Mundo �rabe precisa superar a ideologia pol�tica que chama de isl�, diz conselheiro de Trump

Antoine Vitkine

  • AFP

    12.set.2016 - Foto publicada na página da Presidência da Síria no Facebook mostra o presidente Bashar al-Assad (4º a partir da direita) durante oração na mesquita Saad ibn Moaz de Daraya

    12.set.2016 - Foto publicada na página da Presidência da Síria no Facebook mostra o presidente Bashar al-Assad (4º a partir da direita) durante oração na mesquita Saad ibn Moaz de Daraya

Michael Flynn, 58, foi um dos principais conselheiros de política externa do presidente eleito Donald Trump durante sua campanha. O general aposentado, que entre 2012 e 2014 dirigiu a inteligência militar, é cogitado como possível secretário da Defesa, diretor da CIA ou conselheiro para segurança nacional. Durante as filmagens de um documentário, "Bashar, moi ou le chaos" ["Bashar, eu ou o caos"], cuja exibição está prevista para breve na France 3, o jornalista Antoine Vitkine o entrevistou no dia 26 de maio, em Washington.

Pergunta: O senhor assumiu o comando da inteligência militar em 2012, antes de sair em 2014. Qual foi sua divergência com a administração Obama?

Michael Flynn: Na Síria, nós vimos desde cedo jihadistas estrangeiros vindo de toda parte. Eu havia passado uma década lutando contra essa gente, no Iraque, no Afeganistão, na África Oriental, no Norte da África. Ninguém quis prestar atenção. A administração Obama optou por ignorar meus alertas, que não coincidiam com a história que ela queria contar. Entramos em ano eleitoral: Bin Laden foi morto, a Al-Qaeda foi desmantelada.

Pergunta: O presidente sírio, Bashar al-Assad, não tem uma responsabilidade na situação atual? Ele se absteve de combater a organização Estado Islâmico (EI) e soltou jihadistas da prisão

Flynn: Assad é um ditador brutal. Ele usou armas químicas contra sua própria população. Ele cometeu todos os erros possíveis. Em 2011, em vez de aceitar reformas, ele reprimiu manifestações e desencadeou uma guerra civil. Já os insurgentes eram espertos, dotados de competências militares e recursos financeiros. Quando Assad cometeu erros, eles tiraram vantagem disso e todos os radicais começaram a vir, milhares deles a cada mês.

Um novo Oriente Médio nasceu ao longo dos últimos anos, criando novas fronteiras e cada vez mais guerras. Isso continuará a impactar a Europa. Será preciso enfrentar esses problemas de forma coletiva. Os dirigentes árabes devem assumir suas responsabilidades. Eles não podem fechar os olhos e dizer que isso não lhes diz respeito, comemorar que os jihadistas estejam indo à Europa em vez de ficar em seus países.

Nós temos um grande problema, que ninguém quer reconhecer, por causa do politicamente correto: é o islã. Essa religião é um problema. Não estou falando do mundo muçulmano, mas do islã. O mundo árabe precisa superar a ideologia política que ele chama de islã.

Pergunta: O senhor quer dizer o islamismo?

Flynn: Sim, o islamismo. Estudem Maomé! Nós entendemos como tudo isso começou. Ao longo desse século, será preciso sair disso, levará tempo, talvez décadas. Do contrário, teremos conflitos eternos.

Pergunta: Depois do ataque químico de 2013, Obama não interveio militarmente contra Assad

Flynn: Essa foi uma decisão terrível. O primeiro erro que ele cometeu foi anunciar que tínhamos uma "linha vermelha", que era o uso de armas químicas, como Obama declarou em 2012. Então ficamos expostos a sermos testados. A decisão de não intervir foi um erro, causando-nos uma grande perda de credibilidade, no Oriente Médio e em todos os outros lugares.

Pergunta: Essa intervenção poderia ter levado a uma mudança de regime em Damasco?

