Grifes de luxo alimentam as lucrativas fazendas de crocodilos na Austrália

Caroline Taïx

  • David Gray/ Reuters

    Crocodilo em um lago de uma fazenda de crocodilos na Austrália

    Crocodilo em um lago de uma fazenda de crocodilos na Austrália

"Sintam a barriga. É essa parte que as marcas de luxo disputam", diz o guia para os turistas enquanto segura firmemente o crocodilo, nessa fazenda do nordeste da Austrália. O focinho do réptil está amordaçado. Ele só tem 14 meses e mede 80 cm, mas poderia facilmente arrancar um dedo. Dezenas de congêneres habitam o mesmo tanque junto com ele. Daqui a um ano ou dois, no máximo, os mais belos serão vendidos às grandes grifes de moda para virar bolsas que custam milhares de euros, cintos, pulseiras de relógio...

A fazenda Hartley's Crocodile, de propriedade de Angela Freeman e de seu marido, fica situada na entrada das florestas tropicais de Queensland, perto de Cairns, no nordeste da Austrália. "É o habitat ideal para os crocodilos. O tempo é úmido e o termômetro chega a atingir 40 graus"", explica a proprietária. Mas não precisa ir até as fazendas para observá-los: esses crocodilos marinhos, também chamados de crocodilos de estuário, encontrados principalmente no norte da Austrália, na Papua Nova-Guiné e na Indonésia, reinam tanto nos rios das regiões costeiras quanto no mar. São muito agressivos e podem medir até 7 metros.

A Hartley conta com aproximadamente 3 mil crocodilos. Três quartos da receita são provenientes da atividade turística, e o resto vem da criação. Angela Freeman vende entre 800 e 1.000 peles por ano, a um preço médio de 800 dólares australianos (cerca de R$ 2 mil). "É uma pequena produção", ela acredita. Os clientes são basicamente grupos franceses, cujos nomes a diretora não está autorizada a revelar, uma vez que o fornecimento a marcas de luxo é um assunto delicado.

"Uma lista de espera de sete anos"

Em compensação, não é segredo para ninguém que a Louis Vuitton e a Hermès constam entre os grandes criadores de crocodilos do norte da Austrália. "Elas controlam a maior parte da produção", segundo a proprietária. Nos últimos anos, sobretudo entre 2012 e 2014, várias fazendas foram compradas pelas duas empresas parisienses e fecharam suas portas aos turistas. A Hermès teria adquirido duas delas em Queensland e duas no Território do Norte.

Patrick Thomas, então presidente da Hermès, já explicava em 2009 durante uma conferência sobre o luxo organizada pela agência de notícias Reuters: "À vezes são necessários de três a quatro crocodilos para fazer uma única de nossas bolsas, então nós criamos nossos próprios crocodilos em nossas próprias fazendas, principalmente na Austrália". "Para certos tipos de pele, a lista de espera é de sete anos", ressaltou o presidente da empresa do Faubourg Saint-Honoré, acrescentando com um sorriso: "O mundo não está repleto de crocodilos, exceto na Bolsa de Valores."

O crocodilo marinho é muito requisitado porque sua pele é considerada mais bela que a de outras espécies. "Seu padrão de escamas é mais refinado e isso se reflete diretamente no couro", explica John Lever, proprietário da fazenda Koorana, onde se encontram 6 mil répteis, no sul de Queensland. Este último tem notado uma exigência crescente de seus clientes: "Antes, conseguíamos vender toda pele proveniente de um crocodilo marinho. Agora as grandes marcas exigem a perfeição". Essa qualidade tem um preço: as bolsas de Crocodylus porosus estão atingindo recordes, como durante os leilões da Artcurial, em maio de 2013. Uma bolsa Birkin, uma das vedetes da Hermès, foi vendida a 63.800 euros (R$ 228 mil).

Cerca de 1,4 milhão de peles de crocodilos e de jacarés foram vendidos no mundo em 2012, segundo um relatório publicado em 2015 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Isso inclui, entre outros, os jacarés-americanos exportados pelos Estados Unidos, os crocodilos-do-nilo vendidos no sul da África e, bem atrás, os crocodilos marinhos. Cerca de 73.300 peles dessa espécie foram colocadas no mercado em 2012, sendo 60% pela Austrália, a maior exportadora. A ilha-continente triplicou sua produção entre 2002 e 2011 e agora teria quase 200 mil crocodilos em cativeiro.

90 mil ovos retirados da natureza

O potencial de crescimento do mercado é tanto que, no início de 2016, o Território do Norte publicou um plano para desenvolver um setor que vale US$ 25 milhões australianos nesse Estado, sendo que o objetivo é dobrar esse número até 2020. Para isso, até 90 mil ovos poderão ser retirados da natureza, 40% a mais que antes, para serem incubados nas fazendas, e 1.200 crocodilos, duas vezes mais que hoje, capturados para reprodução.

Como o crocodilo marinho é uma espécie protegida, é proibido usar a pele de animais que se encontram na natureza. Todas as peles exportadas pela Austrália são provenientes de fazendas de criação, cujo trabalho é longo e custoso. "Assim que os crocodilos atingem determinado tamanho, cerca de 1,20 metro, eles começam a brigar pelo território e se ferem, deixando marcas", diz Lever, que vende suas peles a um curtume na Itália. Os crocodilos devem então ser separados e colocados em espaços individuais. "É o único meio de se obter uma pele de qualidade", ressalta o criador. No momento da venda, por volta dos 3 anos de idade, eles medem entre 1,70 m e 2 m.

Apesar da desaceleração do crescimento do setor de luxo, os pedidos recebidos por John Lever e Angela Freeman continuam polpudos. "A indústria do luxo é cíclica. Nós atravessamos altos e baixos", reconhece Freeman. "Mas trabalhamos duro para aumentar a qualidade de nossas peles. E somos sempre procurados por compradores e intermediários, então continuo tendo confiança", ela conta. "Em caso de queda na demanda internacional, as grandes marcas manterão as compras de crocodilos marinhos, mas diminuirão as encomendas de outras peles", acredita Lever, que até o momento recusou as propostas de compra de sua fazenda por investidores estrangeiros, esperando que seus filhos assumam o negócio.

Tradutor: UOL

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