Banho de sangue marca guerra às drogas nas Filipinas

Harold Thibault

  • Noel Celis/ AFP

    Suspeitos são detidos durante operação de combate às drogas em comunidade em Manila

    Suspeitos são detidos durante operação de combate às drogas em comunidade em Manila

Era noite de uma sexta-feira, 23 de setembro. Sentado no sidecar escrito "Jesus" de uma amiga, Sandrex Ampoan matava o tempo. Ele iria em breve para casa dormir quando duas motos frearam na sua frente. Sobre elas estavam dois indivíduos que dispararam seis balas calibre 45 contra o dependente de drogas: três na cabeça, duas no braço direito e uma no peito.

Aos 31 anos de idade, viciado em "shabu", a metanfetamina dos bairros pobres do Sudeste Asiático, Sandrex tentava largar a droga. Sem hesitar, ele votou no dia 9 de maio no homem que havia prometido devolver a segurança às Filipinas dentro de seis meses. Seu irmão, Kennedy, ainda usa a pulseira de borracha com a frase "Duterte é nosso homem!" distribuída por seus militantes de campanha.

Toda noite em Manila, desde que Rodrigo Duterte se tornou oficialmente o 15º presidente das Filipinas, no dia 30 de junho, acontece a mesma cena trágica: assassinos de capacete que desaparecem na noite da imensa capital, pais arrasados, vizinhos já não tão mais surpresos. A polícia científica faz algumas anotações e coloca na viatura mais um cadáver diante dos fotógrafos. A "guerra contra as drogas" prometida pelo novo presidente tem feito em média 47 mortos por dia nas Filipinas, sendo metade na capital.

Para o presidente filipino, a grande faxina está só começando. Ele está convicto de que muitos drogados não valem mais nada e representam uma ameaça para seus bairros, tanto que "é melhor matá-los". Na sexta-feira (30), ele dizia que ficaria "feliz" em se inspirar naquilo que Hitler fez com os judeus para "massacrar" 3 milhões de dependentes de drogas e assim "solucionar o problema de meu país e salvar a próxima geração da perdição". Em termos de números, o Dangerous Drugs Board, o órgão do governo filipino encarregado do combate às drogas, estima em 1,8 milhão o número de usuários de entorpecentes entre os 100 milhões de habitantes do arquipélago.

Desde que se instalou no palácio de Malacañang, em Manila, o presidente Duterte deu carta branca para os matadores: "Se vocês conhecerem algum drogado, vão e matem-nos vocês mesmos". Ele faz questão de reiterar seu "100% de apoio" aos oficiais de polícia, garantindo-lhes que vai travar qualquer processo judicial. A operação foi batizada de "Cano Duplo"". Quando a União Europeia se mostrou preocupada com essa onda de execuções, Rodrigo Duterte mostrou o dedo do meio e respondeu: "Fuck you!". "Digong", como ele é chamado, tem o apoio de uma opinião pública cansada da corrupção dos governantes e da inércia que a acompanha. O povo foi seduzido pela promessa de resultados imediatos e já não se choca mais com a cultura do assassinato político. Depois de cem dias no poder, o presidente já contava com 64% de popularidade.

Noel Celis/ AFP
Parente chora enquanto limpa sangue de vítima não identificada morta em Manila

Abatido como um frango

O dependente químico executado no dia 23 de setembro, Sandrex Ampoan, havia se apresentado voluntariamente à polícia do bairro, como pediam os agentes. Em nível nacional, mais de 715 mil pessoas (sendo 662 mil simples usuários de drogas e 53 mil pequenos traficantes) se renderam, temendo por suas vidas caso elas não se entregassem. O jovem estava decidido a mudar. "Fui eu que disse a ele para mudar de vida, senão ele corria o risco de ser morto", lembra seu irmão Kennedy, 25. "Foi por isso que ele foi se entregar à polícia. Ele saiu de lá determinado e confiante, pensando estar seguro por ter tomado essa iniciativa."

