaca" na época da ditadura de Pinochet

    Carmen Castillo, cineasta chilena que foi delatada por "La Flaca" na época da ditadura de Pinochet

Opositora da ditadura Pinochet, Marcia Merino, a "Flaca", denunciou sob tortura seus companheiros em 1974 e depois entrou para a polícia secreta do regime. Em 1993, Carmen Castillo encontrou sua ex-companheira de luta e a retratou em um documentário

A foto ocupava a primeira página do "La Nación", com uma mulher de meia-idade de cabelos presos por um pente, esboçando um sorriso. Carmen Castillo não conseguia desviar os olhos. Ela reconhecia aquele rosto, apesar das cirurgias plásticas: era o de uma lenda, símbolo da traição.

Após tantos anos se escondendo, "La Flaca" ("a magra") ressurgia. Ela foi uma das três militantes de esquerda no Chile a ter denunciado seus companheiros, um a um, até se tornar durante 18 anos uma colaboradora da Dina, a polícia secreta da ditadura Pinochet (1973-1990). A rede da qual Carmen Castillo fazia parte foi entregue pela "Flaca". Vinte anos depois, em Santiago, ela pediu perdão publicamente.

Na época, Carmen Castillo não ousou procurá-la. Escritora e diretora, ela voltou a Paris onde vivia exilada. Era 1992. "La Flaca" começou a assombrá-la, Carmen via torturadores em todo lugar. Em sua biblioteca, uma prateleira, e depois duas, se cobriam de tudo aquilo que já se escreveu sobre o mal, Primo Levi ou os relatos dos sobreviventes de Kolyma, na Rússia.

Ela se lembrava também de uma outra camarada, sobrevivente de um dos centros de tortura em Santiago, que lhe contava sobre as noites passadas no chão nu, ocupado por 25 ou 30 pessoas talvez, com as mãos atadas, os olhos vendados, em meio ao sangue, à sujeira e ao medo. De repente, uma delas gritou no meio de um pesadelo. Era a "Flaca".

Depois que ela contou tudo sob tortura, os guardas a deixaram no meio dos prisioneiros, enquanto repetia a eles que ela os havia traído, como uma estratégia de desmoralização. Naquela noite, uma mulher se debruçou sobre a "Flaca", que gemia. Ela a consolou segurando-a contra seu próprio corpo machucado. Lumi Videla, 26, professora, era a melhor amiga da "Flaca", foi entregue por ela e sabia disso.

Os outros prisioneiros souberam que Lumi havia morrido algumas semanas depois, vendo os militares apostando suas roupas no jogo de dados. Carmen sabia que se lembraria para sempre da visão dessas duas mulheres, abraçadas uma à outra. "Ela transformou minha visão das coisas. A resistência havia condenado a 'Flaca' à morte, mas Lumi a perdoou."

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"Farei tudo que você quiser"

É claro, Carmen e a "Flaca" se conheciam. As duas militavam no Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), ambas com 25 anos, quando Salvador Allende foi derrubado por Augusto Pinochet em 1973. Alta e magra, Marcia Merino—codinome "la Flaca Alejandra"  ("A magra Alexandra")—era uma das únicas mulheres na direção central do movimento, com perfil de soldado modelo, dogmática, sólida e respeitada.

Ela dizia: "Não admito nenhuma fraqueza nos outros". Ela mesma abdicou de tudo pelo partido, como família, carreira ou amores. "La Flaca" se engajou muito cedo, na universidade de Concepción, onde havia estudado um dos fundadores do MIR, Miguel Enriquez, apelidado de "o Che Guevara chileno".

Na ocasião do assalto ao palácio presidencial, Allende lhe deixou a resistência como legado antes de morrer. Sua última mensagem foi: "Cabe a você continuar a luta". Carmen Castillo era então a companheira de Miguel Enriquez.

E quem teve a ideia, em Paris, de fazer um documentário sobre essa "Flaca", que de repente estava pedindo perdão, vinte anos mais tarde? Guy Girard disse que foi Carmen Castillo. Carmen Castillo disse que foi Guy Girard. Ele também é cineasta, mas de qualquer forma esse não era o problema. Ninguém queria o filme deles.

