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29/06/2002

Brasil admite que a seleção sabe jogar um pouco

The New York Times
Larry Rother
The New York Times
No Rio de Janeiro

Em janeiro, os brasileiros tinham tão pouca confiança na seleção que uma concessionária de automóveis propôs o seguinte acordo: se o Brasil ganhasse a Copa do Mundo, a concessionária devolvia a entrada de todos que tivessem comprado carro na loja.

"Acho que vou ter que devolver todos os cheques", disse o proprietário, Rodrigo Campos, nesta semana, admitindo uma perda de US$ 11 mil (cerca de R$ 30 mil) com a promoção. "Mas quando chegar a hora do jogo, não vou ficar pensando no dinheiro. Vou torcer pelo Brasil, é claro".

Que diferença em poucos meses! A seleção brasileira, antes da Copa, era freqüentemente considerada um fracasso, no país e no exterior, com um técnico irascível e pouco popular. No domingo (30), entrará em campo na final contra a Alemanha, depois de conquistar, pouco a pouco, a torcida exigente e volúvel brasileira.

A cada vitória no Japão neste mês, o entusiasmo e a confiança da torcida cresceram. As lojas e os prédios do governo foram decorados tardiamente com bandeiras, cartazes e murais, nas cores nacionais verde e amarelo. Os fãs desconfiados, que diziam que não iam assistir os jogos que começavam às 3h30, no horário local, vêm faltando ao trabalho, depois de ter sua paixão pelo jogo reanimada.

"Temos que dar crédito aos jogadores", disse Narciso Modesto de Souza, que faz entregas para uma loja de eletrodomésticos, na manhã de sexta-feira(28), enquanto carregava o caminhão. "Nunca pensei que os jogadores chegariam às quartas de final, e já estão na final, dando um banho em quem não acreditava neles".

O Brasil é o único país que entrou em todas as 17 Copas do Mundo e venceu quatro torneios. Portanto, os brasileiros esperam excelência de sua seleção e desdenham qualquer desculpa pelo fracasso. A seleção deste ano perdeu partidas classificatórias contra Bolívia, Equador e Paraguai, o que levou à demissão de dois técnicos. O Brasil só conseguiu uma vaga na Copa com a vitória na última partida classificatória.

O sucesso inesperado do time também forçou muitos comentaristas e analistas famosos, inclusive o Pelé, melhor jogador da história, a comerem suas palavras. Sob a manchete "O futebol está cheio de estupidez," um importante jornal publicou, na quinta-feira(27), várias das previsões erradas feitas antes do início da Copa do Mundo.

"Com base no que eles vêm fazendo, a Argentina e a França merecem a posição de favoritas", disse Pelé, na época. "Depois a Itália e Inglaterra, e por fim, Portugal, Espanha e Brasil"

É verdade que os brasileiros têm a humildade de reconhecer que têm tido sorte durante essa Copa. As saídas precoces e inesperadas da Argentina e da França, combinadas com as vitórias impressionantes da Coréia do Sul sobre a Itália e a Espanha, tornaram o caminho brasileiro para a final muito mais fácil e renovaram, para os torcedores, a esperança no destino.

"Os argentinos podem falar o que quiserem sobre a mão de Deus", disse Getulio Ferreira Abreu, manobrista, referindo-se ao famoso gol de Maradona contra Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986. "Mas nós sabemos que Deus é brasileiro".

Agora que a fé dos brasileiros em sua seleção foi restaurada, nenhum detalhe passa desapercebido. Os jornais e rádios vêm debatendo qual uniforme o time deve usar no domingo. Alguns argumentam que os melhores jogos do Brasil foram com o azul e outros acreditam que o amarelo dá mais sorte.

No início da semana, Ronaldo, o artilheiro da Copa, com seis gols, cortou o cabelo, deixando apenas um tufo na testa; agora, ele se parece um personagem de quadrinhos brasileiro, chamado Cascão. Para mostrar seu apoio à estrela do time e, talvez, para dar mais sorte, torcedores em todo o país vêm adotando o corte.

O forte desempenho de Ronaldo silenciou muitos críticos, que achavam que ele era muito fraco fisica e psicologicamente, por causa de seu misterioso colapso antes da final de 1998 contra a França e suas recentes contusões.

"Estamos vendendo tantas camisas com o número nove de Ronaldo que não dá para acreditar", disse Maria Mercês Ferreira Ximenes, vendedora de uma loja de artigos esportivos.

Quanto ao técnico Luiz Felipe Scolari, conhecido como Felipão, ainda há controvérsia. Apesar do sucesso da equipe, os torcedores continuam a discordar de sua ênfase na defesa e a reclamar que o Brasil não está marcando gols o suficiente. Alguns ainda se ressentem de sua decisão de não escalar Romário, segundo maior artilheiro da história da seleção brasileira.

"Na semifinal contra a Turquia, na quarta-feira(26), perdemos muitas oportunidades de marcar gol", reclamou Samuel Alves da Silva, segurança. "Isso não teria acontecido se Romário estivesse em campo. Ele teria enfiado a bola direto na rede".

Houve também sugestões desagradáveis do escândalo de corrupção que abalou o futebol brasileiro nos últimos dois anos. A Confederação Brasileira de Futebol já anunciou que, se o Brasil vencer a Copa do Mundo, a seleção fará uma excursão pelo Brasil, mas não visitará Brasília, capital do país. Aparentemente o gesto é um tapa no Congresso, que vem investigando desfalques e corrupção por proprietários de times e funcionários da confederação.

"Isso é tolice", disse nesta semana o presidente Fernando Henrique Cardoso. "O Brasil está unido. O Palácio Presidencial está com o povo e com os jogadores e não está pensando na CBF".

Assim como os outros 175 milhões de brasileiros, Cardoso expressou confiança em relação resultado da final contra a Alemanha, outra equipe subestimada antes da Copa. "Se jogarem como vêm jogando, com garra e técnica e todo o Brasil torcendo por eles, chegarão lá", previu.

No entanto, alguns torcedores preocupam-se que o país, tendo duvidado da seleção de Scolari, agora pode ter caído no outro extremo, de excessiva confiança. Eles evitam as manchetes ou os gritos de "já somos pentacampeões", que surgiram assim que a vitória da Turquia foi assegurada, na quarta-feira.

"Tendo contrariado as expectativas de todos e chegado aonde chegou, é melhor a seleção vencer no domingo", disse Sonia Cleve, aposentada. "Agora está todo mundo torcendo e esperando a vitória. Se perderem, Felipão e os jogadores serão massacrados".


Tradução: Deborah Weinberg Copa do Mundo

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