UOL Notícias Internacional
 

23/03/2002

Cientistas simulam vida em Marte dentro de módulo em Utah

The New York Times
Elaine Harden

Hanksville, EUA ­- No deserto de pedras vermelhas, a oeste de Hanksville, seis pessoas inteligentes estão vivendo em algo parecido com um silo de milho, cheirando a meia suja.

Eles procuraram este lugar especial para manter um comportamento pouco ortodoxo. Um mórmon chamado Ebenezer Hanks veio para cá por volta de 1880 com múltiplas esposas, e ninguém o incomodou. Os seis peregrinos atuais estão praticando um estilo de vida ainda mais estranho e mais isolado: de quem vive em Marte.

Eles saem com macacões espaciais brancos, colados com fita adesiva. Seus capacetes são feitos de plástico e tampas de lixo brancas, com formato de projétil. Em seu módulo habitacional (a coisa que parece um silo), eles trabalham em seus laptops até tarde, nas noites frias do deserto, digitando relatórios dos desastres marcianos simulados.

"O vendo arranca o telhado", Bjoern Grieger, comandante de missão e astrofísico do Instituto Max Planck de Aeronáutica, na Alemanha, escreveu em seu diário na semana passada, depois que ventos de 95 km/hora arrancaram portas e janelas do módulo, expondo seus habitantes ao tempo.

"Felizmente, até mesmo ventos de alta velocidade não causariam muito dano em Marte, porque a densidade do ar é muito mais baixa que na Terra. De outro modo, teríamos que nos considerar mortos agora".

A simulação de vida no Planeta Vermelho, nesta construção alta, que parece uma lata, no sul de Utah, é o mais recente esforço de um plano privado para persuadir o governo federal a enviar seres humanos para o planeta vermelho. A idéia é convencer o governo da possibilidade de enviar missão tripulada para Marte mais cedo e gastando menos do que programado pela Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa).

O projeto é da Sociedade Marte -­grupo com cerca de 5.000 associados de 29 países, muitos dos quais são cientistas espaciais, sendo que alguns têm altos cargos na Nasa. A Sociedade quer enviar homens e mulheres para Marte nos próximos 10 anos, a um custo de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 23 bilhões), muito menos que as estimativas anteriores da Nasa.

A Nasa disse que nem vai pensar em uma missão tripulada para Marte antes de 2020, quando uma nave não tripulada fará uma viagem de ida e volta ao planeta. A Sociedade Marte admite que será difícil aprovar a missão sem ajuda federal, mas acredita que pode conquistar publicidade.

O modesto módulo faz parte do plano central de Zubrin para angariar apoio. Construído com cerca de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,3 bilhões) em doações privadas à sociedade, é a segunda de quatro estações (uma foi aberta no Ártico em 2000). As estações têm o intuito de ensinar a biólogos, geólogos, engenheiros e físicos a trabalhar juntos em um local semelhante a Marte, sem enlouquecer.

Viver em uma simulação de Marte requer ridículo entusiasmo. Os quartos do módulo são basicamente armários, sem janelas, apertados (exceto pelo do comandante, que é um armário apertado com janela). Os membros da equipe podem usar o chuveiro a cada quatro dias. Quando o vento sopra de certa direção, o cheiro do banheiro de composto insinua-se pelo andar superior, onde o grupo cozinha, come e escreve. Refeições de terráqueos são preparadas em uma chapa quente.

Apesar de serem obcecados com espaço, os seis membros da equipe são realistas quanto as suas chances de chegarem lá.

Esta estação é definitivamente terráquea, mas é o que há de mais próximo a uma viagem interplanetária que sua tripulação jamais vivenciará. Então, eles tiram o melhor proveito dela. Recentemente, por exemplo, eles pularam em seus macacões para caminhar no único solo marciano que pisarão.

A última caminhada aconteceu no entardecer. Tiffany Vora, 22, bióloga da equipe e aluna de doutorado de biologia molecular de Princeton, tinha visto que um cometa talvez estivesse visível no início da noite. O módulo tem uma conexão de Internet via satélite, mas não tem televisão, nem telefone.

Todos os seis membros da tripulação saíram para inspecionar o céu da noite ridiculamente claro do Utah. Em uma montanha do deserto, levantaram suas cabeças e alegraram-se com a visão das estrelas, planetas e da Lua que lançava sombras bem definidas na noite. Vora começou a rir.

De repente, ocorreu-lhe que, se ela e seus colegas descobrissem alienígenas neste exato momento, no deserto, absolutamente ninguém na Terra acreditaria. Quem acreditaria em seis pessoas que estão fingindo estar em outro planeta?

Todos caíram na gargalhada. Depois, caminharam de volta ao módulo habitacional e cozinharam o jantar.

Tradução: Deborah Weinberg Ciência

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