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04/05/2002

Ser humano pode ter mais genes do que se imaginava

The New York Times
Andrew Pollack
The New York Times
Em Nova York (EUA)

Dois estudos científicos publicados nesta semana sugerem que pode haver muito mais genes humanos do que se imaginava, ou pelo menos que o genoma humano tem níveis ocultos de complexidade que estão apenas começando a ser revelados.

Ambos os estudos dizem que as células humanas produzem muito mais RNA, a contraparte do material genético DNA, do que o correspondente aos cerca de 30 mil a 40 mil genes humanos.

"Então o que este RNA está fazendo?" disse o dr. Thomas R. Gingeras, vice-presidente de ciências biológicas da Affymetrix, uma empresa de biotecnologia, e chefe de um dos estudos. "Esta é a questão chave para a qual ainda não temos uma resposta".

Os genes são seqüências de DNA que especificam a receita para as proteínas, que executam a maioria das funções do corpo. Quando uma proteína é produzida, o DNA do gene é "transcrito" no RNA correspondente, que então transporta o código para a proteína ao local na célula onde são feitas as proteínas. Assim, imagina-se que a presença do RNA indique a presença de um gene ativo.

Mas os estudos sugerem que muito RNA está sendo feito de DNA que não faz parte dos genes conhecidos. O estudo dos cientistas da Affymetrix, que foi publicado na sexta-feira na revista Science, estima que possa haver 10 vezes mais DNA transcrito em RNA do que pode ser explicado pelos genes conhecidos.

Uma possível explicação é a de que haja mais do que os 30 mil a 40 mil genes estimados pelas duas equipes que seqüenciaram o genoma humano. As estimativas foram surpreendentes, porque significavam que os complexos seres humanos tinham apenas cerca de 50% a mais de genes do que um simples nematóide, que tem cerca de 19 mil. As estimativas foram feitas em grande parte por análises de computador da seqüência do genoma, e alguns cientistas há muito tempo defendem que muitos genes estão faltando.

"Nós achamos, com base nestes dados preliminares, de que há provavelmente o dobro de genes do que as pessoas imaginam", disse o dr. Victor E. Velculescu, professor assistente da Universidade Johns Hopkins e autor do outro estudo, publicado na edição de maio da revista Nature Biotechnology.

Mas o dr. Eric Lander do Instituto Whitehead, em Cambridge, Massachusetts, líder do Projeto Genoma Humano financiado publicamente, defendeu a velha estimativa. "Não há evidência nestes estudos de que há mais genes codificadores de proteínas", disse ele. O que há, ele disse, é evidência de mais transcrição de DNA em RNA. Mas ele disse que ainda não se sabe quanto deste RNA tem uma função biológica.

Gingeras da Affymetrix disse que tende a achar que o RNA detectado pelo seu estudo não estava codificando proteínas, mas realizando alguma outra função.

Mesmo assim, disseram alguns cientistas, há uma possível explicação ainda mais intrigante para as novas descobertas: a de que o RNA tenha um papel bem maior do que o de mensageiro para a produção de proteínas. Os cientistas sabem há muito tempo que alguns RNAs fazem outras coisas, como regular certas funções celulares ou formar parte da estrutura da célula. Mas os novos estudos acrescentam evidências de que há muito mais por trás do RNA do que se pensava, de que há mais genes que produzem RNA como um produto final em si, e não como um degrau para uma proteína.

"Ou o genoma está repleto de transcrição inútil ou existe algo acontecendo que não esperávamos", disse John S. Mattick, professor de Biologia Molecular na Universidade de Queensland, na Austrália.

O dr. Sean Eddy, um pesquisador assistente do Instituto Médico Howard Hughes da Universidade de Washington, em Saint Louis, disse: "Está começando a parecer que há muito mais coisas acontecendo além do conjunto central de 30 mil genes".

Uma pista, disse Eddy, vem de uma nova evidência de que os genomas humano e do rato têm aproximadamente mais do que o dobro de seqüências de DNA em comum do que seria previsto apenas com base nos genes codificadores de proteína. Isto sugere que há outras partes do genoma além da parte codificadora de proteína que eram importantes para serem preservadas ao longo da evolução.

Mas Eddy alertou que pode ser que as células sejam apenas desleixadas, transcrevendo mais DNA em RNA do que o necessário. Se for assim, grande parte deste RNAs não teria nenhuma função.

A Affymetrix produz chips de DNA, que podem detectar seqüências particulares de RNA ao verificar se elas se unem às seqüências equivalentes de DNA no chip. Neste estudo, os cientistas fizeram chips com DNA cobrindo virtualmente todos os cromossomos 21 e 22. Eles descobriram que o RNA nas células de câncer humano combinavam com muitas partes do DNA além dos 770 genes bem caracterizados destes cromossomos.

Os cientistas da Johns Hopkins usaram um sistema que detecta trechos curtos de RNA. Os trechos foram seqüenciados e combinados a seu ponto correspondente no genoma. Eles descobriram que um terço das seqüências combinava com uma parte do genoma que não continha um gene conhecido, disse Velculescu.

Tradução: George El Khouri Andolfato Ciência

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