Polônia se preocupa com crescentes agressões contra seus cidadãos no Reino Unido

  • JUSTIN TALLIS/AFP

Não é fácil ser polonês no Reino Unido em tempos de Brexit. Duas agressões, uma delas fatal, sugerem que as mensagens hostis aos europeus do Leste, lançadas pela campanha de partidários pela saída da União Europeia durante o referendo de 23 de junho, estão resultando em atos de violência antipoloneses. A comoção é tanta entre os 800 mil cidadãos residentes nas ilhas britânicas que o governo de Varsóvia anunciou, no fim de semana, que em breve os ministros das Relações Exteriores, da Justiça e do Interior farão uma visita a Londres.

Na noite de sábado (3) em Harlow, uma cidade nova situada 50 km ao norte de Londres, dois cidadãos poloneses com cerca de 30 anos de idade foram agredidos em frente a um pub. "Foi um ataque brutal e horrível", comentou Trevor Roe, um oficial da polícia de Essex. Um dos homens sofreu um corte na cabeça e o outro teve o nariz quebrado, depois que os dois foram atacados por um grupo de quatro ou cinco pessoas por volta das 3h30 da manhã. Os policiais consideram que as ocorrências podem ter sido "um ato xenófobo".

O caso pareceria bastante banal se não tivesse ocorrido poucas horas depois de uma marcha de luto e de protesto organizada na mesma cidade em homenagem a Arkadiusz Jozwik, um operário polonês de 40 anos, mortalmente ferido no sábado (27) em uma primeira agressão. Também nesse caso a polícia sugere que possa se tratar de "um ato de ódio", tendo detido para averiguações seis adolescentes, que foram liberados sob pagamento de fiança.

Problema diplomático

Segundo Radek Jozwik, o irmão da vítima, os jovens teriam cometido a agressão quando os ouviram falar sua língua materna. "Eles o atacaram porque ele não fala muito inglês", ele declarou. "Os jovens adolescentes são muito agressivos. Os pais deveriam conversar com seus filhos, eles não os controlam. Um dos jovens começou e, em poucos segundos, havia dez ou doze em cima dele."

Essa primeira agressão ocorreu por volta das 23h30 em frente a uma pizzaria e na verdade foi contra dois poloneses. Gravemente ferido na cabeça, Arkadiusz Jozwik, o "Arek", morreu dois dias depois em um hospital de Cambridge. A outra pessoa agredida, um homem de 43 anos, sofreu fraturas nas mãos e contusões na barriga. Operário de fábrica, Arkadiusz Jozwik chegou à Inglaterra em 2012 para trabalhar, a conselho de seu irmão, que por sua vez reside no país desde 2004 e possui cidadania britânica.

Enquanto a investigação não estabelece claramente a motivação de cada agressão, essa onda de violência tem revoltado os cidadãos poloneses, que descrevem um clima de hostilidade contra eles desde o referendo sobre o Brexit. "Isso deu aos britânicos uma espécie de sinal verde para serem racistas", conta Eric Hind, um dos organizadores da marcha de protesto. "Queremos mostrar a essa cidade que vamos ficar e que eles terão de viver conosco. Nós ficamos calados por tempo demais." Centenas de pessoas carregando a bandeira polonesa participaram dessa passeata silenciosa nas ruas de Harlow.

A existência de uma onda xenófoba após o referendo sobre a permanência ou saída do Reino Unido na UE é confirmada pela polícia. Ao longo da semana que precedeu a votação e da que a seguiu, mais de 3 mil queixas por atos xenófobos foram registradas, um aumento de 42% em relação ao mesmo período em 2015. Ao relatar essa estatística em julho, um oficial da polícia de alto escalão admitiu que "algumas pessoas consideram o referendo como uma autorização para se comportarem de maneira racista ou discriminatória."

Desde a votação a favor do Brexit, várias pessoas originárias do leste europeu têm se queixado de pichações ou de comentários hostis. De fato, a campanha do Brexit encorajou a xenofobia, ao prometer que a saída da UE permitiria acabar com a livre circulação dos trabalhadores do leste europeu, acusados por muitos eleitores de "roubar o emprego" deles e de puxar os salários para baixo.

Mas a gravidade das agressões de Harlow elevou a questão ao patamar de problema diplomático agudo. Enquanto o futuro estatuto dos cidadãos da UE no Reino Unido permanece vago, o ministro polonês das Relações Exteriores fez um apelo para que Londres, após o assassinato de Arkadiusz Jozwik, lançasse uma "campanha informativa para mostrar que o Brexit não significa que as pessoas serão expulsas ou forçadas a irem embora."

A presença no Reino Unido de 800 mil poloneses, segunda maior comunidade estrangeira depois dos indianos, faz deles uma questão política considerável, sobretudo na perspectiva das negociações sobre a saída da UE. Em julho a primeira-ministra, Theresa May, já havia condenado as "vergonhosas" agressões pós-Brexit.

No sábado, em Varsóvia, o ministro britânico das Relações Exteriores, Boris Johnson, afirmou que "Londres é a cidade mais acolhedora e mais multicultural do mundo" e que "não há espaço para a xenofobia". Seria isso suficiente para que as pessoas se esqueçam de que Johnson foi a principal figura da campanha a favor do Brexit?
 

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