Como a direita israelense quer vencer Netanyahu

Piotr Smolar

  • Thomas Coex/AFP

    Vista geral do assentamento de Amona, na Cisjordânia

    Vista geral do assentamento de Amona, na Cisjordânia

Benjamin Netanyahu sempre sonhou em ter à sua frente um presidente republicano na Casa Branca. Mas ele nunca teria apostado em Donald Trump.

Acostumado com os bastidores do Congresso, onde ele dispõe de poderosos contatos, o primeiro-ministro israelense agora se encontra em uma posição desconfortável. O presidente eleito é uma incógnita, uma vez que suas declarações de campanha sobre o conflito entre Israel e Palestina foram contraditórias. Rodeado por uma mistura inédita de conselheiros próximos da direita israelense, mas também de figuras antissemitas, Donald Trump contribui para uma forma de insegurança política em torno de Netanyahu, cuja principal força motriz está em sua própria maioria.

Há anos o chefe do governo vem explorando o padrinho americano e suas reprimendas verbais inócuas para adiar ou contornar as escolhas fundamentais que se apresentam para o Estado judaico, quase 50 anos após o início da ocupação na Cisjordânia.

Israel continua sendo um Estado com diversas fronteiras incertas, que sofisticou seu sistema jurídico e militar de dominação de um outro povo sem se decidir a anexar seu território.

Sem muita convicção, Netanyahu continua alimentando a ideia de que ele é favorável, sob determinadas condições, a um Estado palestino. Mas a chegada de Donald Trump, apoiado por um Partido Republicano que retirou de sua plataforma este verão qualquer referência à solução de dois Estados, tem empolgado a direita nacional religiosa israelense.

O líder do Lar Judaico, Naftali Bennett, está vendo se abrir uma sequência única para enfraquecer Netanyahu, sem necessariamente desejar sua queda imediata. A rivalidade entre os dois homens, que antes eram próximos, já dura anos.

Durante as eleições em março de 2015, Netanyahu havia conseguido "sugar de canudinho" o eleitorado de Bennett, para usar a expressão deste. O Lar Judaico foi então reduzido a oito cadeiras das 120 na Knesset. Mas o partido conseguiu colocar seu líder no Ministério da Educação e Ayelet Shaked no Ministério da Justiça.

Bennett acredita que a verdadeira briga política em Israel não é entre a direita e a esquerda, mas sim entre ele e Netanyahu. Segundo ele, nenhum candidato de esquerda ou de centro reuniria uma maioria na Knesset. O ex-empresário brinca: "Quando Netanyahu se levanta de manhã, ele pensa em mim." 

O primeiro-ministro seria obcecado pela ideia de não ser superado junto ao eleitorado radical. Bennett reconhece que hoje ele não tem capacidade de assumir seu lugar, mas ele está preparando sua vitória ideológica. Ele alega ter vencido 60% das decisões [no Parlamento] desde as últimas eleições.

A volta do caso Amona

É nesse contexto que surge, ou melhor, que volta, o caso Amona. Esse é o nome do mais famoso posto avançado judeu na Cisjordânia, situado no topo de uma colina perto do assentamento de Ofra. Há cerca de uma centena deles, construídos sem autorização a partir de meados dos anos 1990, muitas vezes em terras particulares palestinas.

A Justiça exigiu a retirada das 40 famílias que vivem em Amona até o dia 25 de dezembro, mas a resistência está sendo preparada. A última demolição de diversas casas nesse posto avançado em 2006 provocou confrontos violentos entre os colonos e o Exército.

Amona é um teste existencial. Como se esgotaram os recursos para evitar o despejo, a direita nacional religiosa esboçou um projeto de lei para legalizar todos os postos avançados, que foi aprovado em conselho ministerial e depois em análise preliminar na Knesset, na quarta-feira (16). Essa lavagem política marcaria uma ruptura histórica e o abandono de fato da solução dos dois Estados.

Naftali Bennett sabe que o Supremo Tribunal certamente vetaria o projeto de lei, caso passasse em todas as votações na Knesset. O procurador-geral, Avichai Mandelblit, já manifestou ser contra. Mas o líder de extrema-direita de qualquer maneira terá conseguido popularizar seu programa, com a adesão de quase todos os ministros do Likud. Ele ilustra a incapacidade de Netanyahu de manter a disciplina tanto dentro do governo quanto dentro de seu próprio partido, e o leva a abrir mão da ambiguidade da qual ele tanto gosta.

Este sempre foi bom nos golpes táticos, ao mesmo tempo em que não propunha nenhum grande plano para o país. "Viver sempre com a espada na mão", como ele prometeu em outubro de 2015, não pode fazer as vezes de uma visão estratégica.

Nesta semana, Netanyahu teve de escolher entre opções ruins. Sua recusa em admitir a expulsão dos colonos de Amona, exigida desde dezembro de 2014 pela Justiça, está vindo assombrá-lo. Vetar o projeto de lei da extrema-direita desde o começo seria perder o eleitorado de colonos, já furioso por suas esquivas quanto às construções de casas nos assentamentos.

Deixar a Knesset livre, enquanto espera a censura do Supremo Tribunal, representa um consentimento silencioso, ruim para sua imagem e a de Israel no exterior. Restam três análises no Parlamento para afinal sair pela porta dos fundos.

São tempos ainda mais delicados pelo fato de que Barack Obama continua escondendo suas intenções a respeito de uma possível iniciativa no Conselho de Segurança a respeito do conflito entre Israel e Palestina. O presidente em final de mandato poderia pressionar por uma resolução para condenar a colonização, ou até mesmo estabelecer de forma definitiva os parâmetros de uma solução negociada.

É verdade que seria um legado só no papel, mas que a administração Trump teria dificuldades para desfazer. Ela colocaria em evidência os excessos messiânicos e territoriais da direita israelense.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos