Pesquisa expõe as divergências entre os muçulmanos que vivem na França

Cécile Chambraud

  • Carolina Vila-Nova/UOL

Essa é uma radiografia dos muçulmanos da França como nunca foi feita, e que permite revelar as realidades por trás das controvérsias e das conjecturas que tomaram conta do debate público. É também um estudo cujas conclusões e interpretações formuladas por seus autores inevitavelmente se prestarão a debates. Os dados da rica pesquisa conduzida pelo IFOP a pedido do Instituto Montaigne surpreendem primeiro pela extensão da adesão (28%) na França a um islamismo de afirmação, crítico da laicidade, e preocupado primeiramente com a lei religiosa, classificado como "fundamentalista" e "secessionista" no relatório.

Ainda que não seja a maioria dos muçulmanos a se reconhecerem nessa categoria, nada menos que a metade dos muçulmanos entre 15 e 25 anos se enquadram nessa categoria. Trata-se então de uma tendência geracional, que afeta os jovens de maneira poderosa, em um cenário religioso que ainda por cima é bastante diferenciado.

Para explorar esse cenário, os pesquisadores fizeram dezenas de perguntas a 1.029 pessoas de 15 anos ou mais que se dizem de fé muçulmana (874) ou, sem se dizerem muçulmanas, que têm pelo menos um dos pais muçulmanos (155). Essa amostra foi extraída de um grupo mais amplo de 15.459 pessoas. Essa pesquisa traz informações que são de difícil acesso na França devido à proibição legal sobre a coleta de dados pessoais religiosos no país.

Assim, ela permite estimar a porcentagem de pessoas com mais de 15 anos que se dizem muçulmanas em 5,6% da população global, e em 1% aquelas que não se declaram muçulmanas mas têm pelo menos um dos pais muçulmanos, e que traduzem um processo de "saída da religião". Mas nem por isso se pode extrapolar com precisão o número de muçulmanos que vivem na França, ressalta Antoine Jardin, engenheiro de pesquisa no CNRS, que se encarregou da análise dos dados, pois "não podemos imputar uma religião de pertencimento aos menores de 15 anos".

Os muçulmanos que não têm pais muçulmanos, ou seja, os convertidos, representam 7,5% da amostra. No geral, essa população é mais jovem que a média (com uma média de idade de 35,8 anos, contra 53 anos no caso dos cristãos e 43,5 no caso dos sem religião), a ponto de a porcentagem de muçulmanos subir para 10% na faixa etária entre 25 e 25 anos. Essa população é 50% francesa de nascimento e 24% por aquisição de nacionalidade.

Ela é representada entre os operários e os inativos não aposentados (entre eles os estudantes de ensino básico e superior, jovens à procura de um primeiro emprego) e sub-representada entre as classes superiores dos assalariados. Apesar dessa origem social desfavorecida, ela se aproxima da média nacional em termos de nível de diploma, ainda que uma fração grande (40%) continue sem diploma ou com um nível inferior ao colegial completo.

Os muçulmanos têm em comum uma prática religiosa mais regular que o resto da população. Ainda que 30% deles nunca entrem em uma mesquita e 30% deles só entrem na ocasião das principais festas, 31% vão pelo menos uma vez por semana. A prática da prece é ainda mais frequente, pois ela é observada por fiéis que não frequentam assiduamente as mesquitas. Assim, metade daqueles que só vão a um local de culto durante o ramadã observam as cinco preces diárias, bem como 45% daqueles que o frequentam com menos assiduidade.

"Maioria silenciosa"

Dois elementos aparecem como verdadeiros marcadores da identidade muçulmana, praticante ou não, de tão presentes que são. Trata-se primeiramente da carne halal, consumida de forma exclusiva por 70% deles e ocasionalmente por 22%. O apego a essa prática leva oito em cada dez muçulmanos a acreditarem que as crianças deveriam poder comer de forma halal na escola.

O outro marcador é o véu. Cerca de 65% dos muçulmanos de fé ou de ascendência se dizem favoráveis ao uso do véu e 24% são a favor do uso do véu integral, as mulheres sendo um pouco mais a favor do que os homens em ambos os casos. Essa aprovação não leva necessariamente à prática: dois terços das mulheres dizem não usar o véu, enquanto 35% o usam, ou o tempo todo (23%), ou fora do local de trabalho ou de estudo (7%), ou raramente (5%).

A opinião sobre o uso do niqab é um marcador geracional. Os maiores de 40 anos são nitidamente contrários a ele (8 entre 10), enquanto essa prática é alvo de uma visão favorável para 40% dos menores de 25 anos. Isso se aplica também a outros temas. Embora uma maioria dos entrevistados tenha respondido "sim" à pergunta: "Na França, a laicidade permite praticar livremente sua religião?", mais de um quinto respondeu que não, proporção que sobe para quase 40% entre os menores de 30 anos. Em compensação, a poligamia, cuja proibição é considerada como normal por 75% das pessoas, não encontra uma reação diferente de acordo com a idade.

Mas há mais jovens que a média (duas entre cada três pessoas não consideram que deveria ser permitido expressar sua fé no trabalho) favoráveis à manifestação da religião no trabalho. Por fim, ainda que um terço dos entrevistados se recuse a cumprimentar com beijos uma pessoa do sexo oposto ou a entrar em uma piscina mista, 92,5% aceitam serem tratados por um médico do sexo oposto (85% das mulheres) e 88% apertam a mão de uma pessoa do sexo oposto.

Através do tratamento estatístico das respostas, os pesquisadores identificaram seis categorias que compartilham de um mesmo sistema de valores que constroem sua relação com a religião. Esses grupos vão desde as pessoas mais afastadas da religião, favoráveis à laicidade, que não formulam nenhuma reivindicação de expressão religiosa na vida cotidiana, até aquelas que têm uma visão mais engajada e apresentam "características autoritárias", ou seja, "favoráveis a normas sociais não discutíveis", para usar a definição de Antoine Jardin, muitas vezes favoráveis ao uso do niqab, à poligamia, e que criticam a laicidade.

Em suma, de acordo com os autores, essas categorias poderiam ser resumidas em três grupos. O primeiro, que representa 46% dos muçulmanos de fé ou de ascendência, reúne as pessoas que não têm ou têm poucas reivindicações de expressão religiosa no cotidiano e que colocam a lei da República à frente da lei religiosa ao mesmo tempo em que conservam uma prática religiosa superior à média nacional. O relatório as classifica como "ou totalmente secularizadas, ou no processo de concluir sua integração ao sistema de valores da França contemporânea". Eles são chamados de "maioria silenciosa."

O segundo grupo, que representa um quarto do efetivo, se encontra em uma situação intermediária, com uma prática forte, muitas vezes favorável à expressão da religião no trabalho, mas que integrou a laicidade. O terceiro grupo, esses 28% citados anteriormente que não consideram que "a fé pertence à esfera privada", é em sua maior parte favorável à expressão da religião no trabalho e contesta a laicidade. O relatório do Instituto Montaigne classifica esse sistema de valores de "claramente contrário aos valores da República" e de "secessionistas". "O islamismo é um meio para eles de se afirmarem à margem da sociedade", afirma o relatório.

Através dessa classificação, é possível ver se delineando uma dupla polaridade dentro da população muçulmana, alheia a qualquer sectarismo, como o estudo ressalta. Uma delas, a mais numerosa, "se inscreve em um sistema de valores e em uma prática religiosa que se inserem sem conflitos no corpus republicano", uma vez que dois terços da amostra consideram que a laicidade permite viver livremente sua religião. A outra, mais presente entre as gerações mais jovens, faz da religião um elemento estruturante de sua identidade, valorizando as práticas associadas a ela, às vezes em oposição com a lei (como o uso do niqab).

Para além dos inúmeros sinais de inserção do islamismo na sociedade mostrados por esses dados, é o significado e o alcance social desse islamismo identitário das gerações mais jovens, essa espécie de "novo orgulho islâmico" mencionado pelo Instituto Montaigne, que hoje intriga as pessoas.
 

Tradutor: UOL

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