Por que comparar Aleppo e Mossul é um engano

Christophe Ayad

  • Ahmad Al Rubaye/AFP

    Tanque iraquiano dispara contra a vila de Tall al-Tibah, a 30 km de Mossul

    Tanque iraquiano dispara contra a vila de Tall al-Tibah, a 30 km de Mossul

É uma comparação que começa a se espalhar pelas redes sociais: por que criticar o que Putin faz em Aleppo, se os ocidentais fazem a mesma coisa em Mossul, ou seja: bombardear por via aérea uma cidade para desalojar extremistas --jihadistas sunitas que fizeram os moradores de reféns. Evidentemente, essa analogia é feita por aqueles que, tanto na direita como na esquerda (e com frequência à direita da direita e à esquerda da esquerda), apoiam incondicionalmente o presidente russo. Ela visa afastar as críticas ocidentais e as acusações de "crimes de guerra", que possam ser feitas em Washington e em Paris, irritando o Kremlin a ponto de adiar a visita de Vladimir Putin à França.

Como ocorre com frequência, comparação não é razão. Nesse caso preciso, é de uma total desonestidade intelectual e de uma lógica de aparência enganosa. À primeira vista, as configurações podem parecer de fato idênticas: uma grande cidade sunita, um poder central xiita (alauíta, um ramo dissidente do xiismo, na Síria), uma insurreição armada de origem religiosa e, finalmente, uma coalizão internacional que apoia as autoridades locais. Exceto que, por trás desses conceitos genéricos, nada é semelhante.

Em Aleppo, a insurreição armada foi precedida pelo levante de uma parte crescente da população, que, em 2011 e 2012, pedia somente o direito de se manifestar e reformas que garantissem mais liberdade, dignidade e justiça social. Em Mossul, nada disso. Se há uma cidade onde a "primavera" dos sunitas do Iraque em 2013 não deu lugar a manifestações é esta. A organização Estado Islâmico no Iraque, que se tornou Estado Islâmico (EI) depois da proclamação do "califado" em 2014, estava bem implantada lá desde meados dos anos 2000 e submetia seus habitantes a uma extorsão implacável. O EI obteve com essa prática boa parte de sua fortuna. A tomada da cidade em junho de 2014 ocorreu quase sem combates, graças a uma estratégia de surpresa e de terror que pôs em fuga as tropas governamentais, amplamente superiores em número, mas sem vontade de morrer por uma cidade sunita, já que eram compostas por uma maioria xiita.

Em Aleppo, a insurreição não foi o ato de um grupo enrijecido por uma década de combates contra a ocupação americana, como foi o caso do EI, mas de grupos díspares vindos basicamente dos campos ao redor. Se ela se apoderou dos bairros orientais, os mais pobres da cidade, foi porque ali encontrou uma reação mais favorável. A afiliação dos moradores de Aleppo (a favor ou contra o regime) repousava --pelo menos no início-- tanto na religião quanto no nível social.

Em Mossul, a primeira preocupação da organização jihadista foi eliminar toda forma de oposição potencial na cidade, expulsando os cristãos, massacrando os xiitas e executando os sunitas considerados inconfiáveis. Nesse tempo, em Aleppo, as brigadas rebeldes, dominadas inicialmente pelo Exército Livre da Síria, o ramo moderado da insurreição, buscaram implantar instituições civis, como um conselho eleito, tribunais alternativos e comitês de bairro para distribuir alimentos.

Dilúvio de bombas

Esse pluralismo deu lugar progressivamente a formações mais islamistas, que se beneficiaram da ajuda de mecenas da Turquia, do Catar e da Arábia Saudita, e sobretudo aproveitaram o desespero dos civis abandonados à sua sorte pela comunidade internacional. Mas as brigadas rebeldes de Aleppo, apesar de islamistas, expulsaram da cidade o EI no início de 2014, assim como a Frente al Nusra, afiliada à Al Qaeda, em 2015. Foi somente neste verão que esse último grupo, rebatizado de Fatah al Cham, pôde voltar a Aleppo, rompendo temporariamente o sítio.

Hoje, é em nome dessa presença da Frente Fatah al Cham, muito minoritária entre os efetivos da rebelião em Aleppo, que Moscou ataca a cidade e em particular suas infraestruturas civis; hospitais, unidades de resgate, estoques de gasolina e de farinha. A aviação russa só entrou em ação no outono de 2015; foram aviadores sírios que dizimaram sua própria população ao despejar um dilúvio de bombas desde 2012, sem jamais fazer os rebeldes recuarem de modo significativo. A razão dessa resiliência se encontra no apoio da população dos bairros do leste, que continua preferindo a rebelião ao regime de Assad: a melhor prova disso está na recusa dos moradores de Aleppo a deixar seu enclave, apesar das ofertas repetidas do poder. Aí está outra grande diferença de Mossul, onde o EI não parou de reprimir os habitantes e fez tudo para impedi-los de partir, o que dezenas de milhares fizeram, apesar de tudo.

Em Mossul, os bombardeios aéreos se devem somente à coalizão internacional contra o EI implementada pelos EUA em setembro de 2014 (mais de 60 países, dos quais menos de dez são realmente ativos), já que o governo de Bagdá não possui aviação militar. Eles foram limitados e dirigidos sempre que possível, sem jamais tentar destruir as infraestruturas indispensáveis à sobrevivência. A atitude é radicalmente diferente da de Moscou. O único ponto comum entre Aleppo e Mossul hoje é a ausência, nos dois casos, de vontade de um acordo político duradouro dos prováveis futuros vencedores, em Damasco e em Bagdá, que passará inevitavelmente por um papel maior da comunidade sunita na vida política.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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