Sandrex foi colocado na "lista" do bairro. Isso porque "Digong" faz listas, que ele apresenta como sendo a "matriz" de sua guerra contra as drogas. No começo de agosto, ele leu uma primeira lista de 150 nomes. Seguindo esse modelo, as polícias de bairro passaram a fazer listas de pessoas a serem monitoradas por terem revendido ou simplesmente consumido drogas.

Boa parte dos 3.400 mortos contabilizados pela polícia nacional entre 30 de junho e 3 de outubro estavam nesses novos registros, incluindo Sandrex. "Ele não era nenhum grande traficante, nem mesmo um avião, ele era só um pobre usuário. "Eles o abateram como um frango", diz com revolta sua mãe, Erlinda Ampoan. "Seus assassinos são do bairro, pois eles conheciam os hábitos dele", conclui Kennedy, que agora só tem uma obsessão: conseguir as imagens da câmera de vigilância número 12 do bairro, que teria captado justamente a cena do assassinato de seu irmão mais velho. "Não teve mais gravações, com as fortes chuvas dos últimos dias a câmera pifou", responde Fernando Mercado, espécie de subprefeito do bairro, apesar do infravermelho ainda aceso. "Bullshit!", dizem Kennedy e seus vizinhos, que não têm nenhum recurso e sabem que fazer barulho seria arriscado nesses tempos.

E quem seriam esses matadores anônimos? Identificá-los não é prioridade das forças de ordem, que dizem estar investigando vários casos, mas não resolveram nenhum. Sem sombra de dúvida, as gangues estão aproveitando para fazer acertos de contas, e nas Filipinas os serviços de um assassino profissional custam somente de US$ 100 (cerca de R$ 320) a US$ 200 (cerca de R$ 640).

Mas certos elementos estão mais próximos da Justiça do que se imagina. Uma testemunha, Marie-Rose Aquino, explicou perante o Senado que seus pais foram mortos em junho porque haviam se tornado incômodos, por terem por muito tempo reembalado e revendido a droga que a polícia local lhes fornecia após apreensões em Antipolo, periferia da zona leste de Manila.

Foi diante desse mesmo Senado que a presidente da comissão de direitos humanos, Leila de Lima, trouxe para testemunhar em meados de setembro um homem que se apresenta como ex-membro do esquadrão da morte de Davao, cidade do sul das Filipinas que Duterte governou durante 22 anos. Edgar Matobato explicou que as ordens de assassinato vinham diretamente do prefeito ou de seu vice. O presidente nega ter conhecido o pistoleiro, ainda que ele já tenha respondido "Sim, é verdade" a respeito de suas supostas ligações com a Davao Death Squad, que fez mais de mil mortos por ordens suas na maior cidade da ilha de Mindanao.

O grande expurgo do sistema está só começando. Cabeças vão rolar, inclusive dentro da polícia. Presidente da organização de defesa dos direitos Karapatan, Marie Hilao-Enríquez tem sua opinião pessoal sobre o surgimento desses assassinos de moto. Alguns usuários ou revendedores sabem demais. "Os mortos não denunciam, é por isso que as execuções extrajudiciais se multiplicaram", ela diz. Essa militante está preocupada com o rumo que as Filipinas estão tomando: "É claro que precisamos combater as drogas, mas salvando as pessoas, e não acabando com elas."

Se duas de cada três vítimas são mortas por esses assassinos, o terço restante é ação direta dos policiais. Como têm garantida sua imunidade pelo chefe do Executivo, eles apertam fácil o gatilho. Doze agentes foram mortos no front da guerra contra as drogas, ou seja, uma proporção de um policial morto para cada 95 "suspeitos" executados.

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Voltou dos mortos

A justificativa da polícia é sempre a mesma: um agente à paisana tenta comprar shabu, o suspeito parece sacar uma arma, e o agente se antecipa para salvar a pele. Sempre se encontra um pouco de metanfetamina com o morto, às vezes um revólver. O próprio presidente se vangloriou em agosto de muitas vezes ter plantado provas falsas quando era vice-procurador em Davao. As famílias duvidam dessas justificativas. Como Mary-Jane Gerangco, 36, cujo irmão Raffy Sardido foi morto recentemente na noite de 27 de setembro, durante uma batida policial na favela de Binondo. Sob uma chuva violenta, as forças de ordem exigiram que mulheres e crianças se afastassem de suas casas. A operação foi batizada de "One Time Big Time". Os homens tiveram de se sentar do lado de fora, e três foram executados.

