Operação revela túneis do Estado Islâmico próximo a Mossul

Hélène Sallon

Em Bazwaya, o Exército iraquiano aproveita o sistema de defesa dos jihadistas e seu arsenal abandonado

O alerta foi dado às 2h da manhã de quarta-feira (26). Movimentos foram detectados em um túnel revelado em Mouaskar Jenine, um subúrbio de Bazwaya,  menos de 5 km a leste de Mossul.

Na véspera, duas unidades das forças antiterroristas iraquianas (a Divisão de Ouro), conduzidas pelo major Salam Jassem Hussein, se encaminharam para esse subúrbio próximo, libertado após quatro horas de ofensiva.

Talvez ainda haja combatentes da organização Estado Islâmico (EI) escondidos na vasta rede de túneis escavados ao longo de uma dezena de quilômetros entre Bartella, 4km mais a leste, e Mossul. Essas trincheiras, recobertas de lona e terra, em certos pontos chegam a ter 7 metros de profundidade e 3 metros de largura.

"Os jihadistas utilizavam pequenas motos para transportar os combatentes, seus equipamentos e seus armamentos fora das vistas dos aviões de observação", explica o sargento-major Satar Jaber, encarregado da inteligência militar.

Junto com cerca de vinte homens armados, o homem de 50 e poucos anos foi até o local no meio da noite.

Ali Abdul Hassan/AP
Soldado da força de elite iraquiana caminha por túnel feito pelo EI em Bartella, no Iraque

"O major Salam ordenou que barrássemos a saída do túnel e queimássemos pneus e gasolina para enchê-lo de fumaça. Mas não encontramos ninguém", ele conta. Os homens voltaram de mãos vazias duas horas e meia mais tarde, e foram correndo para suas camas tirar algumas horas de sono.

Levou mais de um dia para deixar seguro Mouasker Jenine, que se revelou repleto de surpresas. O EI havia transformado esse subúrbio, conquistado em junho de 2014, em um acampamento militar para centenas de combatentes.

Alguns deles ainda estavam lá quando chegou a Divisão de Ouro, mas a maior parte fugiu nos dias que antecederam a ofensiva para os últimos vilarejos antes de Mossul, deixando para trás parte de seu arsenal.

Em uma oficina à beira da estrada principal, as forças especiais iraquianas se moviam com precaução em meio aos explosivos. Minas antitanque, galões de explosivos C4, cilindros de oxigênio, pó de alumínio etc., o catálogo do perfeito pirotécnico do EI quase completo. Em frente à oficina, cilindros de metal destinados a serem colocados embaixo do asfalto, uma vez carregados de explosivos, foram deixados empilhados.

As luxuosas mansões do subúrbio abundam em vestígios de vida deixados pelos soldados do "califado". Na mansão branca que antes abrigava uma escola, as carteiras dos alunos permanecem em frente a uma lousa onde estão anotadas as características técnicas e o manejo dos lança-foguetes RPG.

Na porta de um dos cômodos, onde há empilhados capacetes e uniformes militares de cor bege, um combatente escreveu: "Não há outro Deus além de Alá. Este é o quarto de seu irmão Abou Ayoub. Não entre!"

Em um outro casarão, formulários de autorização em papel timbrado do EI se encontram esparramados pelo chão. Um deles, datado de 27 de maio, autoriza o combatente Abou Doua a tirar um dia para ir rezar na mesquita. O tipo de arma que ele carrega consigo, um fuzil JC, é especificado. Em uma outra habitação, computadores, rádio, material de divulgação e gravações da célula de mídia foram abandonados às pressas.

Ali Abdul Hassan/AP
Soldado da força de elite iraquiana inspeciona túnel feito pelo EI em Bartella (Iraque)

O sargento-major Mohamed Baker descobre, emocionado, a casa de seu tio. Em meio às roupas espalhadas e objetos deixados pelos jihadistas, ele encontrou fotos antigas de família. Ele se apressa para fotografá-las e enviá-las por SMS.

É um magro consolo para esse militar de 32 anos de olhos e pele clara, que acaba de descobrir que sua própria casa, situada no vilarejo misto xiita-turcomeno de Tshkharab, a poucos quilômetros de Bartella, havia sido destruída na véspera por um ataque da coalizão em apoio à ofensiva dos combatentes curdos peshmergas.

"Eu tinha um monte de coisas importantes lá dentro", ele lamenta. "Talvez a casa de minha irmã em Tarbazawah tenha sido destruída também. Ela estava a dez metros da escola que foi bombardeada na segunda-feira, durante nossa ofensiva."

Um dos casarões no final da rua se tornou ponto de peregrinação para os generais e jornalistas de passagem. É possível ver um canhão passando a casa. A face leste da construção foi destruída e seu subsolo foi escavado para esconder um tanque. 

O major Salam entra na cabine e movimenta a peça de artilharia, diante do olhar entusiasmado de seus homens. A máquina está funcionando perfeitamente. "O número de série não é o de um tanque do Exército iraquiano. Parece ser um tanque sírio", ele afirma. "Nós recebemos a informação através de uma fonte de que havia um tanque no campo iraniano. Não sabemos como eles o levaram até lá."

O "campo iraniano" foi o primeiro ponto de contato no subúrbio entre as forças antiterroristas e os combatentes do EI. Situado na borda leste de Bazwaya, esse complexo de quatro prédios, construído pelo ex-ditador Saddam Hussein para ali trancafiar os prisioneiros iranianos durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), serviu de praça-forte aos jihadistas.

Seus muros exibem buracos de todos os lados, resultado dos ataques da coalizão. Sua ponta norte agora marca uma das novas linhas de frente com o EI. Mossul, olhando tudo do alto, agora está ao alcance dos canhões.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos