Transbordando vida e juventude, Teerã mescla nostalgia do xá e culto ao aiatolá Khomeini

Thomas Doustaly

  • Ahmad Halabisaz/Xinhua

A primeira impressão é intimidante. Teerã não se deixará descobrir em 48 horas. Hospedamo-nos no centro da cidade, no hotel Laleh International. O antigo Intercontinental, construído na época do xá pelo grupo americano no parque de mesmo nome, não é mais o que foi. O Laleh, também decadente, oferece dos quartos nos andares mais altos a vista majestosa dos montes Elbourz de um lado e o sul da capital do outro --vale a pena. Sob nossos olhos, 15 milhões de habitantes: lá de cima compreendemos como Teerã é imensa.

Na rua, a capital iraniana fervilha de juventude, engarrafamentos e ruído até tarde da noite. Resumindo, Teerã transborda vida, principalmente diante do Grande Bazar, onde é preciso se perder durante duas ou três horas. Esquecemos os cartões-postais das cidades do sul.

Em Teerã, o chador é minoritário, mas cruzamos frequentemente com jovens muito pouco escondidas, maquiadas e usando um pequeno lenço sobre o nariz. O surgimento da cirurgia estética à moda da Califórnia em uma República islâmica com fama de puritana causa surpresa. No entanto, essa tensão entre modernidade e conservadorismo ilustra bem as relações ambíguas entre a história recente e a realidade iraniana.

Coincidência de nossa viagem, chegamos a Teerã em 3 de junho, data da peregrinação anual a Behesht-e Zahra, que comemora o aniversário da morte do aiatolá Khomeini, em 1989. É feriado, e a cidade está morta. Ao chegarmos pela rodovia, vindos de Qom, somos recebidos por mastros de 10 metros com bandeiras pretas e por religiosos que marcham pelo acostamento da estrada na direção do mausoléu de Khomeini.

Diamantes a granel

Foi esse o dia que escolhemos para visitar o Museu das Joias Nacionais do Irã, onde estão expostas as joias mais ostentatórias das duas últimas dinastias de xás do Irã, os Kadjar e os Pahlevi. Relíquias monárquicas de um lado, culto da personalidade do fundador da República islâmica do outro: isso dá uma boa ideia da esquizofrenia iraniana. A lembrança do aiatolá se mistura à de seu maior inimigo no momento de descobrir a coroa imperial de Mohammed Reza Pahlevi. Ela é conservada no subsolo blindado do Banco Central, na Avenida Ferdowsi, pois o valor das joias é tal que elas servem de reserva para a moeda iraniana.

Tivemos de deixar bolsas e portáteis para entrar nessa grande sala de mil metros quadrados. Nunca vimos tantos diamantes juntos, simplesmente expostos aos montes em uma vitrine ou incrustados em obras-primas da joalheria como o Globo das Joias, um globo terrestre do século 19 coberto de pedras preciosas, ou a coroa criada pela casa Van Cleef & Arpels para a coroação da imperatriz em 1967. Atenção, o museu só abre de sábado a terça-feira, e das 14h às 16h.

Justo ao lado do hotel Laleh, dois museus também testemunham essa hesitação do regime, entre censura e história. De forma caricatural para o Museu de Arte Contemporânea de Teerã, onde só um móbile de Alexander Calder testemunha a excepcional coleção de arte moderna e contemporânea constituída nos anos 1970. As outras obras --de Warhol, Picasso, Bacon...--, consideradas demasiado ocidentais pelos mulás, são conservadas em reservas desde a revolução. As salas são utilizadas para exposições didáticas.

Ao contrário, o caráter menos político da arte da tapeçaria, tão importante no Irã, permitiu que o Museu do Tapete ficasse à altura de sua reputação --fascinante! Os tapetes são expostos nas paredes, como quadros. Infelizmente, as placas explicativas não são muito precisas, e às vezes não existem. Como saber por que Luís 14 e Napoleão Bonaparte se encontraram em uma tapeçaria do século 19? Esse rei é Nasseredin Chah, como parece indicar o bigode?

Teerã se distingue das outras cidades do Irã pela abundância de lugares de poder, que remontam obrigatoriamente ao passado monárquico do país. Visitamos o Golestan, um conjunto palaciano inscrito no Patrimônio Mundial da Unesco, principalmente por seu jardim, a riqueza de suas cerâmicas e o talar do Palácio de Mármore. Era de lá que governavam os reis Kadjar no século 19.

Rolls-Royce e piscinas

Mas sobretudo é preciso guardar uma tarde prolongada para o Palácio de Sa'dabad. A antiga residência da família Pahlevi, no norte de Teerã, abriga vários museus e palácios no mesmo lugar. A coleção de Rolls-Royce da família imperial, as piscinas e as quadras de tênis abandonadas, os móveis um pouco cafonas de Jansen no Palácio Branco; muitas coisas ficaram como estavam em 1979.

A abertura desses vestígios aos turistas tem como objetivo, evidentemente, estigmatizar o luxo e o ambiente de prazer nos quais viviam o xá e seus chegados. Mas os olhos dos visitantes iranianos estão arregalados, e o turismo nostálgico atinge o apogeu.

Na véspera da partida, no terraço de um café, diante de uma cerveja realmente sem álcool da marca Holsten --muito popular entre os iranianos--, pensamos que o paradoxo desse país talvez esteja bem resumido nessa modesta lata. O que a República islâmica proíbe ocupa um grande lugar no Irã, na condição de vestígios ou de lembranças.

Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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