Flynn: Sim, nossa intervenção teria sido devastadora para o regime sírio. Ela teria enviado uma mensagem forte a todos os ditadores tentados a violar as leis internacionais. Não deveríamos ter deixado Assad se livrar assim. Mas a verdadeira questão é: o que vocês vão fazer depois? É preciso voltar à origem da chegada das forças ocidentais ao Oriente Médio, em 2001 (invasão do Afeganistão) e em 2003 (invasão do Iraque).

Foram cometidos erros trágicos. O principal foi a incapacidade de entender aqueles que vínhamos ajudar. Nós tentamos impor nossos valores, nosso modo de vida, tentamos fazer a "construção dos Estados" em vez de simplesmente combater o inimigo e permitir que o povo tivesse o Estado de sua escolha.

Pergunta: Depois de ter explicado que havia sido um erro ajudar os rebeldes sírios, o senhor criticou Obama por sua vontade de não se envolver em uma mudança de regime na Síria. Isso não é contraditório?

Flynn: Deveríamos ter feito essa pergunta antes de ir para o Afeganistão, o Iraque ou a Líbia, antes que esses países virassem desastres. Isso não significa que seja preciso desistir de derrubar ditadores brutais que martirizam suas populações ou grupos como o EI.

Pergunta: A guerra da coalizão contra o EI é eficaz?

Flynn: Ela está subdimensionada. Se você não tem certeza de que vai ganhar, não se deve entrar! Os Estados Unidos, a França, todos os países investem nos conflitos. Nesse jogo somos muito bons: comprar mais armas, dar mais armas, jogar bombas. Ora, os problemas do Oriente Médio têm a ver não com a guerra, mas com governos instáveis, sistemas ruins de educação, um sistema socioeconômico baseado em um único recurso, o petróleo. É preciso investir na estabilidade, não na guerra. Isso não quer dizer que não teremos guerra. Mas poderíamos ter apagado o fogo já em 2011.

Pergunta: O senhor diria que os Estados Unidos devem ser mais realistas, apostar em regimes estáveis, ainda que eles sejam ditatoriais?

Flynn: Absolutamente. É preciso começar a compreender os governos e as sociedades, e fazer pressão sobre seus dirigentes. Saddam Hussein era brutal. Deveríamos ter lhe dito: se quiser se tornar respeitável, vir à ONU, você deve fazer tal ou tal coisa. Não estamos lhe pedindo que se torne um democrata, mas você deve pelo menos aceitar um certo número de normas e valores. É a mesma coisa com o Irã, um país que representa um problema considerável. Essas pressões devem ser impostas por uma diplomacia dura, não pela diplomacia politicamente correta que consiste em apertos de mãos. Se essas pessoas não entendem, existem outros meios de pressão, como a econômica. Mas é preciso fazer isso antes, não quando for tarde demais.

Pergunta: Os dirigentes ocidentais não estão sob pressão de suas opiniões públicas, que os levam a intervir diante de crises humanitárias, como na Líbia?

Flynn: Eu estudei a guerra da Argélia. A lição que tiro disso é que é difícil se impor a uma população local que não queira você. Nas guerras, não são os Estados-maiores que decidem uma vitória, são as populações.

Pergunta: Qual diplomacia está adaptada a esses tempos conturbados?

Flynn: Veja a China. Ela está investindo na estabilidade, enquanto gastamos nosso dinheiro em conflitos no Oriente Médio.

Pergunta: Os chineses não querem mudar o mundo.

Flynn: Querem, mas no ritmo deles.

Pergunta: Trump uma hora é intervencionista, outra hora é isolacionista. Ele não parece ter uma linha clara.

Flynn: Assim como na guerra, ele tem atacado as fraquezas de seus adversários. Os que o conhecem sabem que ele tem uma visão estratégica do mundo, da maneira como nós, os Estados Unidos, podemos ter um papel mais forte para tornar o mundo mais seguro do que todas essas loucuras nas quais nos envolvemos.

 

Tradutor: UOL

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