Americanos e britânicos monitoram telefones de passageiros em voos comerciais

Jacques Follorou

  • Eric Salard/Creative Commons

A americana NSA e sua equivalente britânica conseguem captar todos os dados, inclusive códigos secretos, de telefonemas de passageiros da maior parte das companhias aéreas, inclusive a Air France

Dentro do imenso estoque de arquivos extraídos por Edward Snowden, ex-analista da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA), há uma preciosidade. Ela começa com uma adivinhação: "O que o presidente do Paquistão, um contrabandista de charutos, um traficante de armas, um alvo do contraterrorismo e o membro de uma rede de proliferação nuclear têm em comum? Todos eles usaram seus celulares durante um voo."

A charada apareceu em 2010 em um dos boletins internos de um dos principais diretórios da NSA, "SIDtoday", classificada como ultraconfidencial, e anunciava a emergência de um novo campo da espionagem, que ainda não havia sido explorado: a interceptação de dados de comunicações feitas a bordo de aviões comerciais. Em 2009, a NSA destacou em um documento interno que, em dezembro de 2008, 50 mil pessoas já haviam usado seu celular durante um voo, um número que chegou a 100 mil em fevereiro de 2009. Para explicar esse aumento, a NSA enumera os fatores: "Os aviões estão cada vez mais bem equipados, está diminuindo o medo de acidentes de avião devido ao uso do celular, não é tão caro quanto se pensava (...) O céu parecia pertencer à NSA."

No final de 2012, foi a vez do Government Communications Headquarters (GCHQ), equivalente britânico da NSA, de revelar, em uma apresentação "top secret strap", um dos mais altos níveis de classificação, o programa Southwinds ("ventos do sul"), criado para coletar todo o tráfego dos celulares, comunicações por voz, dados, metadados e conteúdo das conexões feitas a bordo dos aviões comerciais. A zona ainda está limitada às regiões (Europa, Oriente Médio e África) cobertas pelos satélites Inmarsat.

A coleta de dados é feita "quase em tempo real" e um avião pode ser rastreado a cada dois minutos. Para espionar um telefone, basta que ele esteja a uma altitude de cruzeiro de 10 mil pés. Como o sinal transita por satélite, a interceptação pode ser feita através de estações secretas de antenas em solo. Só o fato de o telefone ser ligado já é suficiente para localizá-lo, e a interceptação pode então ser cruzada com o registro das listas de passageiros e os números dos voos, para determinar o nome do usuário do smartphone.

O GCHQ pode até mesmo perturbar, à distância, o funcionamento de um telefone de forma que seu usuário seja obrigado a reiniciá-lo com seus códigos de acesso, e ao mesmo tempo os serviços britânicos interceptam seus logins.

Uma obsessão

O GCHQ e a NSA batizaram suas operações de vigilância das comunicações em avião com nomes de pássaros: "Pega ladra" e "Pombo-correio", como mencionou Glenn Greenwald, jornalista americano, em sua obra de 2014 "No Place to Hide". Greenwald, juntamente com Laura Poitras, foi o depositário dos documentos de Snowden. Ambos são cofundadores do site de notícias "The Intercept."

Uma leitura atenta da apresentação dessas operações, bem como de outras peças inéditas dos arquivos Snowden, consultadas pelo "Le Monde" em colaboração com o "The Intercept", sobre a espionagem feita entre 2005 e 2013 de aviões e seus passageiros no mundo inteiro, prova que a companhia Air France atraía uma atenção especial desses dois países amigos, os Estados Unidos e o Reino Unido.

A Air France aparece como alvo já desde 2005, como revelou um documento da NSA que estabelece as linhas gerais do projeto de "rastreamento de aviões civis no mundo inteiro". Datado de 5 de julho e assinado pelo segundo nome mais importante de um dos principais diretórios da NSA, encarregado da inteligência de origem eletromagnética (Signal Intelligence Directorate, SID), esse memorando de 13 páginas fornece em ordem cronológica uma lista detalhada das principais etapas desse programa pensado para evitar "um novo 11 de setembro". O documento diz que, desde o final de 2013, "a CIA considera que os voos da Air France e da Air Mexico são alvos em potencial de terroristas". O departamento jurídico da NSA especificou então "que não havia nenhum problema legal em ter como alvo os voos dessas duas companhias no exterior" e que "eles deverão estar sob alta vigilância assim que entram no espaço aéreo americano". Em fevereiro de 2005, esses mesmos advogados ressaltaram o procedimento legal a ser seguido, "em especial para a coleta das ligações feitas a bordo dos aviões".