Segundo o delegado Amante Baraquiel Daro, os agentes encontraram um "antro" de drogados e foram obrigados a matar dois deles que atiravam contra os policiais e um terceiro que tentou fugir. Os vizinhos relatam uma cena diferente. Os policiais teriam pedido a Raffy Sardido que se levantasse e o teriam levado para uma casa onde eles o teriam executado. "Admito que meu irmão se drogava, mas seria apropriado ele pagar com sua vida?", diz Gerangco, revoltada. O delegado Baraquiel Daro nega ter cometido um erro e apoia, como seus homens, a política de Duterte. "Toda segunda-feira de manhã, quando hasteamos a bandeira, digo a meus agentes que essa é nossa chance de acabar com essa gangrena que são as drogas", ele conta. "É um verdadeiro empurrãozinho para o moral, e em troca os agentes apoiam totalmente a campanha do presidente."

A polícia se orgulha de estar obtendo resultados rápidos com esses métodos. O índice nacional de criminalidade teria caído 31%, segundo o chefe da polícia nacional das Filipinas, Ronald de la Rosa. O número de estupros teria caído 49% em julho de 2016 em relação a 2015. Mas a que preço? Um jornalista da rádio ABS-CBN, que fez uma investigação sobre 50 indivíduos executados pela polícia, concluiu que 43 deles não representavam nenhuma ameaça direta quando foram mortos, sendo que 16 deles foram ouvidos se rendendo ou implorando pela vida. Dos sete restantes, somente dois haviam feito uso de arma de fogo, enquanto nenhuma testemunha foi encontrada em cinco dos casos.

Os mortos não estão mais aqui para acusar a polícia, exceto pelo estranho caso de Francisco Santiago Junior. Ele e um colega haviam sido dados como mortos no dia 13 de setembro. Os policiais explicaram que não tiveram outra escolha senão matá-los, pois estariam atirando contra eles com uma 38 mm em uma operação de compra de shabu em flagrante.

Santiago se fez de morto durante uma hora, estendido no chão e perdendo sangue, certo de que se fizesse qualquer movimento, ainda que ferido e desarmado, os agentes acabariam com ele. Ele precisava esperar a imprensa. Uma vez que os fotógrafos chegaram atrás da fita amarela "Police line -- Do not cross", o homem dado como morto ergueu os braços, para espanto geral. Ele explicou que não havia atirado nem vendido nenhuma droga que fosse, e que homens de moto atiraram contra eles sumariamente.

Rodrigo Duterte havia prometido que se fosse eleito, as coisas "ficariam sangrentas". E ele cumpriu sua palavra. Os jornais locais tiveram de criar de forma emergencial cargos de repórteres para cobrir os crimes, trabalhando durante a noite para acompanharem o ritmo dos assassinatos. Eles precisam esperar até que o resto da cidade esteja dormindo para que os SMS de informantes dentro da polícia comecem a chegar.

Na noite de 26 de setembro, eles atravessaram Manila a toda velocidade depois que dois tiros foram assinalados no bairro popular de Parañaque. Bem embaixo das janelas da casa de sua família, Jeremia Magno, 32, jazia em meio a seu sangue.

Mal registraram a ocorrência, tiraram fotos da cena do crime e removeram o cadáver, a política científica já foi chamada para outro lugar. Dessa vez, rumo ao norte do Metro Manila, o bairro das docas de Navotas. São 3h30, e ao chegarem ao local, os fotógrafos perguntaram onde está a vítima. Os policiais acenderam suas lanternas de bolso e lhes mostraram um reservatório de bombeamento de água onde boiava um corpo, com as mãos amarradas para trás. Com dificuldade eles içaram o cadáver e realizaram as constatações habituais: altura, múltiplos ferimentos à bala... Essa é a nona vítima recolhida nesse dia em Manila. Por essa noite, acabou, mas o mandato presidencial durará ainda seis anos.

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Tradutor: UOL

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