Estilo do chanceler britânico deixa os políticos europeus horrorizados

Philippe Bernard

  • Andrew Matthews/ Reuters

As provocações de Boris Johnson continuam a horrorizar os europeus. "Não consigo mais respeitar isso. Quando você quer sair de um clube, você não tem mais que opinar sobre o futuro a longo prazo desse clube!", disse nesta semana Manfred Weber, presidente alemão do PPE (Partido Popular Europeu, grupo conservador no Parlamento europeu), próximo da chanceler Angela Merkel.

O motivo? Durante a campanha do referendo sobre o Brexit, Johnson quis deixar as pessoas com medo de que houvesse uma invasão de turcos no Reino Unido caso eles permanecessem na União Europeia. Mas depois da votação ele foi visitar o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, propondo ajudar a Turquia a entrar na União Europeia.

Enquanto as exigências contraditórias dos britânicos e a pouca clareza sobre seu plano para o Brexit vão irritando cada vez mais os europeus, o chefe da chancelaria britânica atrai a raiva das pessoas com suas piadas provocadoras, seu amadorismo e sua linguagem grosseira.

"Menos prosecco"

O sintoma mais perfeito desse mal estar foi o episódio do prosecco. No dia 16 de novembro, Johnson disse o seguinte a Carlo Calenda, ministro do Desenvolvimento Econômico italiano, que era contra a exigência de Johnson de acesso ao mercado único sem uma livre-circulação de pessoas: "Então vocês vão vender menos prosecco para nós!". Calenda considerou que "colocar os problemas nesse nível era meio insultante" e retrucou no mesmo tom: "Tudo bem, venderei menos prosecco para um país enquanto você venderá menos fish and chips para 27 países!"

Não se passa um dia sem que um dirigente europeu se sinta desprezado, ou até humilhado, pelas tiradas do loiro descabelado. Isso porque Boris Johnson continua se comportando à frente da chancelaria como o encrenqueiro, muitas vezes grosseiro e desonesto, que era como jornalista e depois prefeito de Londres. Ele substituiu "prosecco" por "champanhe" ao se dirigir aos franceses, que sentiram nisso uma condescendência, e por "BMW" com os alemães, que não acharam nada engraçado.

A cena do prosecco se tornou um símbolo de europeus se unindo para zombar do ministro britânico. Uma foto de Michel Barnier, chefe das negociações com os britânicos, saboreando uma taça de espumante italiano, foi postada por um amigo seu na rede social Twitter.

A um jornal tcheco, Boris Johnson disse considerar uma "idiotice" a ideia segundo a qual a liberdade de circulação seria um princípio fundador da União Europeia, sendo que ela consta no Tratado de Roma de 1957. E Jeroen Dijsselbloem, ministro holandês das Finanças, o acusou de prometer "aquilo que é impossível intelectualmente" e "politicamente não disponível".

Quanto ao ministro alemão das Relações Exteriores, Frank Walter Steinmeier, ele não suportaria "se encontrar no mesmo recinto" que o chefe do diplomacia britânica. O "Daily Mail" chegou a relatar que o ministro britânico havia chegado a uma reunião sobre o Brexit sem ter lido os documentos preparatórios.

Boris Johnson, que no passado foi popular por suas palhaçadas na prefeitura de Londres, e que ficou tão surpreso com sua vitória no referendo sobre o Brexit que desistiu do posto de primeiro-ministro, não causa mais risadas. Seu perfil de bufão não combina com seu papel iminente: convencer o mundo de que o Reino Unido pós-Brexit continua sendo um país aberto.

"Bizarrice sem limites"

O "Financial Times" critica sua "bizarrice sem limites" e sua inconstância. Já o "The Guardian" o acusa de "semear um caos inútil no lamentável processo do Brexit". Mesmo o conservador "Times" ressalta o constrangimento dos diplomatas britânicos de terem em sua liderança um ministro "que se comporta como uma criança."

Mas para a primeira-ministra Theresa May, a presença de Boris Johnson no governo é uma garantia de tranquilidade. O líder dos "pró-Brexit" é menos perigoso para ela quando ocupado percorrendo o mundo do que passando seu tempo exacerbando a divisão entre os conservadores sobre a Europa.

Mas por quanto tempo o incontrolável chefe da diplomacia continuará sendo um trunfo, sendo que ele tende a enfraquecer e desacreditar o país pelo mundo? Theresa May já o descartou teoricamente de qualquer papel central na gestão do Brexit e vem inventando pequenas humilhações: ela o obrigou a dividir a sede do Ministério de Relações Exteriores e não o convidou a participar de sua viagem para a Índia.

Piada ou ameaça? A primeira-ministra criou um mal-estar, no início de novembro, depois que um velho lorde foi acusado de ter matado seu cão, durante uma cerimônia de premiação na qual os convidados costumam competir nas piadas. Theresa May disse, olhando para seu ministro das Relações Exteriores: "Boris, o cachorro foi sacrificado quando seu dono decidiu que ele não servia para mais nada."
 

Tradutor: UOL

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