A designação da Air France como um grande risco para os interesses e o território americanos não era uma simples hipótese de alguns técnicos-espiões da NSA. Um círculo impressionante de autoridades encarregadas da segurança do país foi informado sobre o "perigo" representado pela companhia francesa. O memorando da NSA foi enviado a cerca de 20 destinatários, entre eles o Comando de Defesa Aérea Norte-Americana, a CIA, o departamento de Segurança Interna, a Agência de Inteligência Espacial, a Agência de Inteligência da Defesa e ainda o Estado-maior da aeronáutica. Essa obsessão com a Air France continuou ao longo dos anos e não foi por acaso.

Espólios de guerra

A Air France testou pela primeira vez o uso a bordo de um smartphone no voo AF1046, no dia 17 de dezembro de 2007, no trecho Paris-Varsóvia. "Começamos cedo", confirmou ao "Le Monde" a direção da Air France, "mas desde então não paramos mais de fazer testes e hoje, assim como outras companhias, estamos nos preparando para passar diretamente para o Wi-Fi a bordo." Questionada pelo "Le Monde" a respeito das práticas dos serviços secretos anglo-saxões, a companhia francesa respondeu com reserva: "Nós claramente não fomos os únicos visados, e não sabemos absolutamente nada sobre essas práticas."

Em 2012, o GCHQ observou que 27 companhias já permitiam aos passageiros o uso do celular ou estavam prestes a fazê-lo, sobretudo na primeira classe e na classe executiva dos voos de longa duração. Entre elas, a British Airways (somente dados e SMS), Hong Kong Airways, Aeroflot, Etihad, Emirates, Singapore Airways, Turkish Airlines, Cathay Pacific e Lufthansa. Mas a Air France está tão associada à vigilância das ligações feitas em voos que os serviços britânicos usaram um croqui de página inteira de um de seus aviões para ilustrar o funcionamento da interceptação em voos na sua apresentação.

Para provar seu know-how, o GCHQ e a NSA forneceram inúmeros exemplos de ligações interceptadas a bordo de voos comerciais de outras companhias. Entre eles, os dados interceptados no dia 23 de março de 2012, às 13h56, no voo ETD8271 da Etihad, dos Emirados Árabes Unidos, entre o JFK e Denver; no dia 20 de maio de 2011 em um voo da Aeroflot entre Nice e Moscou; no mesmo ano, em um voo da Qatar Airways entre Milão e Doha e entre Atenas e Doha, da Saudi Airlines entre Jeddah e Cairo ou ainda da Oman Air, entre Paris e Mascate. A coleta também foi conduzida em BlackBerries, cujos códigos PIN e endereços de e-mail foram identificados em um avião no dia 2 de janeiro de 2012 às 10h23, mas que não incluía nem o destino, nem o nome da companhia aérea. Os espólios de guerra são anunciados orgulhosamente: comunicações de voz, dados, SMS, e-mails, chats, redes sociais (Facebook, Twitter etc.), aplicativos de viagem, Google Maps, conversores de moeda, mídia, VoIP, BitTorrent e Skype.

No decorrer de seus exercícios de intrusão, os serviços secretos britânicos descobriram, um tanto surpresos, que eles não eram os únicos interessados nessas comunicações em voos. Eles notaram que a companhia russa Aeroflot havia criado um sistema de conexão específica para os telefones GSM a bordo de suas naves, "provavelmente para realizar interceptações...", observa a agência em uma nota técnica.

Nenhum limite para a vigilância

Hoje, cerca de cem companhias permitem que se use o celular a bordo. "Os clientes agora consideram normal, ou até necessário, permanecer conectados durante o voo", afirma a direção da Air France. Todas as autoridades de segurança aérea validaram o uso de telefones GSM a bordo dos aviões e os especialistas acreditam que 2016, 2017 e 2018 entrarão para a História como os anos do celular em voos, sobretudo pela instalação perene do Wi-Fi em pleno ar. Isso aumentará ainda mais o escopo da espionagem, com "centenas de milhares de pessoas" a serem monitoradas, segundo projeções da NSA, ou seja, um perímetro que ultrapassa de longe os alvos ligados somente ao terrorismo. Aliás, a espionagem política ou econômica dos passageiros de primeira classe ou classe executiva em voos de longa distância interessa bem mais aos serviços de inteligência.

Não há limites para a vigilância, e cada novidade é um desafio técnico que parece ser aceito rapidamente. Os serviços de inteligência parecem até mesmo meio desinteressados. Os técnicos-espiões da NSA, em um boletim interno de 2010, já estavam com a cabeça lá na frente: "Qual será o próximo campo de experimentação? Os trens? Precisamos continuar de olho."

Tradutor: UOL

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