UOL Notícias Internacional
 

01/10/2002

Empresa norte-americana lança exame que avalia perfil racial

The New York Times
Nicholas Wade
The New York Times

Uma empresa da Flórida está oferecendo um exame de DNA que, segundo ela, é capaz de avaliar o perfil racial do cliente e, caso este seja mestiço, a proporção de cada raça presente em seu código genético.

Alegando ser "o primeiro serviço de exames genômicos recreativos do mundo", a empresa, DNAPrint Genomics Incorporation, afirma que o exame será útil para aquelas pessoas interessadas nas suas origens, assim como para objetivos mais práticos, como "validar os pré-requisitos para o ingresso na universidade ou para receber benefícios governamentais, baseados em critérios raciais".

Cada exame custa US$ 290 (cerca de R$ 1.090), ou US$ 160 (cerca de R$ 600) para um período inicial, e é realizado com DNA de células retiradas, com um cotonete, da mucosa da boca do indivíduo.

Segundo Tony Frudakis, biólogo molecular e diretor-executivo da empresa, o exame ajudará "a sepultar os mitos nos quais se baseia o racismo", ao demonstrar que, "em todos nós, especialmente nos Estados Unidos, há uma grande variedade de ancestrais".

Mas geneticistas que não pertencem aos quadros da empresa expressaram reservas quanto à precisão do teste, afirmando que há ainda uma quantidade relativamente pequena de dados a respeito das diferenças genéticas entre grupos étnicos.

"Em tese, é possível estimar a extensão da miscigenação, mas os números não serão muito precisos", afirma Stephen J. O'Brien, geneticista populacional do Instituto Nacional do Câncer, ao se referir à proporção de diferentes ancestralidades em pessoas miscigenadas.

Frudakis diz que o exame se baseia em um conjunto de marcadores genéticos, conhecidos como SNPs, que foram, em sua maioria, obtidos em bancos públicos de dados. Os SNPs são locais ao longo do genoma humano onde "letras" químicas alternativas de DNA, o material genético, são comumente encontradas. As "letras" presentes nesses locais variam de uma pessoa para outra.

Trabalhando com Mark Shriver, da Universidade do Estado da Pensilvânia, a DNAPrint Genomics desenvolveu um conjunto de SNPs que se constituem no diagnóstico do continente de origem de determinado indivíduo, afirma Frudakis. Essas cinco áreas geográficas correspondem aos grandes grupos populacionais humanos, ou raças: "nativos americanos, asiáticos orientais, asiáticos meridionais, europeus, africanos sub-Saarianos, etc.", de acordo com o Web site da companhia.

Os SNPs foram validados ao terem sido testados em um conjunto de pessoas das cinco áreas continentais, e a precisão do teste básico foi avaliada por meio da comparação dos resultados com registros conhecidos, afirma Frudakis.

Todas as populações humanas possuem o mesmo conjunto de genes e, em sua maioria, o mesmo conjunto de formas variantes desses genes, herdados de espécies predecessoras. Mas as pequenas diferenças, em sua maior parte desvios na freqüência de variações genéticas comuns, se acumularam com o passar do tempo em diferentes populações em todo o mundo. O estudo dessas diferenças veio a público em grande parte como subproduto de duas outras linhas de pesquisa que se tornaram possíveis graças ao projeto genoma humano. Uma é a capacidade de se rastrear antigas migrações que se originaram da África, a partir de diferentes padrões de alterações de DNA que se acumularam entre populações de cada continente, gerando um substancial isolamento, umas em relação às outras.

A outra linha investigativa, quanto à identidade de genes variantes que causam doenças, demonstrou o fato de que grupos étnicos diferentes parecem possuir padrões diferentes de causalidade genética, o que levou os cientistas do setor biomédico a especularem se a raça é um fator que deveria ser levado em consideração nos estudos das doenças. A maior parte dos pesquisadores ainda está relutante em estudar raças sob tal prisma, e o exame da DNAPrint parece ir além de tudo o que foi publicado na literatura científica.

Segundo David B. Goldstein, geneticista populacional do University College, de Londres, é errôneo supor que a população humana se encaixe em cinco grupos exatos, conforme dão a entender os pesquisadores da DNAPrint. Para ele, o padrão real deverá demonstrar ser bem mais complicado. "Esse exame realmente vai um pouco longe demais ao se detalhar em determinados grupos, de uma maneira que não conta com evidências científicas", critica.

Mas o exame poderia, a princípio, fornecer informações válidas para que se avalie o grau relativo de herança de um indivíduo, baseado em duas populações, tais como africanos ocidentais e europeus, afirma Goldstein.

Ele e O'Brien manifestam preocupação quanto a possibilidade de que exames como o da DNAPrint causem mais danos do que benefícios. Caso a promessa do projeto genoma humano seja cumprida e a informação genética começar a fluir para as clínicas, "a população vai necessitar de contar com um grande índice de confiança naquilo que os geneticistas lhe diz e, portanto, este tipo de abordagem casual é muito perigosa, já que pode tornar o público cético quanto a informações genéticas", diz Goldstein.

Mas Shriver acha que o exame é benéfico. "O resultado final é que estamos rompendo com uma classificação baseada em dicotomias", afirma. O que ele quer dizer é que, ao invés de rotular as pessoas como brancas ou negras, o exame revelará um espectro contínuo de ancestralidade entre os afro-americanos e outros grupos étnicos.

O espectro de ancestralidade miscigenada continua na população européia-americana, da qual 10% têm ancestrais africanos, afirma Shriver. Para sua surpresa, ele descobriu que está incluído nessa parcela. Provavelmente através de uma avó mexicana, ele contém o alelo "Duffy null", uma variante de um gene que protege o indivíduo da malária e que é muito comum nos africanos do Sub-Saara, mas raro entre outras populações.

Tradução: Danilo Fonseca Genética

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,79
    3,152
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    1,18
    65.148,35
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host