Opinião: O calcanhar de Aquiles de Sarkozy é o seu mandato presidencial

Françoise Fressoz

  • Eric Feferberg/AFP Photo

Teria Nicolas Sarkozy mudado? Melhorado? Aprendido com sua derrota? Esse é um questionamento legítimo, pois para quem pretende voltar ao poder depois de desiludir seu povo, a transformação é um exercício tão obrigatório quanto arriscado: trata-se de renascer das cinzas sem perder a autenticidade, sem a qual truques logo são desmascarados.

Até hoje, a transfiguração mais impressionante continua sendo a de Jacques Chirac, que, tendo perdido para François Mitterrand em 1988, conseguiu se eleger presidente da República sete anos depois ao derrotar Lionel Jospin sobre o tema da "fratura social" depois de ultrapassar Edouard Balladur à sua esquerda. Foram-se os tempos em que Bernadette Chirac exclamava, irritada: "Os franceses não gostam do meu marido!"

De todos os candidatos, o ex-líder do RPR soube se mostrar mais próximo dos eleitores às custas de uma verdadeira ruptura. Seu projeto, que inicialmente havia assumido a forma de uma brochura, rompia com as reformas que a direita havia proposto aos eleitores nos anos 1980, intitulado "A França para todos".

Com seu livro "Tout pour la France" (em tradução livre "Tudo pela França", Ed. Plon), publicado no dia 24 de agosto, Nicolas Sarkozy parece continuar seu confronto à distância com Jacques Chirac. O candidato à primária da direita e do centro pode até ter se inspirado na iniciativa epistolar do ex-presidente, mas ele nega ser uma imitação. "Hoje, o contexto do país mudou, são os franceses que devem dar tudo ao país", ele afirma ao "Paris Match", para justificar o título de sua obra que inverte os termos da proposta chiraquiana como em uma emancipação final.

Vencido, mas "vencido por pouco", como ele gosta de ressaltar, o derrotado de 2012 não se sente nada obrigado a se transformar para sair vitorioso. Pelo contrário. Todo o seu projeto se baseia na continuidade e no aprofundamento de seu mandato que, entre 2007 e 2012, passou por duas fases bem distintas.

A primeira, muito breve, foi marcada por uma tentativa de recuperação econômica baseada em um choque fiscal e na reabilitação do valor-trabalho. No pano de fundo estava a abertura à esquerda. Ninguém sabe quais efeitos essa política econômica teria produzido a longo prazo, pois a crise dos subprimes de 2008 tirou tudo dos trilhos. Ela fez a dívida pública disparar e obrigou o ex-presidente a recorrer a imensos e impopulares aumentos de impostos no final de seu mandato.

Apesar dessa afronta, Nicolas Sarkozy continua convicto de que sua receita era a certa. Consequentemente, e contrariando seus adversários que insistem todos no tamanho das economias que devem ser feitas, ele detalha com gulodice as reduções de impostos maciças que ele proporá no início de seu mandato caso seja reeleito: fim do ISF (imposto de solidariedade sobre fortunas), redução dos direitos de sucessão, redução dos encargos sociais, diminuição do imposto de renda, fim dos encargos patronais sobre os empregos domésticos, isenção de imposto sobre as horas extras etc.

Por outro lado, quase não há detalhes sobre os 100 bilhões de economia anunciados para cinco anos para reduzir a dívida. A recuperação à la Sarkozy continuará tendo um forte tom eleitoreiro.

O ex-presidente também pretende se manter fiel à segunda parte de seu mandato, que a partir de 2009 ficou marcado pela afirmação do debate identitário influenciado por seu conselheiro Patrick Buisson. Na época, em meio a dificuldades econômicas e sociais, a ideia era conter o avanço da Frente Nacional ao se apropriar de parte do discurso de Le Pen. Mas isso custou caro: o país ficou sob tensão, e foi o fim da abertura à esquerda, além de um aumento do mal-estar entre a direita, dividida entre "buissonistas" e "humanistas".

Hoje, longe de voltar atrás, Nicolas Sarkozy persevera. Ao pretender "falar a verdade", ele mistura imigração com islã, apresenta várias propostas para conter a onda migratória e defender a "identidade francesa". Assim como Marine Le Pen, ele apresenta essa luta como algo eminentemente republicano e faz dela o tema principal da próxima eleição presidencial.

Brincar com fogo

Essa síntese liberal-identitária pretende reconquistar os diferentes eleitorados que o levaram ao poder em 2007: os ricos, os empresários, uma parte da classe média e do eleitorado popular. Ainda que seja uma continuidade do mandato anterior, ela provoca um choque no tabuleiro político.

Primeiro porque é o exato oposto da "identidade feliz" defendida por Alain Juppé na continuidade do chiraquismo. Segundo porque ela contribuiu para diminuir um pouco mais a barreira entre a direita e a extrema direita, sem que o vencedor seja conhecido até o momento. Isso se chama brincar com fogo.

Para ter essa coragem, seria necessário que surgisse um novo personagem, que não fosse o derrotado de 2012. Pouco predisposto à autocrítica, Nicolas Sarkozy entendeu que é em sua personalidade que ele deverá fazer as correções mais incisivas. Seu slogan "Tudo pela França" pretende apagar aquilo que tanto foi criticado nele: o exagero do eu, a gabolice, o exercício solitário do poder, sem esquecer o passado de escândalos.

Para justificar sua volta, o ex-presidente nega estar pensando em uma revanche e fala sobre a gravidade do contexto para provar que, com "sua energia, sua autoridade, sua experiência", ele é de fato "o homem da situação". O modelo reivindicado é o de De Gaulle em 1958, mas sem a façanha militar, e é esse o problema recorrente de Nicolas Sarkozy: convencer os leitores e em breve os eleitores de que dessa vez sua mão não tremerá, ele conduzirá todas as reformas anunciadas, inclusive as mais difíceis. Mas como ter certeza disso? Seu histórico, do qual ele tem tanto orgulho, continua sendo seu calcanhar de Aquiles.
 

Tradutor: UOL

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