Por que a moeda britânica pode cair ainda mais

Marie Charrel

  • Adrian Dennis/AFP

    Pedestres passam por casa de câmbio no centro de Londres

    Pedestres passam por casa de câmbio no centro de Londres

O enorme deficit de conta corrente sofrido pelo Reino Unido e a queda dos investimentos diretos estrangeiros pesam sobre a libra

Será que a libra esterlina poderá cair até seu nível mais baixo já atingido em 1984, de US$ 1,05? É possível que ela caia para abaixo de 1,10 euro?

Desde o crash-relâmpago de 7 de outubro, quando a moeda britânica desvalorizou 6% em menos de dois minutos, caindo para US$1,1841, algo que não se via há 30 anos, os investidores e especialistas em mercado de câmbio estão preocupados. E com razão: desde a vitória do Brexit no referendo de 23 de junho, a moeda do Reino Unido já recuou em média 17,5% diante das moedas dos principais parceiros do país.

Na terça-feira (11), ela chegou a atingir uma baixa histórica diante da cesta de moedas de referência definida pelo Banco da Inglaterra (BoE). "E tudo leva a crer que a baixa poderá continuar", analisa Frederik Ducrozet, economista da Pictet.

"Desequilíbrio"

Pode-se dizer que o cenário de 1992 voltou a assombrar o mercado financeiro de Londres. Na época, o bilionário americano George Soros, apelidado desde então de "o homem que quebrou o Banco da Inglaterra", havia lançado um ataque especulativo contra a libra esterlina, certo de que esta estava supervalorizada, com razão.

O BoE de fato vinha mantendo sua moeda em um valor elevado para permanecer dentro das regras do sistema monetário europeu (SME), o mecanismo de taxa de câmbio fixa que define a cotação em torno da qual as moedas europeias estavam autorizadas a flutuar.

Em reação ao ataque de George Soros, realizado no dia 16 de setembro de 1992, o BoE usou suas reservas de câmbio para defender sua moeda. Mas ele logo abandonou a luta, deixando a libra se desvalorizar em 15%, e saindo do SME. "No atual sistema de taxas de câmbio flutuantes, é pouco provável que um cenário como esse se repita", acredita Eric Bourguignon, da Swiss Life AM.

Só que há correntes poderosas puxando a moeda britânica para baixo, a começar pelas incertezas que rondam as futuras relações entre o Reino Unido e a União Europeia, que tendem a preocupar os investidores, ou até a convencê-los a saírem de Londres.

Mas o Reino Unido exibe hoje um dos deficits de conta corrente mais elevados do mundo, de 5,9% do PIB. "Isso significa que os britânicos estão importando bem mais bens e serviços do que exportam, um desequilíbrio que resulta em pressões para baixo da libra", resume Bourguignon. Só que até hoje essas pressões eram compensadas pelos grandes fluxos de capitais financeiros que entram no país, em especial os investimentos diretos estrangeiros, que empurram a moeda para cima.

Devido a incertezas, esses investimentos começaram a diminuir. Tanto que as forças que puxam a libra para baixo (associadas ao deficit da conta corrente) voltaram a atuar.

No cenário otimista, a moeda se estabiliza em torno de US$ 1,20. No cenário pessimista, as entradas de capitais estrangeiros ainda estão secando, levando à queda da moeda e à alta dos preços dos produtos importados, derrubando o poder de compra da população.

"O principal motor da economia britânica estaria emperrando, o que pode afundá-la em uma recessão", resume Pascale Seivy, diretora do conselho de investimentos da Pictet AM.

Medidas de apoio

Felizmente, uma parte (43%) dos ativos financeiros dos britânicos estão em divisas estrangeiras e não estão expostos à queda da libra. Além disso, o BoE fará de tudo para evitar essa espiral. Mas ele se encontra em uma situação complexa.

No dia 4 de agosto, ele baixou sua taxa de juros para 0,25%, na esperança de dar um empurrãozinho para a atividade econômica. Mas, para sustentar a libra, seria preciso na verdade que ele aumentasse suas taxas, correndo o risco de atrapalhar o crescimento...

Antes de tomar uma decisão, o presidente da instituição, Mark Carney, provavelmente esperará até o dia 23 de novembro, data em que o ministro das Finanças, Philip Hammond, deve apresentar seu plano de orçamento. Este provavelmente incluirá medidas de apoio à economia. Em todo caso, a cotação da libra esterlina deverá permanecer muito volátil nos próximos meses, e pode registrar novos "crashes-relâmpago" a cada declaração política contrária à Europa.

 

Tradutor: UOL

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