Nesse ano de 1992, o Chile saiu de moda na França. Sua revolução havia sido embalsamada de uma vez por todas, uma derrota sublime e sangrenta na qual a América do Sul soube se afundar, um dos últimos mitos da pureza na política, ao qual se agarra uma esquerda francesa em pleno esfacelamento. Os personagens problemáticos, como a "Flaca", não têm lugar ali: mesmo a disponibilidade moral de pensar neles não existe.

Carmen acabou entrando em contato com a "Flaca", recebendo a seguinte carta em resposta: "Farei tudo que você quiser, tenho uma dívida com você." Foi Guy Girard que lhe respondeu: "Não estamos aqui para julgá-la. Pense que será um trabalho". A produção acabou arrumando algum dinheiro e o filme foi lançado em 1993.

A "Flaca" já não era mais tão magra. "Uma menina alta, meio menino", lembra o cineasta. Também já não era mais tão jovem, com seus 45 anos. Um dia, durante as filmagens, em um centro de tortura, agora abandonado, um raio de luz imperceptível perfurou a penumbra. "Instintivamente, a 'Flaca' correu para lá. Se houvesse somente um milímetro de oxigênio, ela o teria encontrado também. Uma capacidade de sobrevivência enorme."

Ao assistirem "La Flaca Alejandra", todos fazem a mesma pergunta a Carmen Castillo: "Como conseguiu ficar tão calma na frente dela?" Durante as filmagens, o tom às vezes era tão cordial entre as duas mulheres que Guy Girard teve de afastar Carmen para que a "Flaca" se soltasse.

Depois do golpe militar, a "Flaca" foi presa uma primeira vez, torturada. Uma vez em liberdade, ela pediu ao MIR que a deixasse fugir. "Isso desmobilizaria a base", respondeu o partido. Foi dada a ordem de resistir dentro do país, pois os líderes tinham de dar o exemplo. Até então, o partido era legal.

"Cada um de nós era conhecido, era difícil se esconder", conta Carmen Castillo. "Um manual havia sido distribuído, chamado 'Como sobreviver na clandestinidade'. Conhecíamos 'A batalha de Argel' de Gillo Pontecorvo de cor. Tínhamos certeza de que íamos nos safar." Quando a "Flaca" voltou a ser presa, em agosto de 1974, entregou todo mundo.

Os opositores logo pararam de ser presos em suas casas, pois havia testemunhas demais. Eles "desapareciam". Furgões anônimos os levavam rapidamente, no meio da rua. A bordo de um deles, a "Flaca" se viu sentada entre dois agentes da Dina.

"Quando eu via alguém do MIR na calçada, tinha de dizer quem era. A cada vez eu me sentia mais desprezível, descia ainda mais e era ainda mais fácil para eles", ela conta no filme.

Ela reconheceu Carola de costas, com sua blusa indiana e seus cabelos magníficos. Ela foi aquela que ela nunca entregou, pois tinha contato com a mãe da Flaca e esta tinha pavor da ideia de vê-la ser presa. "Mas quando a vi, não fiz nada para evitar reconhecê-la. Naquele dia foi meu fim, o espelho agora me devolvia um rosto que eu não conhecia."

No dia 5 de outubro de 1974, houve uma festa sangrenta no centro de tortura. Os militares festejavam entre as masmorras e equipamentos de tortura, nesses corredores onde prisioneiros às vezes suplicavam para que os matassem com um tiro na cabeça. Miguel Enriquez, líder do MIR, havia acabado de ser morto na rua Santa Fé. Carmen Castillo, que o acompanhava, ficou gravemente ferida.

Essa vitória foi a de Miguel Krasshnoff, chefe da Dina, que fez questão de conduzir o ataque pessoalmente. Ele não tinha nem 30 anos, e fazia parte da mesma geração que os membros do MIR, filho de um cossaco enforcado na praça Vermelha pelo regime comunista.

No centro de tortura, a "Flaca" chorava a morte de Enriquez, "mas fiquei aliviada de ver Krasnoff voltando vivo. Eu era sua posse, o único em quem eu me segurava. Sua presença me dava uma certa segurança", ela escreveu no livro "Mi verdade" ("Minha verdade"), de 1993.

Às vezes, Krassnoff a recompensava "com algo de humano," como um cigarro ou um café, ou encostava em sua mão. Se algum dia fosse preciso matá-la, prometeram lhe avisar antes. Era um enorme favor naquela situação, onde nada obedecia às regras do mundo externo, nem mesmo seus próprios pensamentos.

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"Ela tinha vergonha"

Após a onda de repressão, a "Flaca" foi contratada oficialmente por um escritório da Dina. Ela recorria a qualquer coisa, desde álcool até remédios, para não se lembrar de nada. "Ela sabia que as famílias de desaparecidos estavam atrás dela. Ela tinha medo, vergonha, e se escondia", diz Carmen Castillo.

Em 1992, o Chile estava começando a voltar para a democracia, e a Comissão de Justiça e Reconciliação começava a coletar depoimentos sobre os desaparecidos e os atentados aos direitos humanos. Lautaro Videla, irmão de Lumi, que a apoiou no cárcere, pediu para reencontrá-la.

"Eu tinha tanto medo, tremia, mas ele falou comigo como se tivéssemos nos separado ontem, sem nenhuma condenação. Ele me disse: 'Fala, Flaca, vai te fazer bem, vai nos ajudar a descobrir a verdade e a punir os verdadeiros responsáveis", ela escreveu.

Após a coletiva de imprensa, onde a "Flaca" por fim pediu perdão, uma jornalista se aproximou dela: era Gladyz Diaz, heroína da resistência chilena. Ela estendeu a mão na direção do rosto da traidora. E o acariciou. "Foi um gesto de amor que continua a perturbar", diz Carmen Castillo no filme. No Festival de Havana, o júri ficou em dúvida se "La Flaca Alejandra" era uma obra de arte ou uma grande farsa, e for fim o premiou como melhor documentário.

Na Universidade de Santiago, em 2014, Andrea Pilar publicou uma tese sobre a "Flaca" e a geração pós-ditadura, que é a sua. "Hoje a 'Flaca' ensina sobre a memória do horror, que visa manter uma população submissa, não através da violência, mas sim através de sua lembrança."

O escritor chileno Bernardo Toro traduziu e escreveu o prefácio de "O Inferno", livro de outra traidora, Luz Arce. "Essas experiências colocam em questão a representação da vítima. Na maior parte do tempo ela sofre o mal, mas não o devolve. Só que quando o mal se traduz em um sistema social, os indivíduos não devem mais escolher entre o bem e o mal, mas sim entre o mal e o mal. Nesses regimes, todos se sentem culpados, até mesmo os heróis."

No Chile, entre 1973 e 1979, foram registrados 2.277 mortos e desaparecidos, 33 mil prisões arbitrárias e casos de torturas.

Por muito tempo Carmen Castillo não se viu como vítima. "Eu vivia com culpa por não ter sido torturada como os outros. Eu era chamada de privilegiada." Em 2002, para um novo filme, ela voltou para a rua Santa Fé, onde Miguel Enriquez foi morto. O vizinho deles continuava o mesmo, um senhorzinho claudicante e desempregado.

Eles não se conheciam na época, mas ele se lembrava bem dela e contou como lutou para levá-la até o hospital bem no meio do tiroteio, tomando o cuidado de entregá-la aos médicos e não aos militares. Carmen Castillo não sabia disso.

O senhorzinho de repente foi como uma revelação. "De repente tudo se inverteu para mim. Enterrei o mal ao encontrá-lo. No fundo, não é a banalidade do mal que é interessante. É a banalidade do bem."

As últimas notícias que se têm de "La Flaca" são de que ela vive na ilha de Páscoa, casada com um pescador, e tem uma loja de suvenires.

Tradutor: UOL

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