Opinião - Merkel: no, she can't

Arnaud Leparmentier

  • Michael Sohn/AP

Funciona assim com os ícones: eles são julgados mais por aquilo que são do que por seus atos. Foi assim com Barack Obama, laureado com o Prêmio Nobel da Paz só por ter ter sido o primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos. O mesmo vale para Angela Merkel, que na ocasião da viagem de Obama pela Europa, voltou a carregar a suposta bandeira de líder do mundo livre. E ela aproveitou para se declarar candidata a um quarto mandato. Dezesseis anos! Será que essa perspectiva vale tantos elogios assim?

Obama está deixando como legado um mundo menos seguro e entregando os Estados Unidos para Donald Trump: provavelmente será necessária uma autocrítica. O mesmo vale para a chanceler alemã, que está no poder há 12 anos e não poderia se isentar de qualquer responsabilidade sobre a situação da Europa. Esta se encontra em ruínas, e Merkel está mais para "Trümmerfrau", as corajosas mulheres que sozinhas removeram as ruínas de Berlim em 1945, do que para uma chanceler que constrói.

Então espera-se no mínimo um plano. O primeiro chanceler da República federal, Konrad Adenauer, obteve um adiamento definitivo para selar a reconciliação franco-alemã com Charles de Gaulle em 1962-1963. Helmut Kohl cumpriu um mandato a mais, antes de ser derrotado em 1998, mas foi para lançar o euro e garantir a unidade da Europa depois da unidade da Alemanha.

Merkel propunha ser uma âncora de estabilidade em um mundo em desintegração. Em sua declaração de candidatura, ela alimentou a lenda da física ponderada: "Preciso de tempo. As decisões demoram. Mas depois me atenho a elas".

Uma outra interpretação é possível, como a de uma política que não cede nada por ideologia ou estratégia antes de precisar abrir mão repentinamente de tudo para evitar um desastre. A litania de suas mudanças bruscas é conhecida: em 2008, após a falência do Lehman Brothers, Merkel estava prestes a provocar um novo desastre ao deixar quebrar o banco Hypo Real Estate; sua abordagem moral sobre a falência grega acelerou a crise do euro; ela se decidiu pelo fim da energia nuclear em uma noite, após a catástrofe de Fukushima em 2011, e abriu sozinha em 2015 suas portas aos imigrantes. Sem diálogo, sem se preocupar com as consequências de suas decisões sobre seus parceiros.

Em suma, Merkel é respeitada porque ela é a dona da economia mais poderosa do continente, certamente não por sua capacidade de estabelecer uma meta, quando não uma meta moral inútil uma vez que somente a Alemanha é capaz de cumprir. Só que hoje não fazer nada é afundar. E Merkel não propõe nada, ou quase nada. Ela é a chanceler dos "conflitos congelados", por não ter a coragem ou o capital político para atacá-los.

Merkel deixou que fosse criada uma divisão entre Norte e Sul da Europa, entre vencedores e perdedores do euro. Ela acelerou a divisão Leste-Oeste, com antigos países do Leste se recusando a acolher imigrantes diante de um Oeste multicultural. Sua ação solitária na questão do nuclear mandou para os ares qualquer política de energia e transformou a UE em um mau exemplo na questão climática.

Ela vem assistindo à denúncia do deficit democrático da Europa, mas quase não dá atenção a isso: ao controlar os principais grupos parlamentares em Estrasburgo, ela consegue impor as visões alemãs na Europa. Ela se regala ao falar sobre guerra e paz, mas sempre encontra um pretexto para não fazer uma intervenção imediata. Simbolicamente, ela fala somente com seus paroquianos através do Bundestag, e não se digna a conceder uma entrevista à mídia francesa para o centenário do massacre de Verdun.

Esse julgamento seria ouvido se a Alemanha de Merkel não fosse extraordinariamente próspera, e seus parceiros particularmente medíocres. Ela não ouve as críticas porque é efetivamente a mais virtuosa, seja quanto a suas finanças, quanto aos refugiados ou quanto ao funcionamento democrático. A Alemanha anda tão bem que ela se torna umbiguista e não vê as consequências ambivalentes de sua política: boa em casa, muitas vezes devastadora para seus vizinhos.

E seu sentimento de superioridade que se tornou cultural a torna incapaz de compreender que o mundo não funciona em Atenas, Madri ou Paris da mesma forma como em Berlim. Ela não entende que seu superavit superior a 8% do PIB não é somente um atributo de sua virtude: em um mundo sem desvalorização, ele é um veneno que acabará destruindo o euro.

Os mais críticos a comparam ao fariseu do Evangelho de Lucas (18, 9-14) que se vangloria de sua superioridade sobre o publicano: "Deus, agradeço a ti por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros ou mesmo como esse publicano".

Sabemos que o Evangelho rebaixa o fariseu e eleva o publicano, pois este demonstra humildade (não é  de fato o caso dos europeus não-alemães). Desnecessário buscar a sentença de Deus. Seria possível resolver o assunto se a Alemanha aceitasse seu papel de líder benevolente, se ela conseguisse internalizar em sua política interna os problemas dos outros. Os alemães bancam os falsos ingênuos, ao explicar que sua história lhes proíbe de assumir qualquer responsabilidade.

Helmut Kohl fazia isso, certificando-se de apoiar os países menores e comemorando nos anos 1990 o fato de que a Alemanha estava pela primeira vez em paz com seus vizinhos e abandonou o marco alemão porque sua hegemonia acabaria levando à revolta de seus parceiros, e portanto seria prejudicial para a Alemanha a longo prazo.

A política alemã está dilapidando essa lei implacável. Nesse contexto, seria Merkel a pessoa idônea para salvar a Europa e resolver os conflitos congelados? A resposta, infelizmente, reside na inversão da frase de Obama: "No, she can't".


 

Tradutor: UOL

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