Em Mossul, a amea�a de um caos humanit�rio

Allan Kaval

  • Bulent Kilic/AFP

    Refugiados iraquianos recebem comida no campo de Khazir, entre Irbil e Mossul

    Refugiados iraquianos recebem comida no campo de Khazir, entre Irbil e Mossul

Mais de 50 mil pessoas fugiram da cidade desde o início da ofensiva contra a organização Estado Islâmico

Mohammed Abdoulsalem, de 30 e poucos anos, deixou sua casa em Mossul, no Iraque, na noite passada. Ele dormirá junto com sua família debaixo de uma tenda nesta noite.

No vasto acampamento de deslocados de Khazir, na intersecção de duas estradas de cascalho e poeira, rodeado por sua mulher e seus filhos pequenos, ele tira um pedaço de papel de seu bolso, onde uma mão apressada anotou um número que identifica o abrigo que aguarda sua família.

Eles vêm de um bairro situado a leste de Mossul, próximo da linha de frente urbana que separa as forças especiais iraquianas de zonas ainda controladas por jihadistas.

"As forças iraquianas nos disseram que podíamos ficar em nossas casas. Mas houve tiros e explosões. Tivemos medo de que o Daesh (acrônimo árabe da organização Estado Islâmico, o EI) voltasse para nosso bairro", ele conta.

Assim como milhares de habitantes da grande cidade situada às margens do Tigre, e de sua periferia, ele preferiu, na semana passada, as incertezas do exílio aos perigos de uma cidade em guerra. Com suas bolsas que ele mal consegue fechar, esse ex-funcionário da prefeitura de Mossul, que virou eletricista durante o domínio do EI, agora morará atrás de uma cerca de arame farpado, a cerca de 30 km de sua casa.

Khazir abriga quase 17 mil deslocados, um número que vai aumentando a cada dia. O acampamento está situado a leste de Mossul. A região acolheu o maior número de pessoas expulsas de suas casas pelos combates desde o início das operações militares que visam a libertação da cidade, há um mês. No dia 15 de novembro, mais de 56 mil pessoas haviam sido registradas pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) como deslocadas em torno de Mossul.

Ao deixarem a cidade, os homens em idade de combate passam por um primeiro controle realizado pelas forças iraquianas com o intuito de detectar, no meio da multidão, familiares, partidários e membros infiltrados do EI. Os nomes e as informações pessoais dos suspeitos são registrados em um arquivo elaborado com base em informações coletadas pelas forças de segurança. No caso de Mohammed, essa triagem se revelou sumária.

"Eles verificam as identidades daqueles que querem sair do país. Mas isso só levou alguns minutos por pessoa. Havia gente demais ao mesmo tempo, não havia tempo para fazer mais." No entanto, podem acontecer prisões.

Acampamento fechado

Assim como as outras instalações criadas para acolher os deslocados, a leste de Mossul, o acampamento de Khazir se encontra sob administração curda. Ele fica situado entre a zona militar para onde as forças armadas iraquianas são enviadas e o território da região autônoma do Curdistão iraquiano.

Os recém-chegados que são transportados para Khazir de ônibus ou de caminhão pelas forças iraquianas devem por isso se submeter a novas verificações feitas pelos curdos. Na zona de controle separada do resto do acampamento pela qual eles passam, seus nomes são novamente anotados, suas identidades são retiradas.

Bulent Kilic/AFP
Menina refugiada caminha pelo campo de Khazir (Iraque) carregando cobertores

Khazir é um acampamento fechado. Se um desses ocupantes for considerado suspeito, ele será preso no recinto após verificação. São "frequentes" as detenções para averiguação, segundo um oficial curdo que se negou a revelar qualquer número.

Enquanto esperam um retorno a seus bairros de origem, que eles esperam que seja rápido, certos moradores do acampamento reveem parentes, amigos e membros de suas famílias dos quais eles foram separados pela guerra. Os reencontros se dão em todo o cercado.

Do lado de fora, Ismail, que conseguiu sair do seu vilarejo depois que foi pego pelo EI, reencontrou seu amigo e vizinho Fazil, que permaneceu em territorio jihadista, após mais de dois anos sem noticias. Fazil conseguiu avisar seus parentes sobre sua chegada ao acampamento de Khazir. Por dezenas de metros, ao longo do cercado, apertos de mão, provisões, um pouco de dinheiro, sorrisos e adeus são trocados através das grades. Conhecer alguém do lado de fora é uma sorte para os moradores do acampamento.

"Poderemos não dar conta"

As obras de adaptação não estão concluídas. Os recém-chegados cruzam, ao longo dos caminhos já repletos de lixo, com operários que terminam de instalar linhas elétricas ou dão continuidade a obras de escavação.

As instalações tampouco estão em plena capacidade, mas as primeiras deficiências, ainda limitadas, vão surgindo. Falta água potável, e a dos reservatórios destinados ao banheiro com o qual os deslocados precisam se contentar, é salobra. Para os recém-chegados, faltam cobertores, sendo que as noites têm ficado cada vez mais frias.

O fluxo de pessoas continua gradual e controlado. Mas os desafios humanitários associados à operação de libertação de Mossul só estão começando. E a hipótese de um desastre continua provável para os atores humanitários atuantes no local. "Os níveis atuais de deslocamento correspondem ainda a nossas estimativas de trabalho. Mas os desafios maiores estão diante de nós com a parte oeste da cidade", acredita Lise Grande, coordenadora humanitária da ONU no Iraque.

As zonas mais densamente povoadas, situadas à margem direita do Tigre, a oeste de Mossul, na parte mais antiga da cidade, estão longe de serem atingidas pelas forças de segurança iraquianas. "Se tiver de ser feito um deslocamento grande da população, ele provavelmente virá do oeste da cidade. É lá que a parte mais longa e mais dura da batalha pode acontecer", diz Grande.

Caso o pior cenário venha a se tornar realidade, mais de 1 milhão de pessoas poderiam ser deslocadas pelos combates, segundo a ONU. Só que as instalações de acolhimento construídas ou programadas não estão prontas.

"No final do mês de novembro, teoricamente poderíamos chegar a uma capacidade de acolhimento de 240 mil pessoas", espera Bruno Geddo, representante no Iraque do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

No dia 14 de novembro, somente 64% dos US$ 284 milhões (R$ 972 milhões) pedidos a seus doadores pela ONU, para enfrentar um fluxo maciço de população, haviam sido pagos. O ritmo no qual os terrenos necessários para a construção de novos acampamentos estão sendo adquiridos e reservados poderá ser insuficiente.

"Estamos muito preocupados. Se um fluxo maciço e repentino acontecer, poderemos não dar conta. A complexidade da resposta humanitária em torno de Mossul está ligada à dimensão dessa cidade e de sua população. Essa poderá ser a pior catástrofe humanitária desde Ruanda", alerta Geddo.

Embora, segundo ele, as forças armadas devam garantir às populações a possibilidade de permanecer onde estão para evitar deslocamentos muito grandes, as incertezas pesam bastante sobre o planejamento humanitário: "Muitas questões permanecem sem resposta, não sabemos qual é o posicionamento militar do EI, se eles pretendem destruir a cidade ou ir embora. Rumores também podem desencadear fluxos grandes de populações. Uma das chaves é a confiança dessas últimas nas forças de segurança iraquianas."

Essa confiança por ora existe, mas ela permanece condicionada aos desdobramentos posteriores da batalha. "Os combates só estão começando. As atuais demandas humanitárias são a parte visível do iceberg em relação àquilo que o futuro nos reserva", resume Geddo.

Tradutor: UOL

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