Opinião: Mídia mostra a popularidade russa e a impopularidade americana

Alain Frachon

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Um avança, os outros vacilam. Na avaliação sobre a imagem na mídia, a Rússia de Vladimir Putin coleciona "vitórias", e os Estados Unidos "pós-Obama", ou quase, estão deprimidos. O Rússia Unida, partido do presidente, acaba de embolsar 80% das cadeiras nas eleições legislativas de 18 de setembro. Putin passa a imagem de um dirigente seguro de si. De mente clara, mão firme, ele é o "chefe" da Síria, e está voltando a colocar a Rússia em seu lugar, o de uma superpotência.

Seus adversários concordam: mesmo sem esmagar a oposição como ele tem feito, Putin seria reeleito com facilidade. O presidente é popular. A Rússia está sendo liderada e projeta uma imagem de força: os russos gostam, as direitas europeias vibram.

Em compensação, de acordo com Donald Trump, os Estados Unidos estão em um estado avançado de "terceiromundização". Eles estão perdendo milhões de empregos, que vão para a China ou para o México. Estão sujeitos a imigrantes estupradores e terroristas, estão sendo enganados no cenário internacional, e não são mais respeitados "como antes". "Pessimismo calculado e demagógico", escreveu o presidente do grupo Slate, Jacob Weisberg, no "Financial Times". Mas ele observou que Hillary Clinton, a candidata democrata, também cultiva o mau humor da opinião pública.

Ilusão midiática

Estaria de um lado, um Vladimir Putin que sabe defender os interesses de seu país e de seu povo, e do outro, um Estados Unidos acometidos pela dúvida, tanto dentro quanto fora? Ninguém sabe. O impressionismo midiático engana.

Comecemos pela economia. O duplo mandato de Obama foi o da recuperação. Em oito anos, cerca de 15 milhões de empregos foram criados, o desemprego está em seu nível mais baixo (4,9%), o dólar está no auge e a Bolsa também. Em 2015, segundo o balanço estatístico publicado no final de setembro, a renda média de uma família aumentou 5%, pela primeira vez em anos.

Outro número inédito: 3,5 milhões de pessoas saíram da pobreza profunda. O número de americanos sem seguro de saúde diminuiu consideravelmente e, ainda que frágil, a retomada do crescimento alimentou a receita fiscal: o deficit orçamentário passou para baixo da marca dos 3% do PIB, mas a dívida pública está beirando 100% do PIB. Mais importante ainda: com o Google, a Apple, o Facebook, a Amazon e tantas outras, os Estados Unidos continuam a inventar o cenário tecnológico e industrial do futuro.

Só que entre esse quadro macroeconômico até brilhante e o humor do país, mais para pessimista, existe o peso desses 15 últimos anos, com a crise financeira de 2008, o crescimento desigual, a estagnação da classe média e o desenvolvimento de uma sociedade de "castas", a extinção de toda uma categoria de empregos bem pagos, os fluxos migratórios descontrolados, as guerras nunca vencidas, um sistema político disfuncional etc.

Mas, em comparação, a situação econômica da Rússia inspira o desespero absoluto. "Economia em recessão, poder de compra em baixa, 3 milhões de pobres a mais em 2015"", resume, em setembro, a excelente revista "Alternatives Économiques". A Rússia continua sendo totalmente dependente da evolução do preço dos hidrocarbonetos. Eles sobem (primeiros mandatos de Putin como chefe do Estado), e os grandes indicadores sociais do país avançam. Eles ficam estagnados ou caem, e o país regride: uma quase estagnação em 2013 e 2014, queda brusca do PIB em 2015, crescimento zero em 2016. No ano passado, o rublo perdeu 40% de seu valor frente ao dólar.

O desemprego continua baixo (6%), mas os salários estão diminuindo (as aposentadorias também). Assim como uma petromonarquia do Golfo, a Rússia não se endivida ou se endivida pouco, mas usa seus fundos de reserva. Em 16 anos no comando, Putin foi incapaz de iniciar o esboço de uma diversificação real da economia. No centro dessa carência está um subinvestimento crônico, sobretudo estrangeiro, que se deve ao sistema Putin: a autocracia política e a ausência de um Estado de direito desencorajam os investidores.

Só que a alma russa seria sensível a algo além da evolução do PIB. Putin significa a volta do orgulho nacional, a identidade russa reafirmada diante do Ocidente decadente, a ordem interna (relativa) restabelecida, o status de grande potência da Rússia em vias de ser reconquistado, tudo aquilo que contaria no cálculo da FNB, a felicidade nacional bruta, da Rússia.

Para seus bajuladores europeus, sobretudo franceses, ele é o líder da resistência à globalização econômica multicultural trazida pelo neoliberalismo ocidental. Em nome do imperialismo galopante atribuído à Otan, ele justifica a manutenção de conflitos abertos em seu "exterior próximo", que envolve desde a Geórgia até a Ucrânia. Mas o grande estrategista do Kremlin está empurrando Tbilissi e Kiev cada vez mais para os braços dos ocidentais.

Através de um esforço orçamentário sério, o presidente dotou o país de um Exército confiável e moderno, que ele tem usado para afirmar o lugar de Moscou no Oriente Médio, sobretudo na Síria, onde, se aproveitando dos erros americanos, ele assumiu completamente o controle do destino do regime de Damasco.

Graças à aviação russa, Bashar al-Assad acredita que pode considerar uma solução militar, "vitoriosa", para a guerra síria. Mas e depois? Putin seria responsável pelo "pós", responsável pelo futuro político da Síria, que envolverá no mínimo alguns anos de caos. Não é uma situação estratégica das mais invejáveis. Antes do Iraque, Colin Powell havia lançado a George W. Bush: "Se vocês forem para lá, vocês serão os proprietários."

Essa ideia midiática em voga de uma Rússia que sabe aonde está indo, em comparação com um Estados Unidos em fase de declínio, é um tema de discussão, mas não necessariamente uma realidade.

Tradutor: UOL

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