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28/06/2002

Goleiro impetuoso é considerado fundamental para as chances da Alemanha contra o Brasil

The New York Times
Jere Longman
The New York Times
Em Seul (Coréia do Sul)

Reuters
o goleiro alemão Oliver Kahn treina para a final da Copa do Mundo
Suas costeletas não combinam com o homem, ao sugerirem uma outra época, de maior indiferença, mas ninguém jamais chamou Oliver Kahn de indiferente. As costeletas se estendem por todo o comprimento do seu rosto como traves, e parece que nenhuma distração desponta entre elas.

O impetuosamente determinado Kahn permitiu apenas um gol em seis partidas, o que explica como a Alemanha conseguiu chegar até a final da Copa do Mundo com uma equipe que carece de talento e imaginação. Se ele não levar nenhum gol contra o Brasil no domingo em Yokohama, Japão, ele estabelecerá um novo recorde do torneio de defesa menos vazada.

"Nós sabíamos que se quiséssemos ir longe nesta Copa do Mundo, nós precisaríamos do fantástico Oliver Kahn", disse Rudi Voeller, o técnico alemão.

A Alemanha não foi excelente nas últimas semanas, até mesmo surpreendendo a muitos, mas nada impressionante. Como disse Bruce Arena, o técnico americano, a equipe domina o sucesso do medíocre. Suas últimas três partidas, incluindo a semifinal de terça-feira(25) contra a Coréia do Sul, terminaram em 1 a 0, a vitória mais minguada. Nada espetacular, apenas o suficiente.

Ao ser perguntado sobre se a Alemanha estaria na final sem Kahn, o atacante Marco Bode disse: "Provavelmente não".

"Ele provavelmente é nosso jogador mais importante", disse Bode. "O capitão".

Christoph Metzelder, o jovem defensor, foi mais direto.

"Se você assistiu a partida contra os Estados Unidos viu que, se não fosse por Kahn, nós teríamos perdido", disse ele, se referindo a vitória da Alemanha sobre os Estados Unidos por 1 a 0, na sexta-feira passada.

E não será mais fácil para a Alemanha no domingo(30). Ronaldo, o recuperado atacante do Brasil, lidera a artilharia da Copa do Mundo com seis gols. E a Alemanha não contará com seu meio-campista mais confiável, Michael Ballack, que marcou três gols e deu quatro assistências, por ter levado o segundo cartão amarelo. Como sempre, a Alemanha levantará a bola na área, buscando um gol de cabeça, e então recuando para uma forte retranca, na esperança de que Kahn se mantenha inexpugnável.

"O plano é não levar um gol, e esperar para ver o que acontece lá na frente", disse o defensor Thomas Linke. "Nós sempre temos chance de marcar um gol".

É uma ambição modesta, mas com Kahn no gol, uma possibilidade. Ele é o melhor goleiro desta Copa do Mundo e, como muitos sugeriram, o melhor goleiro do mundo. Esta é sua terceira Copa, mas a primeira em que joga. Ao ser perguntado recentemente como suportou o banco de reservas em 1994 e 1998, Kahn disse: "À noite, eu mordia meu travesseiro, e pela manhã eu saía do quarto com um sorriso no rosto".

Aos 33 anos, ele transformou suas deficiências em virtudes. Antes impaciente, abandonando cedo demais sua posição, Kahn agora fica quieto e espera, serenamente, pelo atacante tomar sua decisão. Nas quartas-de-final, ele permaneceu preparado durante a investida do atacante americano Landon Donovan, e então estendeu sua mão direita como um guarda de trânsito impedindo a tentativa. Saltando à direita nos tiros longos, ele tem o alcance e o reflexo de um shortstop (entre-bases, um apanhador de bolas no beisebol).

"Seu raciocínio na posição é provavelmente o melhor do mundo", disse Bode. "Ele não faz coisas que não gosta. Ele não se afasta de sua posição. Sua movimentação é perfeita, rápida. E você sempre se sente seguro quando recua a bola para ele".

Além disso, há outra coisa. Apesar de suas costeletas serem incorrigíveis, seu autocontrole não é. Mas nem sempre foi assim. Há vários anos, enquanto defendia seu clube, o Bayern de Munique, Kahn quase mordeu Heiko Herrlich do Borussia Dortmund. Ele disparou um golpe de pé ao estilo kung fu contra outro jogador do Dortmund, Stephane Chapuisat. Ele parecia impetuoso demais, incapaz de se controlar, e se tornou alvo de piadas. Harald Schmidt, um apresentador de talk-show e imitador de David Letterman, começou a dizer que Kahn parecia um macaco. Os torcedores começaram a fazer grunhidos de "ooh, ooh, ooh" e a jogar bananas para ele. Um o atingiu com uma bola de golfe, o que provocou um sangramento.

Um homem sério que estuda economia, atua no mercado de ações e que também estuda psicologia e história, Kahn percebeu que tinha que controlar suas emoções. Raiva não era uma forma saudável de motivar a si mesmo. "Não é possível ver o adversário como um inimigo como eu fazia antes", ele disse aos repórteres alemães.

Seu novo controle se manifestou durante a final da Copa dos Campeões de 2001, o principal torneio de clubes da Europa, no qual ele defendeu três pênaltis contra o Valencia, da Espanha. Quando Donovan avançou na sua direção durante a partida de quartas-de-final com os Estados Unidos, Kahn permaneceu diante de Donovan, e então mergulhou e pegou a bola em seus pés.

"Ele está diferente", disse sobre Kahn seu companheiro de time, Dietmar Hamann. "Ele está sempre exigindo mais de si mesmo, sempre buscando melhorar. Ele se dedica muito à sua técnica".

Não importava a modesta saída da Alemanha na primeira rodada dos campeonatos europeus de 2000, ou o fato de ter sido humilhada em casa ao perder por 5 a 1 para a Inglaterra nas eliminatórias para a Copa do Mundo. Se ninguém mais acreditava na seleção, Kahn acreditava. Ele precisava convencer as pessoas. Após a magra vitória por 1 a 0 contra os Estados Unidos, ninguém menos que Franz Beckenbauer, a lenda alemã que conquistou a Copa do Mundo tanto como jogador quanto como técnico, disse: "É preciso mudar todos os jogadores do time, exceto Oliver Kahn. Se você botar todos os outros jogadores em um saco e começar a bater, você certamente atingirá alguém que merece".

Sem se abalar, Kahn continuou dizendo que a Alemanha era capaz de fazer algo especial na Copa do Mundo. Se ninguém estava dando ouvidos antes, agora todos estão. "Assim que você chega à final, você quer vencê-la", disse ele. Com Kahn no gol, as chances são tão grandes quanto suas costeletas.


Tradução: George El Khouri Andolfato

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